Melhores Poemas

Álvaro

Alves
de Faria

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A poética do desassossego e da insubmissão

Ronaldo Cagiano

  Desde sua estréia, com Noturno maior (1963), até os mais recentes A memória do pai (2006) e Babel (2007), há mais de quatro décadas, a voz de Álvaro Alves de Faria vem construindo uma obra catártica, movida pela paixão literária e por um profundo sentimento se responsabilidade estética.

  Não só por meio de sua poesia densa, pungente e cirúrgica, mas também por uma prosa sutil e reflexiva, tanto na crônica, quanto na ficção e no texto teatral, Álvaro vem arregimentando sua pulsão criativa para estabelecer um sério diálogo com a nossa própria condição existencial, ao mesmo tempo em que estende uma ponte dialética entre os gritos e o silêncio de uma sociedade que viv seus antagonismos e experimenta um veloz e avassalador escalonamento de valores, costumes e referenciais.

  Ao reunir, sob a seleção, organização e estudo crítico de Carlos Felipe Moisés, os melhores momentos de sua produção poética, a Global Editora oferece ao leitor um panorama distinto, e ao mesmo tempo revelador, de uma arte comprometida com a compreensão da vida, no que ela comporta de lírica, épica ou dramática. Essa reunião de seus melhores poemas, possibilita um contato com a visão crítica e reflexiva desse escritor antenado e multifacético, que não se constrange em sofrer (e até morrer) pela arte literária, porque não concebe viver sem o pulmão e o farol das palavras.

  Diante da grandeza de sua bibliografia, é impossível esgotar qualquer análise crítica em torno de sua obra. No entanto, o primoroso ensaio do organizador, que abre a “Coleção Melhores Poemas”, faz um mergulho nos temas recorrentes na obra alvariana, refletindo sobre cada livro e ressaltando todas as nuances de seu processo de construção, que é também tributário de uma energia vital, que brota de sua íntima oficina de inquietações.

  Em Álvaro Alves de Faria a escrita vigorosa e contundente não doura a pílula, embora seja capaz de harmonizar a severa denúncia da realidade sem cair nas tentações panfletárias ou ideológicas; como também de decantar o lirismo que há nos amores e nas paixões, sem desviar-se para a pieguice ou o sentimentalismo. Há um trânsito filosófico e onírico ao passar em revista às razões do coração, aos silêncios que muitas vezes dizem mais que as experiências visíveis e flagram o que há de metafísico e mítico na própria vida.

  A escritura de Álvaro corrobora aquela perspectiva de que nos falava o saudoso poeta catarinense Lindolf Bell sobre a função provocadora da poesia: “O lugar do poema/é onde possa inquietar”. Na década de 60, após a decretação dos anos de chumbo pela ditadura militar, Faria saiu às ruas para romper amarras e desatar algemas com a única mas feroz arma de que dispunham os semeadores de utopia: a poesia. Para os espoliadores do estado democrático e de direito, a força da palavra acicatava mais que as bombas, porque seu poder fulminante, que reside na conscientização, incomodava e era preciso deter os que propugnavam pela liberdade de todas as formas de expressão e pensamento. Por isso, foi admoestado, proibido, enquadrado e detido, ao realizar solitariamente, munido de microfones e alto-falantes, nove recitais do “Sermão do Viaduto”, tendo sido preso cinco vezes pelo Dops. Sua guerrilha poética chamou a atenção não apenas pela ousadia estética, mas pela oportunidade de se utilizar a arte para combater o horror da censura e o tédio do moralismo estupidificante de uma parte da sociedade que assimilou cacoetes morais e repressivos do reacionarismo político, e, mais tarde, foi objeto de um estudo crítico publicado por Nelly Noaves Coelho, da USP.

  Foi um momento epifânico na sua carreira, diria mesmo um divisor de águas. A partir desse episódio, lança-se a um combate sem tréguas, que não tinha apenas motivação política, mas uma atitude permanente de valorização do que é vivo e essencial na arte, sem fazer concessões ao mau gosto, aos modismos, às conveniências de qualquer natureza. Álvaro é um poeta que jamais perdeu sua coerência e vem pavimentando sua trajetória com esse mesmo espírito aguerrido que levava multidões ao viaduto do Chá. Jamais perdeu sua capacidade de espanto e indignação diante das injustiças, sejam as políticas, sejam as perpetradas pelos guetos intelectuais e suas rotulações ruidosas e fetichizantes, que muitas vezes embalam a consciência de certos artistas e os tornam incapazes de discernir o joio do trigo, em detrimento de uma literatura comprometida com a realidade sócio-cultural, com a linguagem, com o pensamento crítico, com os rumos da própria poesia e que responda às demandas e emergências que a própria arte contemporânea reclama.

  Álvaro compreende, como Giorgio Agamben, a necessidade de se “reencontrar a unidade de sua palavra fraturada”, por isso sua poesia é um permanente exercício de resgate de uma arte tão mutilada pelas invencionices e contorcionismos, é uma tentativa exaustiva, porém fundamental, de recolher seus cacos, após décadas de diluição, falsas rupturas e vanguardices catequizantes, recolocando a palavra poética na ordem do dia, apesar do vazio, da superficialidade, da crise de criação ou quase indigência de que padece atualmente.

  Não é sem tempo afirmar que sua poesia se perfila à dos grandes nomes de sua geração, além de manter uma fecunda interface com poetas universais de todos os continentes, com um viés ético-estético que o aproxima de Bandeira, Drummond, Baudelaire, Maiakovski, Lorca, Augusto dos Anjos, João Cabral, Pessoa, Sá-Carneiro, Rimbaud, Verlaine, Jorge de Lima, dentre outros e que a cada novo livro ganha mais força e atualidade. E essa vitalidade resulta da sua insubmissão aos cânones e de sua fidelidade aos princípios que sempre nortearam sua criação. Vem do sopro humanista, da dimensão social, da contundência de um olhar ao mesmo tempo cáustico mas esperançoso, do rigor técnico, do acento lírico. E também por exprimir os sentimentos conflagrados em nossos territórios íntimos, por denunciar o vazio, pela aguda identidade com a tragédia do existir, com uma fina sintonia entre o tradição e a modernidade, sem perder a lúcida perspectiva da poesia que, apesar de ser um movimento suscetível de metamorfoses, não deve negar seus vínculos com o passado.

  Nos últimos anos, Faria vem publicando seus livros de poesia somente em Portugal. Essa mudança de rumos reflete não apenas uma atitude pessoal de volta às raízes familiares ou à compreensão da carga simbólica de sua ancestralidade lusitana, um influxo altamente proustiano de retomar o tempo perdido; mas também para fugir à insularidade ou à indiferença solene - e por que não dizer injusta e criminosa - com que o mercado editorial brasileiro vem tratando os nossos poetas, principalmente os poetas de sua linhagem, cuja contribuição ao panorama da poesia contemporânea brasileira é indiscutível.

  A poesia de Álvaro Alves de Faria, agora panoramizada na Coleção Melhores Poemas, sintetiza o pensamento de um autor que tem uma visão multidimensional da grandeza e das misérias humanas, o que a particulariza dentro do cenário da bibliografia brasileira.

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