Poeta

Álvaro

Alves

de Faria

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TRAVESSIAS

Alma Gentil 3

MIGUEL SANCHES NETO

E é neste sentido que Álvaro Alves de Faria se sente um ex-poeta, como alguém morto para a literatura brasileira, que enfim encontra o seu lugar na portuguesa. Ele afirmará, polemicamente, que hoje é um poeta português. Esta sua morte portanto é uma oportunidade de ressurreição, de reencontro com o pai-pátria. Ao se ausentar, ele conquista o convívio com o ausente. Assim, a morte é sinônimo de vida; a ausência, de presença; o exílio, de retorno. O filho saiu de si e deparou com o pai. Saiu de seu país e encontrou a sua pátria, vivida na distância e na alma, sua identidade mais recôndita:

 

Não mais navegaria em mim

Com esta caravela que se vai

Este poema que morre

No oceano antigo de meu pai.

 

Esta antiguidade póstuma vai ser a base do livro Inês, no qual o poeta se faz partícipe do drama de Inês de Castro, totalmente integrado à história de amor mais central da cultura lusitana. E o poeta se faz um personagem vivo, que se oferece em sacrifício num ato de adesão extrema: “Quando, aos vos matarem, / também a mim mataram, Inês”. Ao participar da morte, sofrendo-a da mesma forma que a amada-modelo, Álvaro Alves de Faria se une definitivamente a esta alma lusitana. Não mais recordação, e sim participação plena na história.

E ele morre também com a morte da poeta Sophia de Mello Breyner Andersen, no longo poema elegíaco com que fecha este volume – O Livro de  Sophia, 2008. Caminha em Lisboa novamente, com seus sapatos agora aflitos, sentindo-se ao lado da poeta morta, vivendo a sua presença como a de uma irmã, numa união de ausências.

São estes os móveis da poesia de inspiração lusitana de Álvaro Alves de Faria. Por meio deles, o poeta que não encontrava o seu lugar no Brasil, que se sentia um morto-vivo em nossa literatura, forja uma ponte com outra tradição, reconquistando sua alma perdida e nos devolvendo a uma ancestralidade que é histórica, biográfica mas antes de tudo estética.

 

Ponta Grossa, carnaval de 2008.

ALMA GENTIL – RAÍZES 4