Crítica

A MEMÓRIA DO PAI

Carlos Felipe Moisés


Este longo poema que se desdobra em vários representa o mergulho vertiginoso do poeta na fresta imponderável do Tempo, em que a verdade de toda uma vida se lhe revela à consciência ao mesmo tempo lúcida e alucinada, pois que enleada em conquista definitiva e em perda irreparável.

Seu compasso elegíaco diz logo a que desígnios responde, já na abertura da série:

Meu pai

nunca soube

que eu morri.

Vida, morte e consciência aí se cruzam e se enovelam, na tentativa inútil de apresar a fragilidade do instante irrepetível, preservado da voracidade dos acontecimentos, mas que só ganhará algum sentido quando e se projetado para fora das malhas do Tempo. Só então será possível saber que nada se passou e nada se passa, porque tudo continua a passar.

Convertida em memória, por obra dos fatos e da vontade deliberada, a imagem do pai ausente põe a nu a matéria de vida plena que sempre a formou, e por isso passou despercebida, vindo agora, trocado o sinal, a povoar o espírito do poeta, aturdido pela certeza da própria extinção.

Recuperada a partir de uma ou outra cena singela, a partir da banal delicadeza de um ou outro retalho da vida quotidiana, a imagem do pai desaparecido se converte no espelho dúbio onde se reflete a morte em si – não a morte do que foi, mas do que, pessoanamente, poderia ter sido e nunca chegará a ser.

Por isso o poeta alterna entre a evocação, que afasta, e a invocação, que aproxima e acaba por introjetar a imagem paterna. Assim, a vertigem da memória resulta em viagem ao interior de si mesmo, no encalço daquela vida plena que poderia ter sido e que se transforma em simulação da morte:

Não sei dizer pai dessa alegria

com que me falas

nem sentir sei o desejo de viver

que guardas em ti.

Sei apenas da melancolia

com que te calas

a sentir em mim

o que de mim nunca senti.

Não por acaso, o cenário predileto dessa evocação-invocação é o entardecer, no campo, como no comovente devaneio que começa

Na figura desse pastor a olhar a tarde

vejo meu pai.

Cenário bucólico, de indisfarçável extração literária, é onde o poeta reúne os seus numes tutelares: Sá de Miranda, Camões, Garrett, Antero, Antônio Nobre, Eugênio de Andrade, expressamente referidos ou enviesadamente revisitados – aqui os redondilhos de um, ali as rimas ou as quadras de outro. Talvez sejam todos, na verdade, desdobramentos da imagem soberana de um Pai tornado sempre Outro, a partir da identificação com esse pastor anônimo, ao pôr-do-sol, metáfora multiplicada do Eu que parte ao encontro de si, a navegar as noturnas águas do “imenso rio a correr atrás da casa”:

O castigo de não me ser

a olhar meu rosto mais velho

como se ainda estivesse a viver

minha imagem guardada no espelho.

A predileção pelo entardecer vem a figurar, então, com certeira simplicidade, a obsessão do poeta pelo instante fugidio, a passagem, a transitoriedade – aquele momento errático em que tudo perde os contornos e a nitidez, e as coisas já não são o que foram, mas ainda não chegam a ser o que finalmente serão, no instante seguinte, que mal se adivinha. Assim, entre ser e não-ser, guiado pela memória do Pai, o poeta apreende a plenitude do seu eterno devir – que a ironia da rima única anuncia, quem sabe, como eterno retorno:


quando penso em nascer

sinto mais que envelheço

e quando me penso lúcido

muito mais me enlouqueço

quanto mais chega a manhã

mais em sombras anoiteço

quanto mais me desfiguro

mais comigo me pareço.

Em busca de si mesmo, em busca de suas fontes primeiras – que outros caminhos poderia trilhar um poeta irremediavelmente lírico, na posse de sua maturidade?

PEQUENA CARTA DE NELLY NOVAES COELHO SOBRE "BABEL"


Querido poeta

 

Aproveitei o sossego do domingo para percorrer sua iluminada/terrivel poesia...Inclusive a arte com que o volume foi feito cria a atmosfera propícia à integração do leitor com a poesia. Maravilha! Com que argúcia e sensibilidade você foi tecendo a grande teia da Poesia Brasileira e seus caminhos ou descaminhos em meio à Poesia Universal! Como ousas pensar-te um "ex-poeta" ? Agora é tarde...não percebeste que durante esses anos todos de criação, angústia e exaltação poética, aos poucos foste saindo do Tempo e entrando na Eternidade ? Como vês, agora é tarde...Já és pertença definitiva da Torre de Babel da Poesia! Que alegria, saber que és meu amigo!


Fraternalmente,


Nelly.

Copyright © 2008 Álvaro Alves de Faria. Todos os direitos reservados.

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