Álvaro

Alves
de Faria

Inês - Coimbra

02

PALAVRAS DO POETA NO LANÇAMENTO DE “INÊS” NA QUINTA DAS LÁGRIMAS EM COIMBRA

  Agradeço mais uma vez as palavras de Graça Capinha na apresentação de mais um livro meu em Coimbra, ela que, desde 1998, quando me convidou a participar do Terceiro Encontro Internacional de Poetas, vem acompanhando esta minha trajetória poética em Portugal.

Como já disse algumas vezes, essa trajetória vai além da poesia, por ser algo que pertence à minha antecedência, à minha vida pessoal. Agradeço também ao poeta Jorge Fragoso, que edita meus livros e me dedica uma atenção difícil de encontrar no mundo em que vivemos. E agradeço, também, aos integrantes da Oficina de Poesia que participam deste lançamento.

Quando me debrucei no tema Inês de Castro eu sabia bem o que estava fazendo, embora soubesse, também, das dificuldades de escrever poemas sobre Inês de Castro, que habita o imaginário de poetas do mundo inteiro, sem dizer, particularmente, de Portugal.

Em alguns momentos cheguei mesmo a pensar que minha disposição de escrever um livro para Inês de Castro representaria uma espécie de atrevimento, especialmente por ser um livro a ser lançado em Portugal.

Confesso que por muito tempo esse pensamento me inibiu. Mas, na verdade, escrever sobre Inês de Castro representaria, também e certamente, o texto mais desafiador dentro de minha poesia dos últimos anos, toda voltada a Portugal, à poesia portuguesa, à linguagem da poesia portuguesa, um desafio que eu não poderia evitar.

Mas seria preciso, de alguma maneira, tratar desse assunto poético de uma forma que me parecesse diferenciada, pelo menos diante do que eu conheço, tanto na poesia de Portugal quanto na do Brasil, no que se refere à figura de Inês de Castro.

Assim, tomei o lugar do príncipe Pedro para desenvolver estes poemas, tentando explorar ao máximo as imagens da Poesia de Portugal, situando Inês dentro de um cenário poético que tem os versos de Camões como epígrafe, exatamente para identificar melhor a realização deste livro.

Foi Graça Capinha quem me chamou a atenção para algo que até então eu não havia notado. “Inês”, de alguma maneira, conclui uma fase dentro desse projeto meu de buscar em Portugal a poesia que me falta no Brasil.

Assim, leio a nota de observação que escrevi para abrir este “Inês”, o que traduz um fato poético verdadeiro:

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Com este “Inês” meu envolvimento com a poesia de Portugal - creio - chega a um ponto dos mais altos que até então imaginei. Sou um poeta brasileiro em busca de mim, equivale dizer em busca da poesia que encontrei neste pais dos meus pais. Estão aqui os versos que me completam e atrás deles vim, a partir de 1998, quando participei, pelas mãos da querida Graça Capinha, do Terceiro Encontro Internacional de Poetas, na Universidade de Coimbra, decisivo para minha vida de poeta. Posso dizer, sem erro, que em Portugal conheci a verdadeira dimensão da poesia. Estão aqui as palavras que necessito. Atravessei essa paisagem poética a partir de “20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra”, passando por “Poemas portugueses”, “Sete anos de Pastor”, “A memória do Pai” e agora este “Inês”, que habita a mente de tantos poetas de todo mundo. A mim também habitou, mas precisei vê-la de perto para que pudesse deixar que minha poesia, finalmente, completasse este ciclo, no poema feito na funda palavra que vive não se sabe onde, mas que existe para se realizar, como se secasse uma ferida, essa da memória do longo tempo de outras vidas que em Portugal me debrucei à procura do que me resta como poeta. Portugal e a Poesia Portuguesa mostraram-me a palavra necessária para a realização de uma obra poética. Neste “Inês”, ao completar este ciclo, limitei-me, poeticamente – tomando o lugar do príncipe - a narrar uma história com começo, meio e fim, em 30 poemas, sabendo, antes de tudo, estar lidando com um tema sobre o qual tudo já se escreveu, sobretudo em Portugal. Mas valeu-me a história de Inês e Pedro como experiência dentro da poesia e da construção do poema, na elaboração de uma linguagem que me representou um desafio apaixonado em favor de minha obra poética pessoal. Vim a Portugal em busca da poesia que me falta em meu país. Saúdo “Inês” como se saudasse a uma irmã, assim de braços abertos, pelo poema realizado, pela poesia redescoberta e pelo que ainda está por vir na palavra poética por viver em Portugal, pátria da poesia que ainda almejo escrever.

  Esta nota de observação, no entanto, não significa que esta fonte de Portugal, da poesia de Portugal, não será mais procurada por mim. Muito pelo contrário. Este meu trabalho poético continuará. No Brasil ele é impossível de ser realizado, pelo menos no que diz respeito a mim particularmente. Muitos, em meu país, não compreendem esta minha posição em relação à poesia. No meu caso e no caso de minha poesia, Portugal se faz necessário porque este sentimento vai além da literatura, é algo existencial, que se impõe pela poesia e para a poesia, para que eu consiga realizar a obra poética que desejo, depois de tantos caminhos percorridos ao longo dos anos e da vida.

Concluo dizendo que “Inês” é minha palavra poética que considero mais densa, dentro do que me propus, desde “20 poemas quase quase líricos e algumas canções para Coimbra” e “Poemas portugueses”, passando por “Sete anos de pastor” e “A memória do pai”.

Sinto, sim, que uma fase se concluiu. Agora é esperar para ver o que se abre à minha frente e aos meus olhos, mas que tenha Portugal e a poesia portuguesa como pano de fundo para a realização poética, para a poesia que sinto ser verdadeira, para a elaboração do poema que sirva ao homem, que sirva à vida e que, afinal, sirva à própria poesia que háverá de ser cultivada sempre.

INÊS

Álvaro Alves de Faria realiza um livro singular. E tece esta Inês em língua luminosa e para muitas pátrias. Por indeterminada e bela. Ícone platônico e fantasma. Afrodite. E Mira-Coeli. E todo um aspecto fontal, de As bucólicas revisitadas, de água pura, amor e solidão. Ouço aqui a brisa de Sá de Miranda. Petrarca e Camões. Io venni sol per isvelgiare altrui. A tanto veio Álvaro: para despertar. De um sonho impreciso. Vasto, impreciso e doloroso. Eis o lado mais fundo de Inês. O seu país secreto, anfíbio e múltiplo. Tal como as formas poéticas em que Álvaro declara o seu terrível amor. Altivo e submisso. Mas onde, como e quando surge Inês em sua obra? Uma pergunta impossível, a que parece responder timidamente uma pista: ao terminar a viagem ao Pai, tão sentida telemaquia!, ressurge a sua Ítaca, de nome Portugal. Álvaro Alves de Faria, porque reuniu as partes dispersas, porque abraçou todas as parcelas das ilhas esquecidas, escreveu um de seus livros mais belos e mais inspirados. Io venni sol per isvegliare altrui.
 
Marco Lucchesi

INÊS

O amor ensina a voar por qualquer instante ou fresta do tempo, a viver o assombro como o pão de cada dia, a morrer talhando epitáfios para sempre. Existe um amor cuja antiga linhagem expõe o seu desejo como no princípio, porque nunca perde o combustível para a sua incandescência.
No vasto mundo da lusofonia, o amor do Infante Dom Pedro pela galega Inês de Castro aparece como uma história sagrada matizada de lenda. Permanece como uma labareda quieta no imaginário popular: todos a recordam, mas são os poetas que a tornam mais viva enquanto passam os séculos. E dentro da plêiade de poetas, poucos são os eleitos para deixar marca sobre o nome de Inês. Um deles é – e será – Álvaro Alves de Faria, paulista cujos versos admiro e traduzo. Leiam o seu longo poema repartido em trinta cantos, pois a voz de Faria (convertido em Pedro) saberá comover-vos com a sua realidade outra do amor. Inês ocupará um lugar seguro na imorredoira literatura portuguesa.

Alfredo Pérez Alencart
Poeta peruano-espanhol
Universidade de Salamanca, Espanha

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