"Desviver" em São Paulo

Álvaro

Alves
de Faria

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Canal do Poeta

“DESVIVER” EM SÃO PAULO

O lançamento de “Desviver” em São Paulo, publicado pela Escrituras, foi somente um encontro de amigos e amigas que compareceram para trocar afetos na Livraia Martins Fontes Paulista, no dia 10 de dezembro de 2015. Nesta página estão muitas das fotos que registraram esse encontro mais de carinho que literário. A capa do livro foi feita com um desenho meu, da série “Sombras”, 55x35, água, nanquim e pincel, num projeto que percorre a obra, realizado pelo editor e poeta Raimundo Gadelha, que inclui, também, um autorretrato na primeira orelha do livro. Os encontros afetivos são bons para acalentar ainda alguns sonhos já proibidos de sonhar diante de uma brutalização quase geral. E de esquecimentos também. E também de indiferenças. E também de alguns descasos, cada vez maiores.

LANÇAMENTO

Fotos de:
- Nelson França
- José Anito
- Daysi de Fátima Alves de Faria

Desviver

Miguel Jorge

Neste novo livro, Álvaro Alves de Faria constrói e descontrói o nosso Desviver, com a dor profunda de quem perdeu a antiga doçura. É a afirmação mais significativa de sua trajetória poética. Um apelo sincero a sensibilidade. O limiar de um novo ciclo que se abre agora em sonoros significados, que nos remetem também a auto-reflexão. Efeito consciente na construção dos versos, na busca da palavra certa, nos focos de sonoridade ampla, na relação vida e transformações identificadas ao longo do caminho. É como se o poeta estivesse de volta de um longo percurso e, pleno de símbolos, nos indicasse a sobreposição do que foi e do que poderia ser entendido. É de se ver e notar a profundidade de informações com possibilidade histórica, num revezamento representativo dentro da própria obra. “Desviver” marcará a trajetória do grande poeta que, sem dúvida alguma, entrará na constelação mais ampla da poética universal.

DESVIVER

Moacir Amâncio, jornalista, escritor e professor doutor adjunto da

Universidade de São Paulo.

DESVIVER (2015) - Obra solar de Álvaro Alves de Faria

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A obra DESVIVER de Álvaro Alves de Faria, em sua edição publicada em Portugal

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"Neste novo livro, Álvaro Alves de Faria constrói e desconstrói o nosso Desviver, com a dor profunda de quem perdeu a antiga doçura. É a afirmação mais significativa de sua trajetória poética. Um apelo sincero a sensibilidade. O limiar de um novo ciclo que se abre agora em sonoros significados, que nos remetem também a auto-reflexão. Efeito consciente na construção dos versos, na busca da palavra certa, nos focos de sonoridade ampla, na relação vida e transformações identificadas ao longo do caminho. É como se o poeta estivesse de volta de um longo percurso e, pleno de símbolos, nos indicasse a sobreposição do que foi e do que poderia ser entendido. É de se ver e notar a profundidade de informações com possibilidade histórica, num revezamento representativo dentro da própria obra. “Desviver” marcará a trajetória do grande poeta que, sem dúvida alguma, entrará na constelação mais ampla da poética universal."

Depoimento de Miguel Jorge

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Miguel Jorge e Álvaro Alves de Faria

"Álvaro Alves de Faria, nosso grande poeta paulistano. Coração generoso, alma sensível, guerreiro incansável."

Depoimento de Antonio Ventura exclusivo para Diego Mendes Sousa

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"Confesso que “Desviver” é um livro que considero bastante estranho em toda minha obra poética.

Nenhuma vez em toda minha vida conclui um livro e entreguei os originais imediatamente ao editor. Esta foi a primeira vez.

Entreguei ao Jorge Fragoso, da Palimage, em Coimbra, a Raimundo Gadelha, da Escrituras, de São Paulo e também à poeta espanhola que vive em Salamanca, Montserrat Villar González, que já o traduziu para publicação na Espanha.

Na verdade, nesse lidar diário com a poesia alguma coisa vinha se desenvolvendo dentro de mim, algo que eu não sabia explicar. Mas era alguma coisa que não saía de mim, dia e noite.

Até que numa madrugada pensei em viver ao contrário ou do avesso, ainda não sei dizer. Era, sim, alguma coisa que tem a ver com a elaboração da poesia, do poema, mas tinha, também, algo muito forte na questão existencial.

E dentro desse clima escrevi um poema em que apareceu a palavra “desviver”.

Senti que essa palavra tinha tudo a ver com o que eu vinha sentindo há muito tempo, nessa trajetória que não termina nunca envolvendo a poesia, essa dor da poesia, esse corte da poesia, esse sangue da poesia que escorre sempre sem que o poeta nem perceba.

Às vezes o poeta está com sua blusa branca cheia de manchas vermelhas de sangue e ele nem sabe o que é.

Fiquei algum tempo com essa palavra “desviver” na cabeça. Até que perguntei: Por que viver para “conseguir”. Por que não viver para “desconseguir”? Por que viver para “caminhar”? Por que não viver para “descaminhar”? Por que viver para “fazer”? Por que não viver para “desfazer”. Por que “viver” para viver? Por que não “viver” para “desviver”.

E “Desviver” passou a ser o título do livro que ainda estava por escrever. Dizer tudo ao contrário, a se negar no que está estabelecido e eu, particularmente, não sei o que está estabelecido. E faz tempo que não quero saber. E não quero sequer saber o que está estabelecido em todos os setores da vida.
E assim os poemas começaram a ser escritos, diariamente. Todos os dias trabalhei nesses poemas à procura não do “fascínio”, mas do “desfacínio”. À procura não da “palavra”, mas da “despalavra”. À procura não da “poesia”, mas da “despoesia”. Não do “poema”, mas do “despoema”.

Além de literária e da poética, tratava-se de uma questão íntima de um poeta que é poeta 24 horas por dia em tudo que faz. Essa é minha sina, esse é meu fado, esse é meu destino. Esse é o meu “desdestino”. A minha “dessina”. O meu “desfado”. Tudo ao contrário. Tudo no que se nega, no que não é ou não pode ser. O que tem de “desser”, como se tudo se desfizesse e se desconstruísse.

E na verdade tudo se desconstrói. Talvez não sendo possível desconstruir a própria poesia, quero desconstruir a linguagem poética, a “deslinguagem” “despoética”. Talvez seja isso. “Destalvez” seja assim.

Quero “desescrever” o “deslivro” com a “despalavra”, com a “despaixão”, com o “dessentir” para que tudo se “desesclareça”.

Seja como for, acho e “desacho” que “Desviver” é um livro de poesia. Não sei se isso é importante ou “desimportante”. Não sei de mim como poeta e pouco me importa saber. Chega uma hora em que tudo começa a ficar distante e a ficar ausente. Esse é o corte. Esse é o desfecho. Esse é o gesto possível. É o que ainda pode existir."

Depoimento de Álvaro Alves de Faria

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Álvaro Alves de Faria e Lygia Fagundes Telles

1

Sair da vida
como do avesso
de outra vida
desvida do que já foi
renascer
no que não há
desfazer-se em si mesmo
como o inseto
que se desvenda
sair da vida
desviver por dentro
como a sair por uma porta
igual ao que se desfaz
e se iguala ao que não é
como se não fosse
esse percurso
de se encontrar
onde reza a alma
e se dilacera
num tempo inútil
como se houvesse
ainda o pressentir
o ser da ausência
de se sumir
o ser do ser
a se punir
num só golpe
num somente
o que não resta
no que não sente.

5

Destruir-se
no desdém
descalar-se
no descaso
desescobrir-se
em desespero
que desespera
e se repassa
na sempre espera
na fúria os pássaros
que destelham a casa
as figuras
que fogem dos quadros
quebrados no chão da sala
que passam pelas portas
no fundo da vala
e depois regressam
desregressam
asas como escamas
desconhecidas
como o que não chega
e não se basta
se desbasta
desesquecer-se
do desesquecimento
que nada há a lembrar
no dessegredo
o nada a descobrir
desredescobrir
tudo está completo
no que não se descompleta
no que se determina
a face a desfazer-se
que a nada se destina.

10

Desdesligar-se
do desazul
do que se encerra
no desencanto
que desenterra
dessentimentos
desnecessários
as desdatas
de obituários
desencontar-se
em sua dívida
desfigurar-se
em sua súplica
o desrítmo
dessa música
despersonagem
do desespetáculo
desavidez
do que é ávido
a primeira vez
do que é último
desse número
que se enumera
despermanecer
no que é desprimavera.

13

Doravante
andar para trás
de costas
aos oceanos
nas tardes
das marés
andar sem ver
o rumo dos pés.

22

Desexistir
na fotografia
desimagem
do desantigo
a desigreja
a desprece
a deslágrima
o desdeus
desaceno
desperdido
na pedra
do desalento
a despedra
do acalento
o calendário
que se apaga
despoema
em um diário
o gesto inútil
na mão precária
desoceano
na desmúsica
sem sua ária
desfazer-se
do desmomento
do que resta
desse instante
desprosseguir
adiante.

26

Desperceber-se
na fotografia
o chapéu
da vida
o chapéu do dia
na desfotografia
do tempo passado
desantigo rosto
que não se conhece
na cicatriz
que aparece
e se desencanta
no encantamento
como se assim
fosse merecer
desmerecido
merecimento.

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