Poeta

Álvaro

Alves

de Faria

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Canal do Poeta

Melhores Poemas

A poética do desassossego e da insubmissão

   Foi uma festa. A expressão é essa mesma. O lançamento de “Melhores Poemas”, na Fnac da Avenida Paulista, foi uma festa. Um dos mais importantes livros de minha vida de poeta. Essa coleção “Melhores Poemas” é o que de mais importante existe neste país hoje, na área da literatura, dirigida pela escritora Edla Van Steen.

O convite para participar dessa coleção partiu do dono da Global, editor e amigo Luiz Alves. Eu lhe disse: “É como se eu estivesse começando tudo de novo”. E eu lhe digo agora, pelo site: Eu estou começando tudo de novo.

A seleção foi feita pelo poeta amigo Carlos Felipe Moisés, que também assina o ensaio de abertura. Trata-se do único crítico sério da Geração 60 dos Poetas de São Paulo. O resto não existe.

Foi uma festa. Uma festa que fugiu da questão literária. Foi um encontro com gente amiga. Com a meiguíssima Cristina, da Global, com o Guilherme Loureiro, assessor de imprensa, com o diretor editorial Jefferson L. Alves, com todo mundo, especialmente meus amigos queridos da Jovem Pan, pessoas com quem convivo há muito tempo e agora, também, uma garotada que me quer bem. E como isso é bom!

Estava lá a jornalista Patrícia Cicarelli, que está escrevendo um livro a meu respeito. O lançamento de “Melhores Poemas” fará parte, creio, dessa biografia. Estava lá com a bailarina linda e fotógrafa Juliana, fazendo fotos para esse livro.

Foi uma festa.

Um livro numa coleção que nunca esperava entrar. Que se morda a mediocridade que reina neste país vagabundo. Que se morda. Especialmente os carinhas que se dizem “poetas”, amparados por um jornalismo que não tem compromisso com nada e que se diz cultural. Mas que de cultural não tem nada.

Sou um poeta português. Nada tenho a ver com o que ocorre neste pais infelizmente medíocre. E não estou falando somente de literatura. Não. Há muitas outras coisas medíocres cheia de gente que não presta. Isso é o que não falta no Brasil.

Mas se foi tudo uma festa, por que, afinal, estou escrevendo com esta linguagem raivosa ? Sou mesmo um cara raivoso. Confesso essa “virtude”. Poesia não é brincadeira, dessas que vejo todos os dias, enganosa, feita de endeusamentos que causam arrepios e constrangimentos. Aliás, é a cara do Brasil. A identidade brasileira. Sem compromisso nenhum com nada. Há a história oficial e a história verdadeira. Eu estou longe da história oficial.

Tomo a liberdade de reproduzir aqui quatro pequenos trechos de críticas a meu respeito, que a Editora Global colocou nas orelhas de “Melhores Poemas”:

Lygia Fagundes Telles: “O lirismo de Álvaro Alves de Faria é sem sentimentalismo e sem piedade, lirismo agudo e enérgico de quem aceita o desafio e de olhos enxutos embora feridos nos faz sentir na carne a carne de suas palavras”

Affonso Romano de Sant´Anna: “Um dos mais atuantes e competentes poetas da Geração 60. a obra de Álvaro Alves de Faria é peça relevante para se ter uma idéia da poesia feita entre nós na segunda metade do século XX”.

Nelly Novaes Coelho: ”Nestes anos de corpo-a-corpo com a poesia e com a ficção, Álvaro Alves de Faria construiu uma obra que já conquistou um lugar definido na literatura brasileira desta segunda metade do século”.

Carlos Nejar: “O poeta é uma consciência do mundo que não dorme. E assim também é a poesia de Álvaro Alves de Faria. Do cotidiano e aparentemente trivial, constrói o mágico e o mistério; do humilde, retira a grandeza; do mais frágil, a força lírica; da matéria imóvel, o drama; do término, o principio; das sombras, a luz”.

Faço questão de colocar essas palavras aqui porque a trajetória, ao longo da vida, tem sido árdua. Sou poeta 24 horas por dia. Tanto que “poeta” tornou-se meu apelido. E neste instante me lembro do menino de 11 anos de idade que escreveu seu primeiro poema dedicado ao seu cão e que queria ser santo. Um menino que, aos 12 anos, foi ser jardineiro para ajudar os pais portugueses com algum dinheiro, qualquer dinheiro. Um menino que com 14 anos foi operário numa fábrica de canetas. Um menino que com 16 foi ser contínuo no extinto jornal Correio Paulistano e que ao sair para entregar uma primeira carta perdeu-se na cidade.

Lembrei-me disso tudo agora. Neste exato instante. Não sei se me dá alguma tristeza. Não sei. Mas tenho orgulho da minha infância sem nada, sem brinquedos, sem sonhos, na qual um copo de guaraná ou uma xícara de leite representavam uma festa quase inacreditável.

Depois foi a vida. Sociologia e Política. Literatura e Língua Portuguesa. Mestrado em Comunicação Social. Todas as loucuras e alucinações possíveis. As que estão comigo até hoje. Parte delas escrita em “Melhores Poemas”, desde o primeiro livro ”Noturno Maior” que escrevi quando tinha 16 anos de idade. Todos os amores que se perderam. Todos os acenos que deixaram de existir. Todos os beijos esquecidos na boca. Todos os silêncios guardados para sempre na memória. Meu pai.

Foi uma festa.

Bebi meu vinho à minha própria saúde e à saúde de meus amigos, os que estiveram presentes e os que não foram, os que já partiram para sempre e os que ainda estão no caminho. Os que respeitam a poesia e fazem da poesia uma palavra para o homem, para a mulher, a criança, as plantas, os bichos, os que estão à margem. Uma palavra à própria poesia, equivale dizer à vida.

Foi uma festa. Que nunca vou esquecer.

MELHORES POEMAS

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Ronaldo Cagiano

  Desde sua estréia, com Noturno maior (1963), até os mais recentes A memória do pai (2006) e Babel (2007),  há mais de quatro décadas, a voz de Álvaro Alves de Faria vem construindo uma obra catártica, movida pela paixão literária e por um profundo sentimento se responsabilidade estética.

 

  Não só por meio de sua poesia densa, pungente e cirúrgica, mas também por uma prosa sutil e reflexiva, tanto na crônica, quanto na ficção e no texto teatral, Álvaro vem arregimentando sua pulsão criativa para estabelecer um sério diálogo com a nossa própria condição existencial, ao mesmo tempo em que estende uma ponte  dialética entre os gritos e o silêncio de uma sociedade que viv seus antagonismos e experimenta um veloz e avassalador escalonamento de valores, costumes e referenciais.

 

  Ao reunir, sob a seleção, organização e estudo crítico de Carlos Felipe Moisés, os melhores momentos de sua produção poética, a Global Editora oferece ao leitor um panorama distinto, e ao mesmo tempo revelador, de uma arte comprometida com a compreensão da vida, no que ela comporta de lírica, épica ou dramática. Essa reunião de seus melhores poemas, possibilita um contato com a visão crítica e reflexiva desse escritor antenado e multifacético, que não se constrange em sofrer (e até morrer) pela arte literária, porque não concebe viver sem o pulmão e o farol das palavras.

 

  Diante da grandeza de sua bibliografia, é impossível esgotar qualquer análise crítica em torno de sua obra.  No entanto, o primoroso ensaio do organizador,  que abre a “Coleção Melhores Poemas”, faz um mergulho nos temas recorrentes na obra alvariana, refletindo sobre cada livro e ressaltando todas as nuances de seu processo de construção, que é também tributário de uma energia vital, que brota de sua íntima oficina de inquietações.

 

  Em Álvaro Alves de Faria a escrita vigorosa e contundente não doura a pílula, embora seja capaz de harmonizar a severa denúncia da realidade sem cair nas tentações panfletárias ou ideológicas; como também de decantar o lirismo que há nos amores e nas paixões, sem desviar-se para a pieguice ou o sentimentalismo. Há um trânsito filosófico e onírico ao passar em revista às razões do coração, aos silêncios que muitas vezes dizem mais que as experiências visíveis e flagram o que há de metafísico e mítico na própria vida.

 

  A escritura de Álvaro corrobora aquela perspectiva de que nos falava o saudoso poeta catarinense Lindolf Bell sobre a função provocadora da poesia: “O lugar do poema/é onde possa inquietar”. Na década de 60, após a decretação dos anos de chumbo pela ditadura militar, Faria saiu às ruas para romper amarras e desatar algemas com a única mas feroz arma de que dispunham os semeadores de utopia: a poesia. Para os espoliadores do estado democrático e de direito, a força da palavra acicatava mais que as bombas, porque seu poder fulminante, que reside na conscientização, incomodava e era preciso deter os que propugnavam pela liberdade de todas as formas de expressão e pensamento. Por isso, foi admoestado, proibido, enquadrado e detido, ao realizar solitariamente, munido de microfones e alto-falantes, nove recitais do “Sermão do Viaduto”, tendo sido preso cinco vezes pelo Dops. Sua guerrilha poética chamou a atenção não apenas pela ousadia estética, mas pela oportunidade de se utilizar a arte para combater o horror da censura e o tédio do moralismo estupidificante de uma parte da sociedade que assimilou cacoetes morais e repressivos do reacionarismo político, e, mais tarde, foi objeto de um estudo crítico publicado por Nelly Noaves Coelho, da USP.

 

  Foi um momento epifânico na sua carreira, diria mesmo um divisor de águas. A partir desse episódio, lança-se a um combate sem tréguas, que não tinha apenas motivação política, mas uma atitude permanente de valorização do que é vivo e essencial na arte, sem fazer concessões ao mau gosto, aos modismos, às conveniências de qualquer natureza. Álvaro é um poeta que jamais perdeu sua coerência e vem pavimentando sua trajetória com esse mesmo espírito aguerrido que levava multidões ao viaduto do Chá. Jamais perdeu sua capacidade de espanto e indignação diante das injustiças, sejam as políticas, sejam as perpetradas pelos guetos intelectuais e suas rotulações ruidosas e  fetichizantes, que muitas vezes embalam a consciência de certos artistas e os tornam incapazes de discernir o joio do trigo, em detrimento de uma literatura comprometida com a realidade sócio-cultural, com a linguagem, com o pensamento crítico, com os rumos da própria poesia e que responda às demandas e emergências que a própria arte contemporânea reclama.

 

  Álvaro compreende, como Giorgio Agamben, a necessidade de se “reencontrar a unidade de sua palavra fraturada”, por isso sua poesia é um permanente exercício de resgate de uma arte tão mutilada pelas invencionices e contorcionismos, é uma tentativa exaustiva, porém fundamental, de recolher seus cacos, após décadas de diluição, falsas rupturas e vanguardices catequizantes, recolocando a palavra poética na ordem do dia, apesar do vazio, da superficialidade, da crise de criação ou quase indigência de que padece atualmente.

 

  Não é sem tempo afirmar que sua poesia se perfila à dos grandes nomes de sua geração, além de manter uma fecunda interface com poetas universais de todos os continentes, com um viés ético-estético que o aproxima de Bandeira, Drummond, Baudelaire, Maiakovski, Lorca, Augusto dos Anjos, João Cabral, Pessoa, Sá-Carneiro, Rimbaud, Verlaine, Jorge de Lima, dentre outros e que a cada novo livro ganha mais força e atualidade. E essa vitalidade resulta da sua insubmissão aos cânones e de sua fidelidade aos princípios que sempre nortearam sua criação. Vem do sopro humanista, da dimensão social, da contundência de um olhar ao mesmo tempo cáustico mas esperançoso, do rigor técnico, do acento lírico. E também por exprimir os sentimentos conflagrados em nossos territórios íntimos, por denunciar o vazio, pela aguda identidade com a tragédia do existir, com uma fina sintonia entre o tradição e a modernidade, sem perder a lúcida perspectiva da poesia que, apesar de ser um movimento suscetível de metamorfoses, não deve negar seus vínculos com o passado.

 

  Nos últimos anos, Faria vem publicando seus livros de poesia somente em Portugal.  Essa mudança de rumos reflete não apenas uma atitude pessoal de volta às raízes familiares ou à compreensão da carga simbólica de sua ancestralidade lusitana, um influxo altamente proustiano de retomar o tempo perdido; mas também para fugir à insularidade ou à indiferença solene - e por que não dizer injusta e criminosa - com que o mercado editorial brasileiro vem tratando os nossos poetas, principalmente os poetas de sua linhagem, cuja contribuição ao panorama da poesia contemporânea brasileira é indiscutível.

 

  A poesia de Álvaro Alves de Faria, agora panoramizada na Coleção Melhores Poemas, sintetiza o pensamento de um autor que tem uma visão multidimensional da grandeza e das misérias humanas, o que a particulariza dentro do cenário da bibliografia brasileira.