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DOMITILA

Poeta com Ricardo Szwarc

Poeta Antonio Martins

Poeta lendo poema na Biblioteca Municipal de Alvaiázere

Domitilacapamenor MarquesadeSantosmaior

O LANÇAMENTO DE “DOMITILA”

       “Domitila” – poema-romance para a Marquesa de Santos – foi lançado no dia 13 de setembro de 2012 na Livraria Martins Fontes Paulista. Antes, em agosto, foi apresentado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Foi uma festa entre amigos e muitas pessoas que passei a conhecer. Capa de Ana Paula Megda. Um fragmento da história brasileira. O belo prefácio de meu amigoRoniwalter Jatobá. Publicação da Editora Nova Alexandria. E neste espaço agradeço muito à editora e amiga Rosa Maria Zucchirato, que confiou nesse trabalho escrito já há alguns anos. Para falar do livro, recorro ao texto da jornalista Janaína Gomes, assessora da imprensa da Nova Alexandria:

 

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 -Domitila – poema-romance para a Marquesa de Santos – é o mais novo livro do poeta Álvaro Alves de Faria. A obra é resultado de um trabalho desafiador proposto pelo escritor, de recriar as cartas que a Marquesa de Santos enviou ao imperador D. Pedro I e que teriam sido destruídas. As correspondências, pelo que se sabe, foram enviadas no período em que ambos viveram um romance. Já as cartas escritas por D. Pedro I, que foram preservadas, constituíram o ponto de partida do escritor. Ao todo, ele selecionou 47 missivas e assumiu o “eu lírico” de Domitila para escrever as respostas em forma de poemas com linguagem feminina. Segundo o autor do prefácio, Roniwalter Jatobá, nas 47 cartas e poemas estão condensados sete anos de amor (e desamor) entre o imperador e sua súdita: “É uma história que começa como quase todas as grandes histórias amorosas, com raras exceções: inicialmente, arrebatadora paixão; depois, o clima de rusgas, mágoas, ciúmes e dor. O poeta tentou – e conseguiu – responder às inquietações de uma mulher, também perdida em seu labirinto”. Para a elaboração do livro, Álvaro Alves de Faria fez também um intenso trabalho de pesquisa histórica. Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, foi a mais famosa amante do imperador. Eles se relacionaram de 1822 a 1829. O término do caso foi conturbado, pois, em 1829, grávida do quinto filho de D. Pedro I, ela foi obrigada a deixar a Corte e voltar para São Paulo. Das cartas escritas pela Marquesa restou apenas uma, que o autor reproduz no final do livro.

 

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  A seguir, o prefácio de Roniwalter Jatobá e fotos do lançamento, mais um nesta trajetória áspera de cultivar a poesia neste tempo de absoluta brutalização de tudo.

Um reinado em seu labirinto

      Confesso que nunca conheci alguém tão impregnado de poesia. Nunca conheci alguém que dedicasse tanto de sua vida à arte poética, mesmo sabendo das grandes dificuldades de fazer esse tipo de trabalho no País. “Minha produção se dá, basicamente, na loucura”, explicou certa vez Álvaro Alves de Faria. “Só loucura e alucinações. Aquela alucinação que vem da lucidez mais aguda, a que dói na carne e na alma. Se há musas ou feitores eu não sei. Disciplina existe, sim. Disciplina de trabalho. Disciplina na indignação. Deixo-me levar pelo grito. E tento fazer disso tudo o poema ainda possível de ser feito nesta terra de ninguém, especialmente no que diz respeito à literatura e particularmente à poesia.”

     Álvaro Alves de Faria é, por definição, um artista perseverante e sempre em busca de desafios. Um exemplo é este Domitila (Poema-romance para a Marquesa de Santos), agora publicado pela Editora Nova Alexandria.

     Romance-poema ou poema-romance? Não é fácil escolher uma opção. O livro é, na verdade, uma mistura de gêneros. Nele há poesia, cartas, memória e história, que se mesclam para criar um enredo que pode ser lido como poema, teatro, romance ou como tema de uma escola de samba que tenha o desejo de lançar um olhar sobre um momento importante da história e da vida brasileira: o Primeiro Reinado, que vai da aclamação de d. Pedro I, em 10 de outubro de 1822, até a abdicação, em 7 de abril de 1831.

     Com começo, meio e fim, em Domitila Álvaro Alves de Faria conta de forma linear a intensa trajetória de Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, e o seu caso amoroso e rumoroso com o primeiro imperador do Brasil, d. Pedro I, aquele que às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, em 7 de setembro de 1822, gritou “Independência ou morte”.  Em 47 cartas e poemas, estão condensados sete anos de amor (e desamor) entre o imperador e a sua súdita, numa história que começa como quase todas as grandes histórias amorosas, com raras exceções: inicialmente, arrebatadora paixão; depois, o clima de rusgas, mágoas, ciúmes e dor.

      Um desafio e tanto. Para isso, Álvaro se jogou de corpo e alma na história da Marquesa de Santos. Após intensa pesquisa, o poeta selecionou as mais importantes -- e alucinadas -- cartas do imperador para ela e escreveu um poema como resposta a cada carta, como se fosse dela, a marquesa.  Ou seja, o poeta tentou – e conseguiu -- responder às inquietações de uma mulher, também perdida em seu labirinto.

      Os protagonistas deste livro viveram seu romance no período que vai de 1822 a 1829. Ambos têm história. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon nasceu em Lisboa em 12 de outubro de 1798, filho de d. João VI e de d. Carlota Joaquina. Com a invasão de Portugal pelos franceses, em 1807, a família real buscou refúgio no Rio de Janeiro. Pedro tinha nove anos. Antes de completar dezoito, parecia tudo menos um príncipe. De acordo com um viajante estrangeiro, tinha os modos de “um moço de estrebaria”.

       Em março de 1816, com a aclamação de seu pai a rei de Portugal, Pedro recebeu o título de príncipe e herdeiro do trono. No mesmo ano casou-se com Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo Lorena, princesa austríaca. A família real retornou à Europa em 26 de abril de 1821 e Pedro ficou no Brasil como príncipe-regente, mas a Corte de Lisboa exigiu que ele retornasse a Portugal. Essa decisão provocou um grande desagrado popular e Pedro resolveu permanecer no País. Em represália, a Corte suspendeu o pagamento de seus rendimentos, mas ele resistiu, criando o famoso Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Meses depois, em 7 de setembro, proclamou a independência de Portugal e, em dezembro, foi coroado imperador do Brasil.

         Mulherengo, Pedro teve treze filhos reconhecidos e mais cinco naturais: sete com Leopoldina; uma filha com a segunda esposa, a princesa alemã Amélia Augusta Eugênia Napoleão de Leuchtemberg; cinco com Domitila de Castro, a Marquesa de Santos; e mais cinco com diferentes mulheres: a irmã de Domitila, Maria Benedita Bonfim; a uruguaia María del Carmen García; as francesas Noémi Thierry e Clémence Saisse e a monja portuguesa Ana Augusta.

        Depois de governar o País por quase nove anos, em 1831 d. Pedro I abdicou em favor do filho Pedro (mais tarde d. Pedro II) e, em 1832, chegou a Portugal para deflagrar uma guerra civil, com o intuito de derrubar do trono o irmão Miguel. Conseguiu a vitória em 1834, instalando no trono a filha Maria II.  Meses depois, em 24 de setembro do mesmo ano, faleceu de tuberculose, prestes a completar 36 anos de idade.

        A paulista Domitila de Castro foi a mais famosa amante de d. Pedro I. O primeiro encontro do casal aconteceu em São Paulo em 24 de agosto de 1822, na casa dos pais dela. Domitila tinha 25 anos incompletos e já estava separada do marido, o alferes Felício Pinto Coelho. Cinco dias depois desse encontro, d. Pedro a recebeu reservadamente em seus aposentos na Rua do Ouvidor, no centro paulistano.

       Em 1823, d. Pedro transferiu Domitila e família para o Rio de Janeiro para ficar próximo da amante. Ali, deu a jovem os títulos de dama do Paço, viscondessa e, finalmente, marquesa. A atitude chocava a todos ao sustentar em público o caso extraconjugal. Ao tornar a amante primeira-dama de sua mulher, d. Leopoldina, e assumir a paternidade de Isabel Maria, primeira filha com Domitila, d. Pedro escandalizou ainda mais toda a sociedade.

     O caso dos dois amantes sofreu um forte baque com a morte de d. Leopoldina, em 1826, já que d. Pedro acertou um segundo casamento com a princesa alemã Amélia Augusta. Os ataques ao romance intensificaram-se ainda mais. Muitos ministros renegaram o poder de influência e as aspirações de uma mulher que tanto chamava a atenção do imperador do Brasil. Em diferentes ocasiões, d. Pedro demitiu ministros e outros funcionários que discordavam de sua aventura amorosa. “Se em 1826 a vítima dos maus-tratos de d. Pedro foi d. Leopoldina, logo Domitila também experimentaria o que era cair em desgraça junto ao amado”, contou a historiadora Isabel Lustosa em D. Pedro I – Um Herói sem nenhum caráter (São Paulo: Companhia das Letras, 2006). “Não chegaria com ela aos excessos a que chegou com a imperatriz, mas demonstraria a mesma falta de delicadeza na mistura de sentimentos entre a amante e aquela que ele chamava de ‘proprietária’”.

     Por sinal, o historiador Alberto Rangel, em Dom Pedro I e a Marquesa de Santos (São Paulo: Editora Brasiliense, 1969), ilustrou bem a atmosfera do casal no final do caso amoroso:

“Alguém já disse que se dá o nome de amor a uma necessidade doentia de sermos dois para a disputa. No ofício de Gabriac [Marquês de Gabriac, ministro da França], datado de 2 de abril de 1828, contém-se um desses diálogos vituperiosos e muitos prováveis entre d. Pedro e a amiga:

       -- Arranco-te a pensão, se quiseres ficar aqui – diz o imperador.

       -- Não quero outra coisa: irei pedir esmola; e todo o Brasil saberá quanto és avaro e vil.

      -- Pois bem, se me obrigas a isso, hei de expulsar-te à força, pedirei às câmaras nominativamente uma lei de exceção às garantias dadas pela Constituição.

       -- Faze-o, que o Brasil se há de rir e me divertirás infinitivamente.

    O destino da Marquesa de Santos estava devidamente traçado. Em 1829, grávida do quinto filho com o imperador, ela foi obrigada a deixar a Corte. Machucada com o fim do relacionamento, viajou para São Paulo, levando, porém, um razoável pé-de-meia. “Durante os sete anos em que durou sua ligação com d. Pedro, Domitila de Castro acumulou considerável fortuna”, relatou Isabel Lustosa. “Segundo muitos testemunhos daquele tempo, o seu prodigioso enriquecimento não se deveu tanto à generosidade do amante quanto à sua capacidade de obter propinas e vantagens intermediando pedidos ao imperador”.

       De volta a São Paulo, a marquesa foi morar num sobrado de uma chácara no bairro do Ipiranga, mudando mais tarde para um palacete no centro de São Paulo. Casou-se em 1833 com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, com quem teve seis filhos. Faleceu em 1867, aos 70 anos, e foi enterrada no Cemitério da Consolação.

       Por final, é bom lembrar que as cartas da Marquesa de Santos foram quase todas destruídas, restando apenas a última, que Álvaro Alves de Faria reproduziu no final do livro.  Trata-se de uma dolorosa missiva na qual, apesar da dor e do sofrimento, uma resignada Domitila ainda agradece ao imperador:

     “Eu parto esta madrugada e seja-me permitido, ainda esta vez, beijar as mãos a Vossa Majestade por meio desta, já que os meus infortúnios e minha má estrela me roubam o prazer de o fazer pessoalmente. Pedirei constantemente ao céu que prospere e faça venturoso ao meu imperador.”

       Após a leitura deste Domitila (Poema-romance para a Marquesa de Santos), sinto-me honrado em assinar esta breve introdução, pois dele saímos enriquecidos em nossa emoção e ampliamos o conhecimento de nossa memória histórica. Jorge Amado (1912-2001) tinha razão. Os livros de Álvaro Alves de Faria “são terríveis documentos de nosso tempo: documentos, não documentários”, afirmou o escritor baiano antes de morrer. “A vida recriada pelo ficcionista e poeta poderoso espelha a realidade cruel, monstruosa de nossos dias infames, de um tempo maldito.”

O prefácio de Roniwalter Jatobá

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O poeta autografando

Poeta e a editora Rosa Maria Zucchirato

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[Valor, “Eu & Fim de Semana”, 14/12/2012, págs. 34-35]

      Quando Domitila de Castro e D. Pedro I se conheceram, na casa dos pais da moça, em São Paulo, no dia 24 de agosto de 1822 (duas semanas antes do Grito do Ipiranga, portanto), ela já estava separada do marido, o alferes Felício Pinto Coelho. No ano seguinte, o imperador, então casado com Dona Leopoldina, não hesitou em instalar no Rio de Janeiro a sua amante paulista, nomeou-a dama de companhia da imperatriz e concedeu-lhe primeiro o título de Viscondessa, depois o de Marquesa de Santos, afrontando toda a Corte, manifestamente contrária à exibição pública do adultério.

       Domitila nunca havia pisado em Santos, mas teve seu nome ligado à aprazível localidade praiana porque o imperador fez questão de irritar os irmãos Andrada e Silva, naturais daquela cidade.

       D. Pedro gerou treze filhos “legítimos” e cinco “naturais”: sete com a imperatriz Leopoldina; cinco com Domitila; uma filha com a segunda esposa, Amélia Augusta – todos reconhecidos; e mais cinco com diferentes mulheres, entre as quais Maria Benedita, irmã de Domitila. Dizem que, ao saber da traição, a Marquesa de Santos teria armado uma garrucha, com o propósito de matar... a irmã. Apontou, mas não chegou a disparar.

       Em 1829, grávida do quinto filho com o imperador, Domitila foi obrigada a deixar o Rio de Janeiro, pois a Corte já havia acertado com a princesa alemã Amélia Augusta o segundo casamento de D. Pedro (Leopoldina acabara de falecer). A presença da amante comprometeria as auspiciosas novas núpcias de Sua Alteza.

       Em 1831, como se sabe, o imperador abdicou em favor do filho Pedro, ainda menor, nosso futuro D. Pedro II, e voltou à Europa, a fim de lutar contra o irmão D. Miguel. Vitorioso, não chegou a ocupar o trono, como D. Pedro IV de Portugal, cedendo-o à filha, Maria II. Veio a falecer, tuberculoso, em 1834.

       Domitila, por sua vez, casou-se em 1833, em São Paulo, com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, com quem teve seis filhos, e faleceu em 1867, aos 70, tendo podido desfrutar, por largo tempo, do prestígio social e da considerável fortuna acumulada nos sete anos passados na Corte, ao lado do imperador. Tal fortuna, segundo consta, proveio da sua intermediação em vários casos de vulto, e não da generosidade do amante.

       Não surpreende, pois, que sua figura excite a imaginação das pessoas. Basta mencionar o filme “Independência ou Morte” (1972), estrelado por Glória Menezes e Tarcísio Meira, e as minisséries “A Marquesa de Santos” (TV Manchete, 1984), com Maitê Proença, e “O Quinto dos Infernos” (TV Globo, 2002), com Luana Piovani.

E chegou a vez da literatura, com este “Domitila: poema-romance para a Marquesa de Santos” (Nova Alexandria, 2012, capa dura, 190 págs.), do poeta Álvaro Alves de Faria, livro concebido segundo o viés da ficção literária, mas não subordinado ao prisma histórico.

        O autor começou por selecionar 47 das muitas cartas endereçadas por D. Pedro a Domitila e contrapôs, a cada uma delas, um poema. Oscilando entre o lirismo enternecido e a dramatização exaltada, os poemas contêm, na maioria dos casos, comentários poéticos à margem dos episódios referidos na imperial correspondência. E uma vez ou outra temos a voz da própria Domitila, a nos falar no mesmo tom, segundo a livre versão do poeta.

        As cartas íntimas do imperador aí estão, conservadas pela História, e o leitor tem agora a oportunidade de degustá-las, transcritas nesta bem cuidada edição, intercaladas aos poemas. Mas as cartas de Domitila, a História se incumbiu de fazer que desaparecessem, com exceção da última, em que ela humildemente aceita – ou declara aceitar – o desfecho do caso e o seu “exílio” nas terras de Piratininga. É o fecho do volume.

         D. Pedro assina quase todas as cartas como “O Imperador”, embora mais de uma vez assevere: “Eu espero que tu me trates como devo ser tratado, não pela qualidade de ser imperador, mas pela de ser teu amigo”. Em seis delas, a assinatura é “O Demonão” [sic]; em duas, “Pedro”; em uma só, “Seu Amo”. Uma ou outra não é assinada.

Na carta datada de 25/12/1827, D. Pedro esclarece porque desistiu de ir ao encontro da amada: “...é que tu não poderás jamais ter prazer comigo, pois eu já me tenho fumentado com algumas mulheres e assim não tenho cara de te aparecer para semelhante fim”. Será necessário explicar o significado de “fumentar-se”? Não bastasse essa pequena joia de finura argumentativa, ele ainda justifica: “Perdoa se nesta resposta te ofendo, mas eu hei de dizer a verdade”.

         Dois dias depois, mais uma carta, em que Sua Alteza declara: “Eu te amo, mas mais amo a minha reputação, agora também estabelecida na Europa inteira pelo procedimento regular e emendado que tenho tido”. A assinatura, nas duas missivas? Claro, “O Imperador”.

         Como terá reagido Domitila, não só a esses, mas a tantos outros gestos similares? Como terá resistido a sete anos de uma relação de tal modo conturbada, e cercada de inimigos? Não sabemos. Mas é um bom convite para tentar adivinhar. A julgar pela visão do poeta, Domitila terá sido, durante esses sete anos, uma alma torturada pelo desespero e pela indignação, pela revolta calada e pela resignação orgulhosa e altiva:

        “Corta-se a Marquesa / com unhas afiadas / que rasguem a pele. // Mata-se a Marquesa, / suicida de palavras que não diz, / essas que se misturam na boca / para sempre esquecer. // Olha-se a Marquesa / e não se vê... / a Marquesa / que na própria intimidade / morre íntima e estranha de si”. Em alguns momentos, o orgulho fala mais alto: “...a mim importa apenas o que me guardo, / e não o Imperador ao estar comigo, / porque dele me sirvo / enquanto pensa ele que se serve de mim”.

          Com isso, o poeta satisfaz a possível curiosidade daqueles raros leitores que, diante da correspondência de personalidades famosas (“famoso”, no caso, é o imperador D. Pedro I, pois não?), se lembram de perguntar: e o outro lado? É o que acontece, por exemplo, com as “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer-Maria Rilke. Alguém sabe que esse “jovem” se chamou Franz Xaver Kappus? Alguém jamais se interessou pelas cartas que ele endereçou ao grande poeta das “Elegias de Duíno”? E as “Cartas de Amor”, que Fernando Pessoa dirigiu a Ofélia de Queirós? Alguém já pensou em conhecer e divulgar as cartas dela ao poeta dos heterônimos?

          No caso de Domitila, aí temos. A História a sonegou e tentou abafar o escândalo, mas o poeta deu voz à desditada (ou bem-sucedida?) amante do Demonão, Sua Alteza Real, o nosso imperador D. Pedro I.

          Não sabemos se aí está a alma toda de Domitila de Castro, finalmente revelada. O que podemos dizer, com o poeta, é que “Essa Marquesa de Santos / não é uma marquesa qualquer; / mais do que ser marquesa, / essa Marquesa é mulher”. O fato é que, na visão apaixonada de Álvaro Alves de Faria, Domitila vai certamente estimular a imaginação do leitor.

 

 

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Carlos Felipe Moisés é poeta e crítico literário, autor de “Noite nula” (poesia, 2008) e “Tradição e ruptura” (ensaios, 2012), entre outros livros.

Carlos Felipe Moisés: A MARQUESA DE SANTOS

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