Poeta

Álvaro

Alves

de Faria

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                        1.

 

O primeiro golpe ela deu do lado direito, em cima do ombro. O punhal

 reluzente entrou, acredito, nuns sete centímetros. A ponta deve ter atingido

 o pulmão. Eu me vejo no espelho, caindo devagar. Me agarro na cômoda. Vejo Camila B. com os olhos de espanto. Ela não acredita no que está fazendo. O punhal na sua mão direita está manchado de sangue. Um punhal reluzente, que eu lhe trouxe do Marrocos, quando estive lá numa expedição científica. Mas não é hora de pensar nisso.

Conto

Camila B.

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2.

 

Estive no Marrocos no mês passado. Trouxe para ela um vestido e um colar da Mauritânia. Também trouxe um pequeno livro de ensinamentos, dizendo que de 700-710 d.C. o Marrocos foi conquistado pelos árabes de Musa ibn Nusayr, que impuseram o islamismo às tribos berberes, cristãs, judaicas ou animistas. Isso é só o começo. Mas Camila B. não se interessou pela história do Marrocos. Ela admirava mesmo era o punhal, a lâmina reluzente. Vejo-me no espelho e minha camisa branca tem um risco vermelho que começa em cima do ombro vermelho. Acho que o punhal entrou sete centímetros. Deve ter atingido o pulmão. Já sinto dificuldades para respirar.

 

 

 

3.

 

Quando nos conhecemos, há quatro anos, numa livraria do centro, a primeira coisa que ela me perguntou foi sobre meu signo.

-Sou Aquário, respondi.

Ela fez então uma dissertação sobre Aquário, todas as histórias de Aquário, tudo sobre os aquarianos. Cheguei a pensar que eu não era deste mundo.

Perguntei-lhe então sobre seu signo:

-Sou Sagitário

Foi uma exclamação tão imensa que algumas pessoas olharam pra aqueles olhos risonhos e reluzentes como o punhal.

Disse-me:

-Sagitário usa o conhecimento para entender o mundo. Sagitário é o signo da filosofia e da religião. Os sagitarianos são os mestres e os aprendizes do Zodíaco. Buscam a verdade e o sentido da vida através do conhecimento. E o conhecimento é o centro de suas vidas. Eu sou assim.

Falou-me – eu me lembro agora, já caído no chão - sobre o símbolo astrológico de Sagitário, que é um arqueiro, um centauro, metade homem, metade cavalo. Centauros eram sábios e intelectuais na mitologia grega e romana. Eram também de temperamento agressivo.

Não sei porque penso nisso agora.

 

 

 4.

 

Saímos da livraria e caminhamos pela cidade, como dois adolescentes que se conhecem no ginásio.

Foi o primeiro amor da minha vida. Primeiro e último, já que ela está me matando. Tenho 36 anos. É muito cedo para morrer. Mas ela está decidida e eu não sei exatamente o que fiz. E para morrer basta o primeiro golpe que me deu, em cima do ombro direito. Estou perdendo muito sangue.

Tento falar com ela, mas não consigo.

Ouço o que ela diz. Coisas espantosas.

Ainda penso: Mas, se ela sempre me disse que Sagitário é o signo da filosofia e da religião, por que está fazendo isso comigo ?

Um dia me falou:

-É importante ao sagitariano viver a vida ao máximo.

Penso:

-Então, por que não me deixa viver ?

 

 

5.

 

Ontem falou-me apressada que sentia dores musculares, especialmente nas coxas e no nervo ciático, o que se refletia nos quadris. E disse-me que esse era o seu ponto fraco, sendo ela de Sagitário.

Tentei dizer que ela podia situar sua vida em ouros valores, que nem tudo se guia pelos astros.

Não sei exatamente porque disse isso.

Ela teve um ataque de nervos.

E me disse coisas inacreditáveis.

Me acusou de todos os males do mundo.

 

 

6.

 

15 de abril:

Começam a evoluir situações que estavam paradas e sua solução, positiva ou negativa, depende do estado de espírito com que as enfrentar. Dia de realizar todos os desejos guardados.

Trabalho: Abrem-se portas que lhe permitirão êxito em diversos ramos. Talvez não consiga grandes coisas, porque lhe falta o impulso necessário. As decisões são acertadas, especialmente no plano econômico.

Amor: Tendência pra se mostrar afável na sua conduta. Influência benéfica que se reflete na sua qualidade de vida. Comunicação fluida e relações em bom plano. Período decisivo pra a família e um novo relacionamento.

Saúde: Conseguirá alcançar o equilíbrio com exercícios físicos logo pela manhã seguidos de um copo de leite.

 

 

7.

 

Voltei do Marrocos carregado de sonhos, que terminam agora. Por que é que eu fui ao Marrocos ?

 

 

  8.

 

Sei que Camila B. está falando no quarto. Ouço sua voz ao longe. Não compreendo bem as palavras, mas sei que fala meu nome algumas vezes seguidas.

Seus gestos são rápidos.

Ela está vestida de branco e usa o colar da Mauritânia.

O punhal na mão.

Reluzente.

Antes de me golpear em cima do ombro direito, num movimento de cima para baixo, ela lia Jorge Luis Borges, que nasceu num dia 24 de agosto, do signo Virgem.

Gostava de ler Borges por sua literatura, não pelo seu signo.

Antes de me apunhalar, lia Borges.

O que fez não é condizente com quem lê Borges.

 

9.

 

Sinto meu corpo esfriar, mas ainda consigo ouvir.

Camila B. diz que os sagitarianos como ela têm horror ao sofrimento e à dor.

Sinto meu corpo esfriar.

Desde em mim uma noite muito pesada.

 

10.

 

Onde estão, neste momento profundo, todas as palavras de amor ? Aqueles que invocaram o planeta Júpiter que rege Camila B. e que na mitologia representa o pai dos deuses e dos homens ?  Aquele que estabelece a harmonia ? Onde estão aquelas palavras de amor especialmente noturnas ? Onde estão as palavras ? Onde está a noite ? Onde está o sol ? Onde estão as estrelas ? Que astro gira sobre minha cabeça, com este peso enorme que consome minhas forças ?

 

 

11.

 

Cheguei do Marrocos no dia 14. Ontem.

Trouxe um vestido, um colar da Mauritânia e um punhal reluzente.

 

 

12.

 

O teto roda em cima de mim.

Camila B. é uma miragem que se mistura nos quadros nas paredes.

O punhal na mão, as unhas de esmalte vermelho.

Ouço claramente o que diz.

Agora ela se agacha e fala suavemente ao meu ouvido que afundará o punhal do meu lado esquerdo, bem em cima do coração.

E diz que será rápido, não vai doer.

 

 

 

Conto de Álvaro Alves de Faria publicado na antologia "O Zodíaco, doze signos, doze histórias", vários autores, Coleção

Prosa Presente, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2005.