Crítica

Álvaro

Alves
de Faria

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A trajetória de lâminas na poesia de Álvaro Alves de Faria é uma constante esclarecedora, pois o poeta assemelha a sua dicção à claridade concreta da palavra:

Meus sapatos

caminham

sobressaltos

O longo destino de Álvaro Alves de Faria é espantoso:

Meu pai

nunca soube

que eu morri.

 

Levantava-se às manhãs

e ia à terra e às ovelhas

e ao passar

pelo meu quarto

pensava-me a dormir.

 

À noite voltava

com as mãos cheias

de castanhas

e ao ver-me ausente

imaginava-me a navegar

oceanos distantes.

 

Jamais nos encontramos

nos cômodos da casa.

 

Meu pai

nunca soube

que eu morri.

 

O pensamento de Álvaro Alves de Faria é lúcido, objetivo, exato:

 

No shopping, todas as mulheres

casadas são suspeitas.

Andam devagar com olhos azuis

e pensam na vida

em silêncio.

 

No shopping, as mulheres casadas

sentem a vagina molhada

e umedecem os lábios

para um beijo impossível.

 

No shopping, as mulheres casadas

mostram os seios, as coxas,

a calcinha de renda

e de náilon.

 

Mordem a ponta dos dedos,

tomam laranjada e coca-cola,

lêem os cartazes do cinema

e suspiram de amor.

 

No shopping, as mulheres casadas

se esquecem

e tecem a tarde com perfume,

molham a língua

com um doce de chocolate

e deixam o bico do seio crescer.

 

No shopping, as mulheres casadas

procuram revistas e livros,

a blusa de Los Angeles,

os sapatos azuis

e até um vestido de noiva.

 

No shopping, as mulheres casadas

sugam o batom da boca

e desejam outros desejos

impenetráveis.

 

No shopping, as mulheres casadas

gozam em cada olhar

e depois ficam mais tristes.

 

Concordo com o crítico Antonio Carlos Secchin quando informa que a poética de Álvaro Alves de Faria demonstra que viver é algo que sangra:

 

Que me sinta assim morrer antes da Primavera

como se a querer sentir o que não sinto

como se a sentir o que não tenho e o que não me dera

a dizer da verdade o que de certo apenas minto.

 

Em seu poema Auto-Retrato, tem-se um registro cabalístico da profunda especulação existencial de Álvaro Alves de Faria:

 

Ando sempre com a sensação

de estar à beira de um colapso.

Mas sei que isso faz parte

da brutalidade cotidiana.

Enquanto não dou um fim a tudo,

me submeto à próxima

vondade de existir,

como se tudo fosse normal.

 

O grande escritor que é Álvaro Alves de Faria nasceu em São Paulo, em 1942. Portanto, em 2012, comemora-se o seus 70 anos de vida, essa postagem é uma homenagem ao seu caminho de cortes:
 

Chega uma hora em que a poesia

não basta em si,

chega uma hora em que a poesia

não basta em ti

chega uma hora em que a poesia

não basta em mim

 

Poemas de Álvaro Alves de Faria

Minuta de Diego Mendes Sousa

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