Poeta

Álvaro

Alves

de Faria

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IDANHA

IDANHA 2

TRÊS SENTIMENTOS EM IDANHA E OUTROS POEMAS PORTUGUESES

(setembro 2011)

Cenas em vários lançamentos

Fotos de Quim Lopes, José Lopes (meus primos), Antonio Martins, Luisa, Sandra Guereiro, Jorge Fragoso e João Rasteiro.

Parte da fachada da Casa da Escrita em Coimbra

Poeta e editor Xavier Zarco, Professor José Carlos Seabra Pereira e poeta

Poeta lendo um poema do livro

Leitura do poeta João Rasteiro

Xavier Zarco, José Carlos Seabra Pereira e poeta

Professor José Carlos Seabra Pereira faz a apresentação do livro, ao lado do editor e poeta Xavier Zarco

O poeta fala

Graça Capinha e Sandra Guerreiro

Poeta discursando

Placa na Casa da Escrita em Coimbra

Fachada da Casa da Escrita

Fachada da Casa da Escrita

Fachada da Casa da Escrita

Graça Capinha e poeta

Decoração

Graça Capinha, poeta e Antonio Martins

Graça Capinha, vereador de Cultura Armindo Jacinto, poeta e Antonio Martins

Apresentação de Graça Capinha, vereador de Cultura, poeta e Antonio Martins

Graça Capinha lendo um poema do livro

Antonio Martins lendo um poema

O poeta Álvaro Alves de Faria discursa

Senhoras das canções e do adufe

Senhoras das canções e do adufe de Idanha

As senhoras e o poeta

As senhoras de Idanha e o poeta

Vereador de Cultura Armindo Jacinto

Público e Luísa, esposa do poeta Antonio Martins

Poeta autografa livro

Poeta autografa livro

Poeta autografa livro

Poeta autografa livro

Antonio Martins e poeta  

Vereador de cultura de Alvaiázere, Agostinho Gomes, poeta, João Rasteiro e Miguel Portela

Poeta e João Rasteiro

Poeta lendo um poema, João Rasteiro e o poeta Miguel Portela, que lançava seu livro

Poeta lendo um poema

Poeta e editor Jorge Fragoso

Poeta Antonio Martins

Poeta lendo poema na Biblioteca Municipal de Alvaiázere

Poeta e João Rasteiro lendo um poema

As boas vindas do vereador de Cultura Agostinho Gomes, vendo-se o poeta, João Rasteiro e Miguel Portela

    O livro “Três sentimentos em Idanha e outros poemas portugueses” teve lançamentos verdadeiramente poéticos em Portugal. Reunião de amigos. Leitura de poemas. Muitas canções de Coimbra. As senhoras de Idanha-a-Nova com seus adufes, do Grupo de Cantares Tradicionais da Associação Cultural de Medelin, Aldeia do Conselho de Idanha-a-Nova, aquela música comovente que vem da raiz da terra.

 

O primeiro lançamento foi feito na Casa da Escrita, em Coimbra, a convite de meu amigo poeta João Rasteiro, que dirige a Casa, com apresentação do Curador, professor e escritor José Carlos Seabra Pereira, doutor pelas Universidades de Poitiers e de Coimbra, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e da Universidade Católica Portuguesa, pesquisador nas áreas de Teoria Literária e Literatura Portuesa Moderna, de Estudos Camonianos e de Estudos Pessoanos, cadeira que criou na Universidade de Coimbra.

Fui, no outro dia, levado a Idanha-a-Nova pelo poeta Antonio Martins e sua esposa Luisa, numa viagem de carro entre as montanhas.

 

Em Idanha-a-Nova o livro foi lançado do Forum Cultural, um prédio medieval feito de pdras. A apresentação foi feita por Graça Capinha, que me acompanha sempre em Portugal e que está escrevendo um livro ao meu respeito, o mesmo que faz em São Paulo a jornalista e escritora Patrícia Cicarelli, que publicará “A lírica de Portugal na Poesia de Álvaro Alves de Faria”, com lançamento já marcado para o dia 25 de abril de 2012.

Graça Capinha, ensaísta, doutorada em Literatura Norte-Americana, Professora do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, Secção de Anglo-Americanos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde também é Pesquisadora do Centro de Estudos Sociais.

 

Graça Capinha escreveu o prefácio do livro e, desta vez, mais do que nunca, teria de ser mesmo assim, porque ela nasceu em Idanha. Em Idanha, o poeta foi saudado pelo Vereador de Cultura da Vila da Beira Baixa, Armando Jacinto.

Ao meio dos lançamentos, participei com os poetas João Rasteiro, Jorge Fragoso e Antonio Martins de uma leitura de poemas na cidade de de Alvaiázere, no lançamento do livro “Quem sabe?”, do poeta Miguel Portela, na Biblioteca Municipal, a convite do Vereador de Cultura Agostinho Gomes, recepecionados pela bibliotecária-diretora Paula Cristina Marques.      

No final, como despedida de tudo, uma leitura de poemas de vários poetas no Salão Brazil, no centro histórico de Coimbra, um momento sempre marcante, porque é verdadeira, muita verdadeira, a palavra da canção famosa que diz em seus versos: “Coimbra tem mais encanto na hora da despedida”.

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PREFÁCIO DE GRAÇA CAPINHA PARA “TRÊS SENTIMENTOS EM IDANHA E OUTROS POEMAS PORTUGUESES”.

 

      Não poderia nunca imaginar que a participação de Álvaro Alves de Faria num Encontro de Poetas em Idanha-a-Nova, por ocasião das comemorações dos oito séculos de existência desta vila raiana da Beira Baixa, viesse a resultar num livro de poemas. Tal como aos outros poetas então presentes (os portugueses Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral e Fernando Aguiar), foram-lhe pedidos apenas dois ou três poemas que pudessem dar conta da sua experiência pelos nossos granitos e campinas (e digo “nossos” porque quem escreve este prefácio nasceu por lá), de modo a podermos organizar uma pequena antologia que guardasse o momento. Essa antologia, graças à generosidade dos cinco poetas, à qual se veio juntar a de dois reconhecidos fotógrafos portugueses (Duarte Belo e Ana Gaiaz), concretizou-se e tive então o prazer de organizar As Pedras dos Templários (Quási, 2006), volume onde surgem, pela primeira vez, os três cantos do poema longo que inaugura e dá título a este livro. A ele se veio juntar agora outro grupo de poemas, “Outros Poemas Portugueses”, título que também nos remete para a obra Poemas Portugueses, o segundo livro de Alves de Faria (Alma Azul, 2000) publicado em Portugal. Sobre este último escrevi então para a sua sessão de lançamento: “continuamos a encontrar questões como a desterritorialização e a incompletude – da identidade e das palavras que lhe dão forma – a mergulhar no social e no político”. E penso que esta mesma dimensão nómada e rizomática, sempre fortemente imbricada num contexto marcado por uma história de colonialismo e de emigração – uma história que é, a um tempo, nacional e pessoal/familiar – continua a ser a mais poderosa característica do trabalho deste poeta que quer ser português, sabendo que o é de forma radical: pela origem geográfica e nacional dos seus pais, mas também pelo desejo e/ou inevitabilidade de um sentimento de pertença e de identificação com uma língua que, no seu caso, traz a memória de narrativas outras (de outras memórias na mesma língua) em que a sua infância se fundou (uma “memória da memória”, como lhe costumo chamar). Mas, por outro lado, a mesma dimensão nómada e rizomática produz a refracção e a proliferação linguística e identitária que permite a este poeta oferecer-nos uma complexa e arguta consciência do descentramento e da incompletude, sempre um ontológico processo de devir. Assim, a sua poesia é sempre uma pesquisa epistemológica e epistémica marcada no seu próprio corpo e/ou no corpo da palavra: um penoso ser/estar de passagem em busca de si e do mundo, sempre uma direcção tentada, sempre uma poética feita de eventos – como o da passagem por Idanha, como o de mergulhar numa religiosidade e numa música (a dos adufes) de um povo, que é e, simultaneamente, não é o seu:

 

Diante de meu espelho, sou o outro de mim,

o que me atravessa com uma espada e me corta aos pedaços,

aquele que não se vê nem sente mais e que, em silêncio, se faz,

como se fazem as aves em seus alpendres, distantes do mundo,

como se a observar o nada em sua volta,

a colher o caroço de uma fruta.

Diante de mim não me sou ou, antes, sou-me do avesso,

onde todas as coisas têm outro nome e outra face,

 

      Muito se tem escrito sobre o lirismo da sua poesia, mas considero que existe algo de profundamente anti-lírico no lirismo de Alves de Faria: a interrupção é permanente. Seja na repetição que corte a sintaxe, seja nos jogos com o polypdoton e a paranomásia que levam à proliferação e à multivectorialidade, o rumor e/ou o ruído do inarticulado implode violentamente qualquer hipótese de musicalidade fonética ou semântica que assente na linearidade causal ou sequencial da grande tradição da lírica portuguesa. Por isso também me parece tão profícuo o esforço de diálogo/conflito intertextual que este poeta vem desenvolvendo, desde 1998, com toda essa tradição lírica que constitui o cânone da literatura portuguesa. Apetece-me dizer aqui, com as palavras de um grande poeta norte-americano do século XX, Robert Duncan, que já ecoavam o tão profundamente heterodoxo cristão do século XVII, John Milton: há uma “luta com a forma, para libertar a Forma”. E essa luta transporta, em Álvaro Alves de Faria, como em Duncan ou Milton, a agonia daquele que se rebela e, de alguma forma, tenta matar o que é o Outro e o Mesmo em si. Chamemos-lhe Logos ou Lowghost (segundo outro poeta norte-americano, Jack Spicer) – a Palavra (segundo S. João), essa monstrosidade (segundo Derrida), esse erro primevo que é marca do sagrado na nossa existência terrena e humana:

 

anjo da guarda essa alma que me desconhece

e me aconselha a viver especialmente quando as manhãs desaparecem,

triste anjo que pequeno demais não suporta a fúria da poesia que me grita

e me acomete nos instantes em que estar só não é tudo,

é mais que a solidão dos anjos que fugiram do céu e se perderam

 

      Por tudo o que venho de escrever, é também agora mais clara a razão pela qual posso afirmar que afinal talvez não seja assim tão estranho que um poeta que, de certo modo, se nos apresenta como uma espécie de microcosmo onde esta dimensão macrocósmica de sagrado se manifesta de forma tão visceral – pela sua condição de estar dentro e fora, nesse espaço intermédio e/ou de fronteira, que lhe vem de toda uma herança da história (colonial e migrante) luso-brasileira e da língua portuguesa – tenha ancorado a sua escrita, ainda que de forma apenas temporária (que ele sabe ser a única forma de ancorar), numa terra onde essa dimensão primeva de sagrado ainda sobrevive: nas pedras graníticas sobre a campina, onde organicamente se encontram mergulhadas as vozes e o canto das mulheres e dos adufes

 

mas a poesia

não se compreende nem se deixa compreender,

senão sentir

o que dela é sempre derradeiro,

as hastes das plantas, o que resta ainda das sementes,

os insetos a caminhar junto aos muros,

musgos escuros que cobrem as mãos,

as unhas cortadas rente à pele,

um pingo de sangue no avental da alma,

todas essas coisas que não percebo,

o que penso ainda existir

entre a sombra e a luz,

a luz e a sombra:

 

       Penso que será essa difícil e complexa recriação da origem (que sempre sabemos imaginada) que Álvaro Alves de Faria       (pres-)sente no encontro com a sua presente/ausente portugalidade (esses são os “Sentimentos”). Por isso ele é, como gosta de afirmar, “um poeta antigo” (“Os cantares de poetas antigos cantam em mim”) – mas, digo eu, de uma antiguidade profunda, muito arcaica, sempre a fazer-se na substancialidade (ou, se quisermos, na co-substancialidade) desse erro inevitável da criação humana que é o próprio evento e corpo do poema, aquele que emerge da Grande Deusa (chamemos-lhe aqui, a Virgem do Almurtão; ou “Senhora do Mar” ou uma das muitas santas que povoam os seus poemas; ou apenas, como ele já lhe chamou também, “a camponesa Júlia”; ou ainda, como tantos poetas dentro desta tradição já lhe chamaram, a própria Poesia).

Evento, passagem, acto, poema – esse é o lugar, o único lugar de criação e, logo, de destruição: porque só assim o movimento se mantém. Ainda que com alguns momentos de auto-ironia, o tom elegíaco desta anti-lírica poesia lírica é portanto inevitável: uma espécie de reconhecimento de que a estase e/ou a pura contemplação nos são extrínsecas: “assim se faz a elegia que não se completa/e morre antes da própria palavra”.

      A portugalidade destes “Outros Poemas Portugueses” existe também nesse reconhecimento de que só o nomadismo pelos lugares da memória, da história e da língua permitem a permanente (re)descoberta do mundo, a permanente (re)criação de si, o permanente (re)encontro com aqueles e aquelas de quem viemos, a permanente presença que é acto e escrita do poema. Como Álvaro Alves de Faria costuma dizer/escrever, “Está lá, como se não estivesse “, “sempre a despedir-se”:

 

O espírito de meu pai passeia sempre pelos meus versos

com passos tão leves que nenhum poeta perceberia,

nem eu que sou seu filho e ainda ouço suas palavras.

quando me abraçou em um dia que sentia frio

e nunca mais esse frio saiu de mim,

como se eu fosse o mar de que me falava

e o navio com que atravessou o oceano trazendo um sonho no bolso.

O espírito de meu pai dorme comigo e senta ao meu lado na sala,

quando vejo algumas fotografias ou percorro o que me resta da memória.

O espírito de meu pai mora dentro de mim.

 

*******

Poeta com Ricardo Szwarc

Poeta Antonio Martins

Poeta lendo poema na Biblioteca Municipal de Alvaiázere

Chegada na Biblioteca Municipal de Alvaiázere

João Rasteiro lendo um poema

Capa Três Sentimentos
Cartaz Três Sentimentos 1
Cartaz Três Sentimentos 3
Cartaz Três Sentimentos 2

    Ainda está em mim esse aceno que sempre surge em algum lugar de Portugal. Está nas mãos das pessoas e também nos monumentos da intimidade, das palavras, da poesia. Mais um livro em Portugal, junto aos amigos, aqueles que cultivam a poesia e caminham poemas nas tardes. No início da noite as palavras ficam mais antigas, o que nos comove. Ainda está em mim esse gesto poético, a canção que entra pela noite e deixa que adormeçam os silêncios. “Três sentimentos em Idanha e outros poemas portugueses” é mais uma fotografia de Portugal que passa a viver dentro de mim, por estes caminhos que me chamam e por este mar cada vez maior em que ando incertezas e me procuro descobrir. A poesia será sempre uma ferida aberta, mas sempre será possível cuidá-la com zelo. Poetas amigos que me esperam sempre, que trazem sempre uma bolsa de castanhas e de estrelas, de pedras brilhantes, de poemas que calam fundo em cada um. Resta em mim, sempre, esse retrato de Portugal, cada vez que me vou, que me despeço, uma dor que dói por dentro, o abraço dos amigos, o beijo dos amigos, das amigas, das palavras guardadas que não serão esquecidas. Agora, em mim, os poemas de “Três sentimentos em Idanha” a representar tudo que sinto por uma terra que meus pais me deram de presente talvez num dia de setembro, eles que não estão mais comigo e que agora pertenem ao universo de todas as coisas. Está em mim esse aceno de uma poesia que sempre haverá de existir.   

    As pedras da Idanha onde caminha a alma do tempo, a alma dos templos. As pedras, a palavra das pedras, as casas de pedra, as igrejas, as ruas, o vento de pedra. Caminho sapatos perdidos para sempre com o olhar no universo que me abriga, a linguagem de todas as distâncias, silêncios  de séculos guardados em acenos plantados no chão da terra. A pedra, essa pedra que me fala, essa pedra que de repente faz tudo renascer.

monsanto13

    As cegonhas cortam o céu com uma estrela de asas, longas asas que me fazem lembrar das gaivotas de Portugal. As cegonhas de Idanha com os ninhos em cima das casas e das igrejas, o voo desse tempo que renasce sempre entre a poesia e a realidade de todas as coisas, essa poesia que é a própria vida a estender-se e calar-se nos telhados, nas paredes, nas pedras que falam e inventam a tarde. As cegonhas de Idanha, encantamento que fica guardado na alma para sempre.

CEGONHAS