HOMENAGEM 1

Álvaro

Alves
de Faria

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GENTE DE PALAVRA

Canal do Poeta

Uma homenagem. Coisas assim ainda existem num mundo completamente brutalizado como agora. A gente chega e encontra os amigos, pessoas que gostam de poesia. Como é bom ver gente jovem que gosta de poesia, que lê poesia, que comparece, por exemplo, a uma homenagem a um poeta para conhece-lo, conversar com ele, ler um poema. Os olhos brilham. Não é muito dizer: de repente tudo vira encantamento. Uma homenagem. Uma homenagem a mim prestada, por iniciativa de meu amigo camarada de Geração poeta Rubens Jardim, dessas pessoas que quase não existem mais, são raras. Eu tenho um poema ainda guardado que começa assim: “Quero ser um poeta como o Rubens Jardim...”. Juntou-se ao Rubens Jardim, Davi Kinski, que caminha em vários setores da arte. Os dois são responsáveis pelo “Gente de Palavra” paulistano. Os saraus pertencem a projeto de Renato de Mattos Motta e Michele Hernandes e são realizados todos os meses em Porto Alegre. Praticamente toda minha obra foi exposta aos presentes por poetas e leitores especialmente jovens que leram poemas de livros de várias épocas, explicando cada fase dessa longa vida na poesia, mais de 50 livros publicados no Brasil – poesia, romances, ensaios literários, livros de entrevistas, peças de teatro – 14 livros em Portugal e 6 na Espanha. Toda essa trajetória exposta ali com companheirismo, pessoas interessadas, todos numa só palavra poética. Li também alguns poemas meus. Aqui em São Paulo o sarau-homenagem foi realizado no Sebo Aliança, na avenida Brigadeiro Luis Antonio, no centro velho de São Paulo, no dia 24.11.2015. Fui o primeiro a ler, Escolhi “Procura-se”, que faz parte do livro “O Uso do |Punhal”, livro também publicado em Portugal com o título “Almaflita” e na Espanha com o título “Alma Afligida”. Foi como se eu dissesse: “Pessoal, sou isto aqui, nem mais nem menos”. E depois seguiram-se os poemas, cada um interpretando à sua maneira. Foi uma noite de muita emoção. Não vou esquecer quando a poeta Beth Brait, depois de ler um poema meu, me abraçou e começou a chorar.

PROCURA-SE

Procura-se um homem
que desapareceu no dia 14.

Calçava sapatos pretos
e vestia uma espécie de nuvem,
dessas que se acham em qualquer lugar.

Costuma falar sozinho,
especialmente quando caminha.
Quando desapareceu,
carregava uma bolsa
com alguns poemas sem palavras
e alguns acenos suicidas.

Comia morangos
quando desapareceu.

Também carregava
duas estrelas mortas
no bolso da camisa,
do lado esquerdo.

Dizia que não tinha nome,
mas era por esquecimento.

Procura-se esse homem
que sumiu com alguns segredos.

Disse que ia falar com as pedras
e desapareceu no dia 14.

Quem tiver alguma notícia
sobre seu paradeiro,
por favor
não informar a ninguém.

A PALAVRA DO POETA

Esta homenagem não se presta somente a mim, mas a todos nós.
É uma homenagem à própria poesia, aos poetas sérios e honestos que felizmente ainda existem entre nós.
Poesia, no Brasil, tornou-se uma espécie de militância.
Não dá mais para conviver com o que a gente vê, esse cenário lastimável num país sem rumo, sempre aquele país do futuro que nunca chega.
Suplementos culturais medíocres que não têm compromisso nenhum com nada e que se esquecem que existe uma coisa chamada História. Não a história oficial, mas a história verdadeira.
Medíocres, feito por gente medíocre, enaltecem somente a mediocridade.
Evidentemente não generalizo. Estou à vontade para falar sobre esse assunto. Como crítico literário e jornalista cultural, editor de cadernos de cultura, recebi por duas vezes o Prêmio Jabuti e por três vezes o Prêmio Especial da Associação Paulista de Críticos de Arte.
A poesia brasileira está nas mãos de alguns aventureiros com cobertura garantida por esse jornalismo cultural que de cultural não tem nada. Sem generalizar, inventam poetas que surgem da noite para o dia e desaparecem do dia para a noite.
Por exemplo, para citar somente um exemplo: Na semana passada participei como expectador de um evento que se chama “Balada Literária”, que tem à frente um grande aventureiro, marqueteiro de primeira categoria, que pensa que a literatura é uma brincadeira. Nem vale a pena dizer seu nome. O dia que ele descobrir o que é literatura e o que é poesia, certamente pedirá desculpa a si mesmo, se tiver hombridade para isso.
A tal balada literária existe já há dez anos e como em dez anos eu nunca tinha ouvido falar nesse evento fui conferir.
Saí de lá com uma profunda decepção e amargura. A palavra é essa mesma: amargura. O sujeito que está à frente disso tudo faz questão de ignorar os poetas sérios que estão trabalhando e batalhando sempre pela poesia. Ele faz de conta que esses poetas não existem. Existe ele e a turma dele.
Esse é só um exemplo, só um, dessa lástima que envolve praticamente todos os setores deste país.
Mas, felizmente, ainda existem poetas e escritores verdadeiros, que levam a sério esse ofício de escrever.
Eu agradeço aos poetas que estão aqui, Carlos Felipe Moisés, que escreve praticamente todos os prefácios de meus livros; Roberto Bicelli, Raquel Naveira, Flora Figueiredo, Valdir Rocha, Hamilton Faria, Oswaldo Rodrigues, Paulo Ortiz, Luiz Roberto Guedes, Luis Augusto Cassas, poetas em quem acredito, que merecem respeito neste cenário melancólico que revela, no fundo, o retrato sem retoque deste país.
Agradeço de maneira especial ao meu querido amigo de Geração, Rubens Jardim, poeta de grandeza que tanto se empenhou por esta homenagem – partiu dele essa ideia - ao Davi Kinski, responsáveis pelo “Gente de Palavra” paulistano. Os saraus pertencem a projeto de Renato de Mattos Motta e Michelle Hernandes e são realizados todos os meses em Porto Alegre.
Não sei se mereço tudo isto, mas serei sempre agradecido. Serei agradecido à poesia que tanto fere quanto consegue abrir a palavra à claridade do dia que ainda haverá de existir. Um dia de todos. Dos que estão esquecidos nos cantos da vida, como objetos quebrados. Não pode ser assim. A poesia tem de dizer não. É preciso dizer não.

Fotos

O Poeta

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