Álvaro

Alves
de Faria

A MEMÓRIA DO PAI (*) - Parte 2 de 3

Manuel Ferro
Escritor e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.

Na recuperação do passado, o modo como domina e exprime o tempo, na escrita encantatória da História, contada de um prisma muito particular, descobre-se o viajante que deambula e interroga a cidade, o campo ou a aldeia, numa busca insatisfeita, à procura da mais tênue pista que denuncie algum vestígio de paragens familiares aos seus antepassados. Dando voz a todos quanto sonham reencontrar as suas raízes e, muito particularmente, aos filhos e descendentes de portugueses que sonham conhecer a terra onde os seus pais viram a luz do dia, é através das vozes, da palavra perdida, dos gestos repetidos, genialmente articulados na poesia de Álvaro Alves de Faria que se reconstitui esse processo sempre marcado pela intensidade emocional, que se cruza, por sua vez, com o reencontro de um passado mítico, na esteira de António Nobre, muito embora fiquem salvaguardadas as profundas diferenças entre ambos os poetas.
A poesia torna-se, pois, “uma coisa sentimental e existencial”, assumindo as palavras do autor, e “Portugal é uma porta. Uma paisagem existencial. Uma paisagem poética”. E o que o leva a Portugal ? “Tenho ido em busca de mim, se é possível entender. Em busca da minha poesia ainda possível. Talvez em busca da vida que me resta”.
Filho de pais portugueses, busca, pois, dentro de si as suas próprias reminiscências. “Vou buscar-me onde me deixei. Vou em busca do ar para respirar./.../ Um poeta à procura da poesia. De Portugal pretendo apenas a poesia. Pretendo vestir-me de poesia. De Portugal pretendo-me apenas ser. Quem sabe renascer ?”
Este livro “A Memória do Pai” abre-se com a dedicatória ao próprio pai, figura presente e condutora de quase toda a obra, aos familiares, aos amigos e, de modo afectivo, àquelas pessoas de Idanha-a-Nova, que preservam as tradições e que, de algum modo, evocam as memórias do passado. Os momentos em que o presente livro foi iniciado, evocados num texto inserido numa das primeiras páginas, seguido de uma epígrafe, desta vez de Francisco de Sá de Miranda, poeta de algum modo representativo do Portugal de antanho, dão lugar, depois, a uma introdução da responsabilidade de Carlos Felipe Moisés.
Os 41 poemas que integram o volume iniciam-se, naturalmente, com a evocação da figura tutelar do pai. “Meu pai/ nunca soube/ que eu morri” (p.17), num poema construído de forma encaixada, com essa pequena estrofe a iniciar e a concluir a composição. E a essa imagem faz aderir a de um espaço mítico da terra das suas raízes, da aldeia com a sua igreja, das relações humanas nela estabelecidas (p. 19, 20, 21), das ruas incertas de pedra, calcorreadas por sapatos antigos, das cegonhas nos ninhos (p.46), ou dos campos, do verde das montanhas, onde, na figura do pastor a olhar a tarde a afagar as ovelhas, reconhece também a imagem omnipresente do pai. Noutros cenários, esconjurados pelo poder da memória (p. 24) surgem as oliveiras dos campos, os rebanhos brancos (p.30) ou outras memórias da Hisrtória (p.28), assim como a reminiscência de um espaço algo incerto que persiste em impor-se:

Havia um rio
atrás de minha casa
e sempre que dormia
a sonhar
ia-me à margem lavar o rosto
como se ali houvesse de verdade
esse rio
a correr atrás de minha casa.

Até hoje não sei porque
sempre saía desse sonho
com o rosto molhado
da água desse rio
que me esperava adormecer
para existir .(p.33)

Outras vezes são, de novo, as fotografias que favorecem esse salto no tempo, recuperando a memória estilhaços do passado, a que a poesia dá forma (p.36), mas em que a figura do pai continua como motivo condutor, a dar unidade à obra (p.44). Nessa altura,
a poesia confere uma forma plástica ao pensamento

Reminiscências feridas sangram a memória
como as pombas a se aninhar nos alpendres das casas
que não seja este tempo da tarde esse navio que desaparece
nesse mar que termina sem avisar. (p.56)

ou , então, é a força que domina e conduz o poeta no acto da criação:

assim se faz o poema
na medida que não meço

sei-me inútil na poesia
na palavra que adormeço

quanto mais explico o verso
quase nada esclareço (p.41)

Nesse contexto, afirma-se o sabor da poesia popular, com a frescura dos jogos de palavras e da fluência do ritmo, como expressão de uma cultura que cunha a identidade da herança do passado reencontrado:

Não eternizo – eterneço
torno eterna a eternidade
mas nesse eterno me esqueço
por tão longa brevidade.

É assim que o tempo teço
a viver com brevidade
a memória desconheço
por tão curta eternidade (p.53)

E para além dessa vertente popular, o espaço poético assim reconstituído é ainda povoado por algumas figuras, sombras emergentes, qual a figura de Inês de Castro (p.47-48), ou Eugénio de Andrade, num poema dedicado ao poeta por ocasião de sua morte ou ainda pela lembrança de uma canção que o fluir do tempo impossibilita de repetir:

Também queria recordar pai
uma canção que esqueci no meu passado
que falava não sei mais o quê
perdido que está em mim
esse verso inacabado
do poema nunca escrito
que me é sempre lembrado. (p.58)

Por tudo isso, o produto desse delicado processo de reconstituição da memória é naturalmente marcado pela imprecisão, pela incerteza de um universo, que só a poesia pode configurar e dar sentido:

Em instantes assim
ponho-me a lembrar de coisas
que nunca aconteceram
mas é como se tivessem acontecido
porque delas me lembro
com a nitidez de uma ave
que empreende o vôo para o fim.

/.../

Navegador que não sou pai
perco-me nos oceanos
e nos oceanos perdido
busco-me nas ostras e nas pérolas
com a alma à deriva.

Em instantes assim
em que me lembro de tudo
sem nunca lembrar de mim. (p.54)

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