Álvaro

Alves
de Faria

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MAIS UMA VEZ EM SALAMANCA

Deixo um resumo do que eu disse no lançamento de “Cartas de Abril para Júlia”, com tradução da poeta espanhola Montserrat Villar González, que também escreveu o prefácio, publicação da Trilce Ediciones de Salamanca. O desenho da capa é do pintor Miguel Elias, também professor da Universidade de Salamanca. Esse agradecimento foi feito por mim no Centro de Estudos Brasileiros, da Universidade de Salamanca e depois repetido na Associação Cultural Tierno Galván, no chamado “Café Literário”, em Santa Marta de Tormes, presidida por Carmen Cabrera. É um resumo de todos os eventos. No lançamento no Centro de Estudos Brasileiros fui saudade pelo poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencart, da Universidade de Salamanca, que já traduziu muitos poemas meus e o livro “Alma Afligida”. A seguir, Montserrat Villar González explicou aos presentes sua tradução de “Cartas de Abril para Júlia”. Trechos do livro foram lidos por vários poetas de Salamanca, como Soledad Sánches Mullas, Elena Dias Santana, José Maria Sánchez Terrones e Agustim Sequeros.

***

Outra vez aqui, entre amigos que representam companheiros de uma jornada a seguir. E sempre haverá uma jornada a seguir.
E sempre será necessário seguir.

Agradeço a todos que aqui estão presentes e isso também ocorre em nome da poesia. A poesia que às vezes tanto fere também tem o dom de unir as pessoas e dar identidade a um povo.

Agradeço ao Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca e à Sociedade de Estudos Literários e Humanísticos de Salamanca.

Devo esta aproximação com Salamanca ao poeta Alfredo Perez Alencart, que me convidou para o X Encontro de Poetas Iberoamericanos, no qual fui homenageado como poeta brasileiro.

Exatamente eu que sou uma espécie de dissidente da poesia de meu país e há quinze anos me dedico à poesia de Portugal e, aos poucos, estou entrando na linguagem desta poesia da Espanha, nessa prosa mágica que tem quase sempre ao fundo a figura de um Quixote que me faz sobreviver em mim mesmo.

Tudo em nome da poesia.

Alfredo Perez Alencart tornou-se um grande amigo, traduziu muitos poemas meus, publicados na antologia do Encontro de Poetas Iberoamericanos e também no livro “Alma Afligida”, lançado aqui mesmo no ano passado.

Eu agradeço a você, Alfredo, sua amizade e seu reconhecimento por uma poesia quase sempre amarga que escrevo e escrevo essa poesia amarga porque sou resultado de um tempo amargo, quase sem saída.

Quanto a este livro “Cartas de abril para Júlia”, meu agradecimento especial, de alma, vai para a poeta Montserrat Villar Gonzáles, que traduziu esta pequena novela, uma história de amor, quando as histórias de amor não existem mais. Traduziu com dedicação e delicadeza, um trabalho que me deixa envaidecido, porque sinto que Montserrat entrou no livro e com ele viveu seus momentos, seus encantamentos, seus desencantos, suas ausências e silêncios, sua dor e sua poesia.

Alguns de meus livros foram parar nas mãos de Montserrat Villar González de uma maneira inesperada, que conto rapidamente. Numa leitura de poemas aqui mesmo em Salamanca, fui cumprimentado por uma universitária chamada Manuela. Ela estava muito emocionada e demonstrava isso nos olhos molhados. Peguei seu endereço e lhe prometi enviar alguns livros meus, o que fiz. Manuela passou os livros para Montserrat que me procurou algum tempo depois e me comunicou que estava traduzindo meu livro “Motivos Alheios”, de 1983, especialmente a segunda parte desse livro chamada “Resíduos”, escrita em 1969, quando estive preso por subversão. “Resíduos” foi escrito em 1969 e só foi publicado a primeira vez em 1983, por causa da ditadura em meu país.

Desse contato com Montserrat nasceu uma grande amizade que resultou na tradução de “Cartas de Abril para Júlia” que teve uma edição em Portugal, duas no Brasil e agora esta na Espanha, a partir de Salamanca, com a contribuição de Alfredo Perez Alencart.

Agradeço seu trabalho, Montserrat, sua poesia, seu cuidado em elaborar as palavras para dizer o que escreveu um poeta brasileiro, quase sempre sem rumo em relação ao mundo. Eu sou um desajustado de mim mesmo.

Posso dizer que Montserrat viveu o livro, entrou no livro, participou do livro, caminhou com sua narrativa, com seus dois personagens vivendo uma imensa solidão, que é a solidão de nosso tempo.

“Cartas de abril para Júlia” é uma história de amor. Essa história de amor é, antes de tudo, uma carta de amor à vida, o despojamento do homem diante e dentro de si mesmo, à procura de sua própria descoberta. Um homem e sua Rainha em terras de Espanha, com essa linguagem poética que procuro desvendar sempre, em seus segredos, mistérios e silêncios.

O livro é todo construído na linguagem da poesia, na narrativa poética que me vem de Portugal e entra nas palavras na época de Cervantes, essa poesia que cativa, que encanta e faz enaltecer o que ainda resta viver.

São somente 27 pequenos capítulos de uma história de amor, exatamente quando as histórias de amor deixaram de existir diante de uma brutalização que atinge a quase tudo. Mas é preciso seguir. Sempre será preciso seguir. Sempre será preciso abrir os braços e se deixar encantar pelo que resta da poesia e dos poetas que ainda insistem em existir.

SAUDAÇÃO DE ALFREDO PEREZ ALENCART

PERNOCTADAS DE UN QUIJOTE
APELLIDADO ALVES DE FARIA

Fotos

PREFÁCIO DE MONTSERRAT VILLAR GONZÁLES

Carta de Mayo para Álvaro Alves de Faria
Salamanca, 4 de mayo de 2013

La vida es un viaje, pero un viaje en el que muchos se conforman con ver pasar el paisaje ante sus ojos y otros, como usted, buscan dentro de su interior a lo largo y ancho de todo el camino. Cartas de Abril para Júlia, a mi modesto entender, es la metáfora de ese viaje interior: inquietante, desordenado, inacabado, como lo es el propio pensamiento y el reflejo de este en la prosa-poética que construye su pequeño-gran relato. Una búsqueda en la que el autor (usted, Álvaro Alves de Faria), es consciente de que la palabra no puede expresar lo que se clava en el alma y necesita imágenes que nos lleven a entender esa ansia de encontrar el lugar, su lugar de origen. ¡Qué difícil expresar si no existiera la metáfora ni la ruptura lógica del lenguaje!
La vida es un éxodo, pero todos somos conscientes de estar realizándolo cuando ya nuestra memoria está cargada de recuerdos, olores, sabores, palabras, poesía, que otros nos han transmitido. Es en ese momento en que la certeza, hasta ahora irrefutable, sobre nuestro origen, se convierte en obsesión y anhelo por llegar al lugar al que realmente se pertenece: “Quando invadiu-me, eu ainda acreditava nas coisas que me rodeavam” / “Ao ver Júlia, sabia que via também meus passos em busca sempre das montanhas, onde me deixo ficar à espera de mim, como se me viesse alguma vez”. Julia, mujer deseada como el sentimiento, expresado por los místicos españoles, de salvar el abismo que separa del paraíso al poeta anclado a una realidad que no le llena. Imagen del otro mundo de partida de los navegantes del siglo XV, la Península Ibérica: Portugal, Idanha, Coímbra y España o Argamasilha de Alba.
Portugal, un lugar conocido a través de su literatura, historia, pero sobre todo a través de los ojos de sus progenitores. Por lo tanto, imagen engrandecida por recuerdos de su familia, recuerdos infantiles que se clavan en el alma. Por eso Julia: “tem gosto de açúcar na boca” como lo tiene la niñez. Imagen menos real que leyenda, pero leyenda necesaria que los emigrantes crean en su memoria para poder sobrevivir al “destierro”, al igual que los primeros navegantes, al igual que Ulises. Origen y fin de esa búsqueda humana y de esa necesidad de conocimiento infinito que, a medida que alimenta, más ansias provoca: “Foço chaves para me trancar mais” / “Alimentava-me en raizes que me cortavam os pulsos”. Un Portugal, al fin, que representa la saudade de Pessoa y al que se reconoce literariamente en símbolos de la narración.
España, un Quijote que busca sueños que salvan del destierro, que llega a sentir el dolor de los fados, que es consciente de la inexistencia real de Júlia, Reina del lugar de origen del propio Cervantes (Argamasilha de Alba). Realidad y ficción, juntas para conseguir arribar al puerto que habita la memoria y salvarse de la conciencia de no ser nada sin encontrarse a uno mismo.
Realidad y sueño, noche y día: “Sei também que a Rainha Júlia pinta as unhas com a cor do crepúsculo, daqueles que não existem mais”… Julia, reina de un castillo que forma parte de un reino al que desea llegar y del que desea formar parte. Paraíso inalcanzable que dibuja en el corazón las cicatrices que, este peregrinaje, al conocimiento de uno mismo va marcando. Espejos que reflejan el paso del tiempo y la larga distancia que separan al viajero de su añorado destino. Pero, destino, al fin, que da sentido a la vida y a su propia expresión, el poema: “Resta-me dela o que exauriu para sempre. O verso do poema e do poema a poesia inexistente, dessas que ferem por dentro e fazem sangrar sentimentos e desejos” / “Eu não conheço a Júlia [...] mas ela vive dentro de mim. Respira dentro de mim,...”
Destino que mueve al poeta desde el inicio del mundo conocido y que se convierte en un viaje de ida que tendrá que ser recorrido a la inversa por el autor 6 siglos después, con todo el equipaje que su memoria y alma pueda soportar, para llegar a dar sentido a su existencia en el Viejo Mundo que sus padres, alguna vez habitaron: “Me deixas-te calar em ti sentimentos que em mim haviam morrido no século 15, quando sai de mim em busca do que me era permitido viver”.
Ojalá, mi admirado y, ya, querido poeta Álvaro Alves de Faria, llegue pronto a habitar en ese reino mágico de su memoria y que, como usted dice, “Ordenará sonhos. Poderá ordenar silêncios. Também dores. Ordenará as tardes e as chuvas. Também ordenará cicatrizes. Ordenará a saliva da boca. O espanto”. Ojalá, su alma se complete con las piezas del puzle que le faltan y sus anhelos se conviertan en vida. Ojalá, todos los que buscamos nuestros mundos de leyendas, canciones antiguas, historias contadas por abuelos y paisajes diferentes, encontremos la belleza alguna vez.
Mientras tanto, querido poeta, nos quedan los versos y los sueños que alimentamos con palabras.

Con mi mayor respeto y cariño.

jornal salamanca

Pernoctadas de un Quijote apellidado Alves de Faria

Uno agradece tener amigos como Álvaro Alves de Faria, pues cualquier encomio queda minimizado por la alta calidad de su escritura. No hay que exagerar nada. No es necesario hipérbole alguna para que su obra sea aceptada por quien a ella se acerque. El deleite está asegurado; pero no es un deleite que linda con la hermosura sino con el sacudón trascendente, con el desasosiego que no permite cicatrizar la herida… Pues ahora se ha empeñado en volver a la Salamanca que muy metida tiene en el corazón. Y como buen brasileño (aunque reniegue de ello), no desea venir con las manos vacías. En marzo traerá, como ofrenda, un pequeño librito escrito en aparente prosa. ¿Su título?: Cartas de abril para Julia. Esta obra se publicó por vez primera en Coimbra, el año 2010, con prefacio de Graça Capinha, profesora de la Universidad de Coimbra. Al año siguiente hubo una edición brasileña. Y ahora, ya en el idioma de Cervantes en virtud de la acertada traducción de Montserrat Villar, se publica bajo el sello de Trilce. Para la contraportada de esta edición me pidió unas letras, que reproduzco más abajo.

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Álvaro Alves de Faria

Pero antes, conviene dar algunos datos mínimos de este poeta que fue apresado por subversivo en tiempos de la dictadura de su país.

Álvaro Alves de Faria (Sao Paulo, Brasil, 1942), uno de los más destacados poetas brasileños actuales, autor de más de cincuenta obras en poesía, novela, ensayo o crónica. Ha obtenido importantes premios, entre ellos el Jabuti, en dos ocasiones. Su obra poética va desde Noturno Maior (1963) hasta Almaflita (2013), pasando por Tempo final (1964), O sermão do viaduto (1965), 4 cantos de pavor e alguns poemas desesperados (1973), Em legítima defesa (1978), Motivos alheios (1983), Mulheres do Shopping (1988), Lindas mulheres mortas (1990), O azul irremediável (1992), Pequena antologia poética (1996), Gesto nulo (1998), 20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra (1999), Terminal (1999), Vagas lembranças (2001), Poemas portugueses (2002), A palavra áspera (2002), À noite, os cavalos (2003), Trajetória poética, (2003), Sete anos de pastor (2005), A memória do pai (2006), Os melhores poemas (2006), Bocas vermelhas-poemas para um recital (2006), Inés (2007) y Babel (2007), Resíduos (2012) y O Tocador de Flauta (2012), entre otros. En 2007 la Ciudad de Salamanca le tributó un homenaje, publicándole una antología titulada Habitación de Olvidos, con poemas suyos traducidos por A. P. Alencart.

3.

(Pernoctadas de un Quijote apellidado Alves de Faria)

A veces pareciera que el sueño estampa sus caprichos. Pero no se trata de caprichos; tampoco de sueños: lo que se reportan son esquirlas de otra realidad que preña el ADN del ser humano: ancestros, paisajes de antaño, historias del imaginario popular, vuelta a los orígenes… Todo confluye en este vuelo o travesía golondrina, en esta reconquista de suelos hispanos y lusitanos emprendida por un poeta brasileño al que lo aloca la saudade.

A veces pareciera que leemos unas cartas en prosa. Pero no se trata de cartas; tampoco de prosas: lo que florece es la Poesía ataviada cual Julia o Diosa ambarina: y el Amor mostrándose desde el reinado del alma o, desde Argamasilla de Alba, por aldeas y lugares de una Península que siente como suya desde antes del éxodo: y también Amor a una lengua y a una tradición que recaptura a sorbos, valiéndose de la ucronía y de aquello que dicta la noche de los tiempos.

Y en este viaje, cada noche pernocta en los brazos de una Dama a la que no puede ver el rostro. La única presencia de Julia es su inmanencia: ella posee al escriba que la pretende, lo asfixia en su intimidad, le quita las palabras hasta que desaparece la poesía. Entonces, ya viudo de su primera ciudadanía, el poeta empieza el lento desentierro de los tesoros que ocultó tras la navegación oceánica. A ella, con los blancos cabellos alborotados por el viento, pareciera decirle: “Óyeme estas oraciones que elevo para celebrar lo que no muere”.

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Don Quijote, óleo de Miguel Elias

FRAGMENTOS DE ‘CARTAS DE ABRIL PARA JULIA’

(Traducción de Montserrat Villar González)

2)

Haré que Julia renazca todos los días en mí. La convertiré en Reina y yo seré su amoroso siervo, para que pueda revelarme sus secretos. Caminaré con ella por las imágenes que me habitan, especialmente las nocturnas, con los ojos abiertos. Recorreré lugares que guardo, las iglesias medievales, los campos más antiguos. Pasearé por las páginas de los libros, en las palabras exhaustas. La Reina, decretará sueños. Podrá decretar silencios. También sufrimientos. Decretará las tardes y las lluvias. También decretará cicatrices. Decretará la saliva de la boca. El espanto. Será una Reina que pueda “crear” sentimientos a la espera de las sombras. Será aquello que tiene que ser, el gusto de la naturaleza, el higo en el delantal de la mujer que no existe, solamente el ser invisible que corta el tiempo en lo que no es. Reina de mi intimidad, Julia se dedicaba a coger semillas, especialmente de granadas. También de uvas y cerezas. Cerezas rojas que dejaban en su boca una línea roja de mujer. La aldea de su reino silenciaba los vientos de las tardes y dejaba que las ovejas caminasen distancias. No hablábamos. Teníamos la boca unida en un beso invisible, como si nos escondiéramos en un estuche de terciopelo, donde los presentimientos vivían inquietos. Todas las mañanas, yo abría las ventanas del castillo de donde reinaban gestos. Cortinas oscuras hacia el verde de las planicies. Julia me extendía su delantal de silencios y guardaba mis últimos gestos, aquellos que caían de mis manos. Guardaba también mis pensamientos. Guardaba, incluso, las imágenes que yo cogía de las nubes y de un mar imaginario, del que partía todos los días de mí, como si caminase a mi alrededor, para buscarme en una iglesia de dioses perdidos. Después iba conmigo a recoger las piedras que nos contaban historias por la noche. Nos olvidábamos, entonces, de nosotros mismos y nos dejábamos adormecer como se duermen las aves en las ramas de los árboles, en la ropa que nos cubría bajo el frío de la niebla, porque las montañas se cubren de blanco y el paisaje, entonces, se recrea en el verde húmedo junto a los zapatos.

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Mozas de pueblo, pintura de Miguel Elias

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