Poeta

Álvaro

Alves

de Faria

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Livro de Sophia

LIVRO DE SOPHIA

QUERO APRESENTAR AOS MEUS LEITORES MEU NOVO LIVRO QUE ESTÁ SENDO LANÇADO EM PORTUGAL, “LIVRO DE SOPHIA”, DEDICADO À POETA PORTUGUESA SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN. “LIVRO DE SOPHIA” FOI ESCRITO NUM ÚNICO DIA, EM LISBOA, EM 2 DE JULHO DE 2004, QUANDO A POETA FALECEU. EU ESTAVA NUM HOTEL EM LISBOA, QUANDO VI A NOTÍCIA DE SUA MORTE NA TELEVISÃO. COMECEI, ENTÃO, A ESCREVER. E ESCREVI O DIA INTEIRO, NOS CAFÉS, RESTAURANTES, RUAS, LIVRARIAS, EM TODO LUGAR DE LISBOA ONDE ESTIVE NESSE DIA. O QUE PENSAVA SER APENAS UM POEMA TRANSFORMOU-SE NUM LIVRO, QUE ESTÁ SENDO PUBLICADO PELA EDITORA PALIMAGE, DE COIMBRA. TENHO SEIS LIVROS PUBLICADOS EM PORTUGAL, QUE SÃO OS SEGUINTES: “20 POEMAS QUASE LÍRICOS E ALGUMAS CANÇÕES PARA COIMBRA”, “POEMAS PORTUGUESES”, “SETE ANOS DE PASTOR”, “A MEMÓRIA DO PAI”, “INÊS” E AGORA “LIVRO DE SOPHIA”. TODOS ESSES LIVROS SERÃO REUNIDOS NO ANO QUE VEM NUM ÚNICO VOLUME QUE TERÁ O TÍTULO “ALMA GENTIL: RAÍZES”, A SER PUBLICADO PELA EDITORA ESCRITURAS, DE SÃO PAULO. A CAPA DO “LIVRO DE SOPHIA” MOSTRA UMA OBRA DE RUBENS (”MULHER JOVEM OLHANDO PARA BAIXO”), UM ESTUDO DA CABEÇA DE SANTA APOLÔNIA, DE 1628. O LIVRO TEM TRÊS APRESENTAÇÕES, NAS DUAS ‘”ORELHAS” (QUE OS PORTUGUESES DIZEM “BANDANAS”) E NA QUARTA CAPA, ASSINADAS POR AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA, GRAÇA CAPINHA E MIGUEL SANCHES NETO. DIVIDO MINHA ALEGRIA POR ESTA PUBLICAÇÃO COM AS PESSOAS QUE ME LÊEM E ME ACOMPANHAM POR ESTE SITE.

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APRESENTAÇÕES DO “LIVRO DE SOPHIA”

4ª.capa:

                          Álvaro Alves de Faria, pelo seu lirismo, talvez seja o mais português dos poetas brasileiros. Este poema é uma elegia para Sophia de Mello Breyner Andresen. Podia ser também uma crônica ou uma carta de despedida. Mas é a retomada do clássico tópico do “diálogo com os mortos”. Diz ele que “quando morre um poeta/ também morre a poesia”.No entanto, a poesia é aquilo que sobrevive ao poeta.

AFFONSO ROMANO DE SANT`ANNA

Orelhas:

                          “Neste poema que não é poema”, Álvaro Alves de Faria continua “a colher as últimas palavras” na poesia dos poetas portugueses – essa que escolhe como a sua tradição última, em que o nome de Sophia de Mello Breyner também se inscreve, – para, mais uma vez e a exemplo de todos os seus livros já publicados em Portugal, procurar a forma do poema que é, nas suas próprias palavras, “um risco de silêncio”. Autor de Palavra de Mulher (S.Paulo: SENAC, 2003), uma marcante colectânea de vinte entrevistas em homenagem a outras tantas escritoras brasileiras, este texto, dirigido a uma das mais reputadas escritoras portuguesas, reafirma a continuada admiração deste poeta e jornalista brasileiro pela escrita e/ou a diferença de um território, a partir do qual, reconhece, jamais poderá articular. Num tom coloquial, entre a epístola e a prece, Faria fala para Sophia, no dia em que ouve o anúncio do falecimento desta poeta portuguesa. Percorrendo mais um caminho metapoético no espaço excessivo da infinita possibilidade de articulação por dizer, nesse espaço sempre em aberto, Faria busca uma possibilidade de reterritorialização: através do espaço das palavras, com e no espaço das palavras, para “uma poesia que não é e que não sabe”. Filho de portugueses, esta busca apresenta-se, inevitável e simultaneamente, como uma reinvenção identitária e poética (“para renascer em mim o ser que um dia me habitou”) – lembrando Sophia, a lembrar Caeiro, num “poema que não é poema”, “que se nega como poema”. No estilo eminentemente paradoxal a que Faria já nos habituou, emerge, perante a morte e o silêncio (o lugar da infinita possibilidade), uma poesia de luz, “um baque”, um evento, a testemunhar o carácter nómada e sempre incompleto de uma escrita que nada “acrescenta em sua forma” ao poema, mas que, por isso mesmo – nesse “nada que salva” a escrita e/ou o poeta – afirma o devir da poesia da língua portuguesa, “como se lhe fosse possível existir”, para morrer ainda e, de novo, renascer. “Procuro-me em Portugal/e vejo-te morta” – daqui, deste primeiro verso do Livro de Sophia, se faz o trabalho para um (re)nascimento da escrita e do poeta.

GRAÇA CAPINHA

Ensaísta e professora da Faculdade de Letras        da Universidade de Coimbra

                          O poeta, na madureza, sente a poesia ressecar em torno de si, devido ao papel irrelevante da palavra poética na cultura brasileira e à estratégia de afirmação dos não-poetas entre nós. Quando nada mais pode entusiasmá-lo no seu país, depois de décadas de uma produção conjugada na cidade dos homens, Álvaro Alves de Faria começa a fazer uma longa viagem de volta. Ele vai afirmar, ao homenagear a poeta Sophia de Mello Breyner Andersen, o sentido maior deste deslocamento:

 

                           Estou na tua terra, Sophia, em busca desse poema que me falta,

                           No teu país em que me percorro em minha intimidade

                           Como se assim pudesse ainda salvar minha alma de poeta que fui.

 

                          Esta travessia tem, portanto, um sentido salvífico. Ao fazê-la, Álvaro Alves de Faria, que vem se declarando um ex-poeta por não pactuar com o que se entende por poesia no Brasil contemporâneo, tenta retomar uma identidade perdida. Para que o poeta que ele foi possa ainda existir é preciso um ambiente cultural que o reconheça neste papel. Assim, este voltar-se para Portugal é antes de mais nada uma imposição interior. O ex-poeta quer encontrar uma tradição poética na qual ele caiba para que possa novamente ousar ver-se como bardo. Portugal é assim a pátria de um verbo lírico inexistente entre nós; e a travessia, um movimento vital.

MIGUEL SANCHES NETO

                          “Livro de Sophia” representa, para mim, mais uma afirmação pessoal, particular, intransferível, de minha opção pela poesia de Portugal. Nada tenho a ver com a poesia brasileira, o que, convenhamos, não tem significado prático ou literário nenhum. Com algumas exceções, o que se produz de poesia no Brasil é lastimável. Há exceções, claro. Especialmente das poetas mulheres brasileiras. São as mulheres que, atualmente, produzem a melhor poesia deste país. As mulheres são mais sérias. Sabem observar melhor. O que se vê na verdade nessa paisagem deprimente, alimentada por um jornalismo cultural medíocre, são manifestações que não suportam uma crítica razoável. Poetas inventados da noite para o dia, que desaparecem do dia para a noite. Mas no país das grandes mediocridades está tudo absolutamente correto. Eu, por mim, preferi fugir para Portugal. Nos últimos dez anos, publiquei sete livros de poesia. Seis deles em Portugal. Podem me chamar de arrogante. Acho a palavra bonita, embora não me sirva. Sou honesto comigo e principalmente honesto com a poesia deste país tantas vezes ridículo. Assim, “Livro de Sophia”, dedicado à poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, tem um significado pessoal, a certeza íntima de estar trilhando o caminho correto, que respeita a poesia e não faz da poesia um jogo lamentável de discussões estéreis que não levam a nada. O quadro é melancólico. Eu tento fugir essa paisagem deprimente. Dessa escuridão. Busco em Portugal a poesia que me falta no Brasil. Abaixo apresento trechos do longo poema do “Livro de Sophia”, que está sendo lançado neste mês em Portugal.

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