Entrevista / Vagalume

Álvaro

Alves
de Faria

ENTREVISTA COM O POETA

O Poeta 2

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  O poeta Álvaro Alves de Faria foi incluído na coleção “Melhores Poemas”, da Editora Global de São Paulo, a mais importante do gênero no Brasil. A coleção é dirigida pela escritora Edla Van Steen. O livro “Melhores Poemas” de Álvaro Alves de Faria teve os poemas selecionados por Carlos Felipe Moisés, que também escreveu o ensaio de abertura do volume. “Melhores Poemas” foi lançado no dia 4 de novembro, de 2008, na Fnac da Avenida Paulista, em São Paulo. Ao mesmo tempo, foi publicado em Portugal “Livro de Sophia”, pela Editora Palimage, de Coimbra, no qual o poeta faz uma homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, a grande poetisa portuguesa que faleceu no dia 2 de julho de 2004. Nesse dia o poeta se encontrava em Lisboa. Ao saber da notícia de morte de Sophia pela televisão, o poeta foi tomado de grande emoção e passou a escrever. “Livro de Sophia” foi escrito num único dia, em Lisboa. Por esses dois lançamentos, a escritora Cida Sepúlveda organizou com poetas, escritores e outras personalidades, a entrevista que se segue para o Jornal Vagalume, que ela dirige.

ADA PELLEGRINI GRINOVER, escritora, membro da Academia Paulista de Letras, São Paulo, SP
P.Querido Álvaro: Antes de tudo quero dizer-lhe que suas mãos não estão velhas. Enquanto puderem escrever as coisas lindas que escrevem, estarão jovens. Deixe que as mãos de seus amigos colham laranjas e maçãs para você. Agora, algumas perguntas: Por que, diante de tantas tragédias que ocorrem diariamente em nosso país, o poder de indignação da sociedade fica restrito aos eventos cobertos clamorosamente pela mídia? Precisamos de um motor externo para nos comover? E as crianças abandonadas, as envolvidas pelo tráfico, os sem-teto, os desempregados, os velhos desamparados, por que nada disto nos indigna? Por que passamos indiferentes ao seu lado?

AAF - Querida Ada: ao falar em mãos velhas, que são as minhas, você deve estar se referindo a uma crônica que escrevi sobre o assunto recentemente. Minhas mãos estão velhas, sim. Velhas e trêmula diante das cenas que vejo todos os dias, todas as horas, em todo lugar. Você não me faz uma pergunta, digamos, literária. Você vai para o social, certamente ainda tendo por base essa mesma crônica. Você tem razão: o poder de reação da sociedade está mesmo cada vez mais restrito diante das tragédias brasileiras. Precisamos sim, de um motor externo para nos comover. Infelizmente no Brasil, hoje, tudo se mede por baixo. A mediocridade é absoluta em tudo. Em tudo. Não há mais olhar para as crianças e idosos abandonados, os moradores de rua. Tudo passou mesmo a ser indiferente. Nós nos acostumamos ao pior de todos os mundos. Estamos quase todos brutalizados. E o pior de tudo é que vivemos na era dos discursos de autoridades que pintam o Brasil como a maravilha das maravilhas. Discursos inflamados. Todos os dias. Todos os dias há um fato novo no país para nos maravilhar. É desfaçatez pura de gente que traiu suas próprias vidas. Gente que mentiu o tempo todo. Eu me sinto traído. Mas eu sou um cidadão de quinta categoria, talvez nem tenha direito a reclamar. Essa brutalização está em tudo. E enquanto essa gente fala, discursa, mente descaradamente, o país vai se arrastando com suas palavras de ordem. O que mais me dói é a mentira. Num dia destes, o presidente da República chegou a dizer que o mundo se devia mirar no Brasil, que é um exemplo bem sucedido em todos os setores. Eu sinto, dentro de mim, uma espécie de vergonha. E isso, de alguma maneira, mexe com a minha vida. Com minha vida de cidadão. De cidadão brasileiro que acho não ser mais. Não chego a dizer que nos tornamos indiferentes a esse cenário melancólico que nos cerca. Mas estamos, sim, mergulhados numa letargia dolorosa. É como se mais nada valesse a pena. E eu acho, sinceramente, que mais nada vale a pena. O que vale, mesmo, é o poder. O resto é bobagem.

PAULO BOMFIM, poeta, São Paulo

P. Como se sente o poeta Álvaro Alves de Faria neste mundo em que as máquinas se espiritualizam e o ser humano se mecaniza cada vez mais ?

AAF - Sinto-me completamente desajustado. Tento ajustar-me a isso escrevendo. Você, Paulo, é uma pessoa especial na minha vida, até mesmo com sua presença amiga em ocorrências dramáticas que me envolveram. Sem contar que você foi a primeira pessoa que escreveu sobre mim, quando eu era apenas um adolescente. Uma pessoa que pertence ao meu universo mais íntimo de absoluto respeito. Alguém que antes de tudo prima pela dignidade, que tanta falta nos faz. As máquinas se espiritualizam, é verdade. E o homem se distancia de si mesmo. Sua pergunta é poética, talvez me exija uma resposta poética também. Mas sendo eu um ex-poeta, vejo-me tolhido em respondê-la à altura. Sei, apenas, que este mundo acabou. No que diz respeito ao país em que estamos todos mergulhados, a inversão de valores é absoluta e vergonhosa. E no que diz respeito à poesia, as cenas são tão lamentáveis que é difícil insistir. Nessa área o que existe atualmente é desfaçatez pura. Mas isso representa, na verdade, a cara do país e do tempo em que vivemos. Em muitos casos, você sabe, é muito melhor mesmo se relacionar com a máquina, deixando certos seres humanos de lado. Não vale a pena levá-los a sério.

ARI GURCZ, médico, Brasília, DF

P. Poeta, Musa ou Feitor? Disciplina ou êxtase? Como se dá sua produção?

AAF - Minha produção se dá, basicamente, na loucura. Só loucura e alucinações. Aquela alucinação que vem da lucidez mais aguda, a que dói na carne e na alma. Se há musas ou feitores eu não sei. Disciplina existe, sim. Disciplina de trabalho. Disciplina na indignação. Deixo-me levar pelo grito. E tento fazer disso tudo o poema ainda possível de ser feito nesta terra de ninguém, especialmente no que diz respeito à literatura e particularmente à poesia.

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P. Com o tempo, síntese ou profusão? Houve mudanças no que busca em seus textos?

AAF - Com o tempo vale o que é coerente e honesto. Quanto aos meus textos, que são minha sagração como poeta, busco o mundo melhor, a poesia melhor. Busco o possível melhor. Meus textos existem, penso. E se existem, têm de servir para alguma coisa. Se as coisas mudaram tenho certeza que sim. Mudaram para pior. O que vale é a falta de consciência. O que vale é a mediocridade que vem de cima e se esparrama entre os menos avisados. Isso implica, também, na questão da literatura do país sem destino.

CARLOS FELIPE MOISÉS, poeta, escritor, crítico literário, Mestre e doutor e Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, onde lecionou.

P.No início da carreira, Álvaro, seus livros dão a impressão que a criação poética, para você, é primeiro anotar o que for possível, sob forte emoção, para depois, mais sereno, aparar, cortar, recortar, reescrever. Tem sido sempre assim ou ao longo desses anos todos alguma coisa mudou, no processo?

AAF - De alguma maneira tem sido sempre assim. Ou pelo menos já foi assim. Atualmente, os poemas praticamente nascem feitos. Nascem feitos mas, antes, são elaborados na cabeça por longo tempo. Chega um momento, ao longo dos anos, em que a gente não necessita de papel para escrever. Os poemas e até prosa são escritos por dentro. As coisas vão sendo anotadas por dentro. Chega o dia em que o papel está à frente. Então coloca-se nesse papel tudo aquilo que por dentro foi elaborado dia e noite, noite e dia. Mas é claro que, mesmo assim, depois de tudo escrito, há ainda o trabalho de lapidar esse texto, tirar o que está demais e colocar o que ainda falta. O processo é esse. E esse processo, acredito, não acaba nunca. Mesmo depois de tudo transformado em livro, há sempre aquela palavra que poderia ter sido mudada. Aquele verso que poderia ser diferente. Creio que isso faz parte da vida dos poetas que são poetas mesmo, que são verdadeiros. Os poetas conscientes de seu ofício. Os aventureiros riem disso.

P.Em que medida, Álvaro, seu interesse pela poesia alheia, seja como simples leitor, seja como jornalista profissional, interfere na elaboração da sua própria poesia?

AAF - Não interfere, amigo Carlos Felipe. Não interfere. O que interfere são as cenas diárias, o mundo, especialmente a dor. Pelo menos no meu caso. Chega um tempo em que nada mais interfere, ao mesmo tempo em que tudo interfere, sim. Como jornalista profissional sou um anotador de indignações. Como leitor, especialmente de poesia, escolho os poetas que quero ler. Os de hoje não existem, reparadas algumas pouquíssimas exceções. Pouquíssimas. Não gosto de gente marqueteira. Não gosto dessa poesia lamentável que se produz com a ajuda dos amigos no jornalismo que se diz cultural. Resumindo: não tenho interferência na minha produção, senão da vida, ela mesma, ferida, cortada ao meio.

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