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Álvaro

Alves

de Faria

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MULHERES DE SÃO PETERSBURGO

“MULHERES DE SÃO PETERSBURGO”,

O NOVO LIVRO DE ÁLVARO ALVES DE FARIA

Será na próxima quarta-feria, 13 de maio, o lançamento de “Mulheres de São Petersburgo”, novo livro do poeta Álvaro Alves de Faria, publicação da Editora Penalux. Na impossibilidade de se realizar a apresentação do novo livro numa casa de eventos culturais, “Mulheres de São Petersburgo”, com prefácio do poeta Luis Augusto Cassas, sai via Internet e já está sendo vendido por este endereço:

 

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Alvaro explica “Mulheres de São Petersburgo”:

 

--Lendo muitos de meus poemas inéditos, notei que muitos deles tinham a figura da mulher como tema poético, a começar pelo título. Reuni então esses poemas e vi que o resultado foi bom. “Mulheres de São Petersburgo”, na verdade, era o título de um poema. E senti que esse poema explicava poeticamente o que pensei. Muitos desses poemas foram escritos no exterior, em viagens que fiz, especialmente Coimbra, Madri e Paris. São poemas de observação, se é que é possível explicá-los assim. Outros poemas foram escritos por experiências vividas. Acredito que o livro representa bem a poesia que me marcou a vida inteira.

 

O poeta diz acreditar na venda pela Internet, que já é uma tendência, porque tudo está mudando rápido demais. As livrarias praticamente desapareceram e os pontos de vendas cada vez diminuem mais. Adianta que optou por este meio da Internet, acatando a sugestão da editora.

 

No prefácio, Luis Augusto Cassas lembra o reconhecimento do poeta em países como o Brasil, Portugal e Espanha, observando: “Solitário, puro e autêntico em sua totalidade criadora, Álvaro Alves de Faria, com “Mulheres de São Petersburgo” rearma aos leitores e às novas gerações, o valor inquebrantável da dedicação à poesia e à estrutura superior atingida pela plenitude da linguagem em direção às novas estações do verbo. Resistência e humanismo, beleza e verdade, a lição que continua a pregar nas trincheiras líricas de sua revelação”.

 

Já a crítica literária e poeta, Alexandra Vieira de Almeida, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, assinala, nas “orelhas”, depois de percorrer os poemas em que mulheres de todos os tipos estão em todas as páginas:

 

-Este livro de poesia excepcional, por sua beleza, fala sobre mulheres, sem particularismos nacionais. Dá voz às mulheres de vários países, no seu cosmopolitismo vertiginoso, que abrange os perfis femininos em várias épocas e regiões, como no século XVII, também através do medievalismo à época mais atual”.

 

Repetindo: vendas pelo endereço:

 

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por Rubens Jardim

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O poeta Álvaro Alves de Faria veste a poesia com alma de relâmpagos. Surpreender, reinventar, resistir, autofecundar-se, alargar fronteiras, mergulhar no Hades interior e trazer a flor escondida, navegar nas altas esferas, tem sido sua iluminadora missão nessa encarnação de poeta de duas pátrias, entrelaçadas pela mesma língua, na sutil voltagem de sua ressonância universal.

Mulheres de São Petersburgo reflete a vivência (e multividência) do feminino plural ou o trailer hollyoodiano das musas do poeta – a experiência da palavra vivida, imaginada, transfigurada, sentida, idealizada, fruto do diálogo com a própria alma, a mulher interior.

Verdadeiro tratado lírico-antropológico da mitologia pessoal do amor e desejo – projeções, idealizações, catarses, figuras de éter, carne e osso, gaze e porcelana, mênstruo e suor mergulhadas no sal de porosidade erotizante – o livro traduz a jornada do grande poeta e desvela o viajor na rota do sublime, exibindo a multiplicidade da experiência modelada sob os signos formais de angustiante beleza, extrema delicadeza (essa força superior e sutil da força) e refinado senso estético.

“Todo anjo é terrível”, anunciava Rilke. E complementava: “O que é o belo senão o começo do terrível?” Tudo foi vivido? Tudo. Tudo foi sonhado? Tudo. Álvaro Alves de Faria experimentou as nuances vibratórias desse turbilhão dicotômica do angelical e demoníaco, encanto e desencanto de sua alma, mediada pela poesia, essa iniciadora da totalidade.

Mas o poeta também participa desse ritual de beleza como fingidor, testemunha e participante, sem temer apresentar ao leitor a fatura da inédita travessia. Exibe assim, de maneira pessoal e corajosa, o registro celular que também é arquetípico, que o faz consumir-se e consumar-se na apreensão e libertação dessas forças de coabitação psíquica, atualizando a senda vivida e sonhada. E assim, celebrar, libertar-se e ultrapassar o teatro de sombras, banhado na revelação do caminho que lhe coube no mundo, ativando para si e todos que o seguem o humano percalço do verdadeiro conhecimento do si-mesmo.

Conta a lenda que a melancolia, espécie de peste com fumaça cinza, como no filme de Cecil B. de Mille, penetrou pelas portas e janelas de São Paulo, viadutos e bairros, teatros, cinemas e espaços culturais, bairros armênio, judeus e periféricos – desde que ao poeta Álvaro Alves de Faria foi desferida uma bala, calibre 38, que se alojou em sua cabeça em reprimenda a protesto contra a revolução militar de março. Solidária, também por outros acontecimentos, a grande megalópole brasileira, permanece cinzenta, já que a bala não pode ser retirada. Mas, rainha dos paradoxos, a bala que o incomoda até hoje, navegando ele próximo à octonagem existencial, foi a impulsionadora principal de uma obra que remete a mais de 50 títulos, 30 de poesia e amplo reconhecimento em países como Brasil, Portugal e Espanha.

Solitário, puro e autêntico em sua totalidade criadora, Álvaro Alves de Faria, com Mulheres de São Petersburgo, reafirma aos leitores e às novas gerações, o valor inquebrantável da dedicação a poesia e a estatura superior atingida pela plenitude da linguagem em direção à novas estações do verbo.

Resistência e humanismo, beleza e verdade, a lição que continua a pregar nas trincheiras líricas de sua revelação.

 

– LUIS AUGUSTO CASSAS

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PREFÁCIO DO POETA LUIZ AUGUSTO CASAS

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Em Mulheres de São Petersburgo, de Álvaro Alves de Faria, temos ecos de Bataille, que disse que o erotismo é uma afirmação da vida na morte. Esse escritor francês continuava dizendo, ao citar Sade, que não há melhor maneira de se familiarizar com a morte do que associá-la a uma ideia libertina. A expressão popular la petite mort (a pequena morte) nos revela o momento epifãnico que se origina a partir do orgasmo.

Em Álvaro Alves de Faria, sentimos o hálito da relação tensa e dramática entre a vida e a morte, Eros e Tánatos. O limite entre estes extremos é tênue, deixando-se descortinar os círculos duplos que tangenciam a existência e a inexistência. Seu livro nos mostra uma intensa solidão, apesar da expressiva potência erótica que a tudo suga e arrasta como num mar voluptuoso e febril: “Como se chamará essa mulher/que acaricia os pés/com os olhos fechados/como se estivesse sendo amada por eles?”

Esse livro de poesia excepcional, por sua beleza e lirismo, fala sobre as mulheres, sem os particularismos nacionais. Dá voz às mulheres de vários países, no seu cosmopolitismo vertiginoso, que abrange os perfis femininos em várias épocas e regiões, como no século XVII, também através do medievalismo, à época mais atual.

Da mulher campesina à citadina. Em São Petersburgo, passando por Paris, Portugal, Espanha, Brasil, a Buenos Aires do tango e de Carlos Gardel, etc. É forte, também, a presença de outras artes: o teatro, a música e a pintura. Temos o imaginário das bailarinas e de uma moça com brinco de pérola, quadro tão constantemente visitado, como no cinema.

A relação entre o sagrado e o profano é também trabalhada, com precisão e intensidade, nas figuras das santas, das freiras, das mulheres comuns, das artistas e das prostitutas. Portanto, com o título dessa região da Rússia, “São Pertersburgo”, Álvaro Alves de Faria nos revela toda a tragicidade desse povo, que se expande em outros lugares, refletindo-se na sua obra, com brilho e fulgor.

 

– ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA

Crítica literária e poeta

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ALEXANDRA VIEIRA DE ALMEIDA

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“Mujeres de San Petersburgo”, nuevo libro del brasileño Álvaro Alves de Faria

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Alves de Faria con su nuevo libro

Estamos ante uno de los poetas brasileños más genuinos y de mayor voltaje, en cuanto a la Palabra esencial se refiere: Poesía con Mayúsculas es la que escribe, desde hace décadas, Álvaro Alves de Faria. Y en Salamanca se reconoció su valía y trascendencia, cuando en 2007 se le hizo un homenaje enmarcado en los Encuentros de Poetas Iberoamericanos que patrocina la Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y saberes.

 

Desde entonces, salvo en una ocasión y por motivos de salud, ha estado por aquí cada mes de octubre.

 

La editoral Penalux, de São Paulo, acaba de lanzar por internet el nuevo poemario de este maestro. Se titula “Mulheress de São Petersburgo” y lleva prólogo del poeta Luis Augusto Cassas. El mismo puede adquirirse solicitándolo a este email: [email protected]

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Álvaro Alves de Faria leyendo en el Teatro Liceo de Salamanca (foto de Jacqueline Alencar)

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En el prólogo, Luis Augusto Cassas  recuerda el reconocimiento que tiene el poeta en países como Brasil, España y Portugal, concluyendo: “Solitario, puro y auténtico en su totalidad creadora, Álvaro Alves de Faria, con “Mulheres de São Petersburgo”, rearma  a los lectores y a las nuevas generaciones, el valor inquebrantable de la dedicación a la poesía y a la estructura superior alcanzada por la plenitud del lenguaje en dirección a las nuevas estaciones del verbo. Resistencia y humanismo, belleza y verdad, la lección que continúa predicando en las trincheras líricas de su revelación”. Por su parte, la crítica literaria y poeta Alexandra Vieira de Almeida, profesora de la  Universidad Federal do Rio de Janeiro, concluye: “Este libro de poesía excepcional, por su belleza, habla sobre mujeres sin exclusividades nacionales. Da voz a las mujeres de varios países, en su cosmopolitismo vertiginoso, que abarca los perfiles femeninos de varias épocas y latitudes, como en el siglo XVII, o también desde lo medieval hasta la época más reciente”.

 

 

 

Enhorabuena a mi buen amigo Álvaro Alves de Faria (y a sus Mujeres de San Petersburgo), un autor a tener en cuenta siempre que se hable de genuina Poesía.

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Pilar Fernández Labrador, Alfredo Pérez Alencart y Álvaro Alves de Faria en el Liceo de Salamanca (foto de Jacqueline Alencar)

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ÁLVARO ALVES DE FARIA, POESIA A VIDA INTEIRA

por Montserrat Villar González*

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O poeta Álvaro Alves de Faria, colaborador da Revista Caliban, recebeu o “Prêmio Poesia e Liberdade Alceu Amoroso Lima”, de 2018, no Rio de Janeiro, pelo conjunto de sua obra, uma das láureas literária mais importantes do Brasil. E logo em seguida recebeu o “Prêmio de Poesia Guilherme de Almeida”, em 2019, em São Paulo, também pelo conjunto de sua obra poética. É considerado hoje um dos poetas vivos mais importantes do Brasil.

 

Incansável na luta pela poesia, é um crítico severo. E nessa condição de crítico literário e jornalista cultural, recebeu por duas vezes o Prêmio Jabuti e por três vezes o Prêmio Especial da APCA — Associação Paulista de Críticos de Arte. E é detentor, também, de praticamente todos os grandes prêmios literários brasileiros. Convirá dizer que antes de Álvaro, o Prêmio Poesia e Liberdade Alceu Amoroso lima foi conferido a poetas brasileiros como Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado, Marco Lucchesi, Leonardo Froes, Antonio Cícero, Antonio Freitas Filho e Paulo Henrique Brito.

 

Nos anos 70, viveu momentos dramáticos na luta contra a ditadura, que envolveu prisão, tortura e até um tiro na cabeça. Essa perseguição começou quando declamava poesia em pleno Viaduto do Chá, em São Paulo, o conhecido “O Sermão do Viaduto”. Fez nove recitais no local e foi detido cinco vezes, como subversivo. Teve livros proibidos, como “4 cantos de pavor e alguns poemas desesperados”. O mesmo ocorreu com peças de teatro, caso de “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que ficou censurada por seis anos e só entrou em cartaz na chamada abertura política.

 

Tem mais de 50 livros publicados no Brasil, incluindo romances e ensaios, mas é fundamentalmente poeta. Tem, ainda 21 livros publicados em Portugal e oito na Espanha, cinco deles traduzidos por mim. Conheço bem essa poesia e sua repercussão, especialmente em Salamanca, onde se apresenta todos os anos. Mas esta resenha refere-se ao livro que acaba de lançar no Brasil, “Mulheres de São Petersburgo”, uma reunião de poemas sobre a figura da mulher, muitos escritos fora de seu país.

 

Recorro ao poeta Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, para explicar a poesia de Álvaro Alves de Faria: “Sua obra é uma poesia de corte qualificativo que dirige nossos olhos a essa grande obra que desenha um mundo de solidão e inconformismo, dor, solidariedade com os que sofrem, mas também temos essa sensação de que estamos diante de um espírito cheio de chagas, cuja morte (anunciada em poéticas maneiras de suicídio) se mostra como único fim em muitos de seus poemas”.

 

Pois bem, este novo livro que o poeta nos oferece percorre retratos amorosos de muitas mulheres que, de alguma maneira, conheceu. Esse quadro se converte conforme vamos avançando na sua leitura, numa consecução de poemas incendiários, ao modo de “Pero… hubo alguna vez 11.000 vírgenes?”, do dramaturgo espanhol Jadiel Porcela, em que um Dom Juan do século 20 lembrava de todas suas conquistas, descrevendo essas mulheres como verdadeiras carentes de amor.

 

Assim, concordo com o prefaciador da obra, o poeta Luis Augusto Cassas, de São Luiz, no Maranhão, norte do Brasil, quando afirma que “Mulheres de São Petersburgo” representa um “verdadeiro tratado lírico-antropológico da mitologia pessoal do amor e desejo — projeções, idealizações, catarse, figuras de éter, carne e osso, gaze e porcelana, mênstruo e suor mergulhados no sal de porosidade erotizante”. O prefaciador destaca ainda “o valor inquebrantável da dedicação à poesia e à estatura superior atingida pela plenitude da linguagem em direção às novas do verbo. Resistência e humanismo, beleza e verdade, a lição que continua a pregar nas trincheiras líricas de sua revelação”.

 

Já a crítica literária Alexandra Vieira de Almeida, professora de Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que também apresenta a obra, observa que “esse livro de poesia excepcional, por sua beleza e lirismo, fala sobre as mulheres sem os particularismos nacionais. Dá voz às mulheres de vários países, no seu cosmopolitismo vertiginoso, que abrange perfis femininos em várias épocas e regiões, como no século XVII, também através do medievalismo à época atual”.

 

Mais adiante, ela observa: “Da mulher campesina à citadina. Em São Petersburgo, passando por Paris, Portugal, Espanha, Brasil, a Buenos Aires do tango e de Carlos Gardel. É forte, também, a presença de outras artes: o teatro, a música e a pintura. Temos o imaginário das bailarinas e de uma moça com brinco de pérolas”.

 

“Mulheres de São Petersburgo” é exatamente isso, mas com o sentimento de dor e de esquecimentos. Álvaro Alves de Faria é um poeta com voz própria, ferido pela vida de maneira profunda. E essa dor se mostra muitas vezes pela ironia que utiliza nos poemas, deixando claro que essa dor é para sempre. A poesia é para sempre, como tem sido com este poeta brasileiro, a vida inteira.

 

 

ENTREVISTA

 

MONTSERRAT — Minha primeira pergunta é sobre as cores que se repetem em muitos poemas de seu livro: vermelho, preto, azul. Por que essa repetição? O vermelho podemos relacionar com a paixão e também com o sangue. O uso dessas cores nos poemas é consciente? Quais são os seus significados?

 

ÁLVARO — O uso dessas palavras designando cores nasce naturalmente dentro do poema. Não ter um significado especial. É a palavra que a poesia exigiu naquele momento da escrita. As cores sempre significam alguma coisa, como você diz. Acredito. Mas no meu caso, nesses poemas de “Mulheres de São Petersburgo” são somente um recurso poético. Muitas vezes uso, sim, a cor vermelha, em outros livros, mas por uma questão política. Mas neste livro em especial são palavras para compor o poema da melhor forma possível.

 

P. Quando você descreve as bailarinas, a tocadora de harpa e algumas mulheres conhecidas como Clara Schuman e Inês de Castro,

você o faz com respeito e admiração, quase uma observação mística. Parecem mulheres intocáveis. Ao mesmo tempo esse olhar remete ao amor cortês medieval. É mesmo assim?

 

AAF — Toda mulher merece respeito especial. A exemplo de todas as pessoas. No caso dessas mulheres que você cita em sua pergunta, são personagem que sempre me cativaram, especialmente Inês de Castro, a quem dediquei o livro “Inês”. Ela é especial na minha vida, desde criança, quando dela ouvia falar nos programas de rádio que meus pais portugueses ouviam quando eu era uma criança. São mulheres que marcaram sua época e até hoje representam fatos especiais na história. Concordo que tenho por essas mulheres uma observação mística, como você diz. Quanto ao amor medieval é algo que preenche meu imaginário sempre. Sentir os campos, os camponeses, aquela vida de gente que lutava pela vida, sempre servindo alguém. Quando escrevo tendo os camponeses como personagem, quero defende-los da opressão de sempre.

 

P. Há outra classe de mulheres nesses poemas: as freiras. A ironia e a irreverência são a tônica desses poemas em que elas são as protagonistas. Essa linguagem é consciente?

 

AAF — Toda minha linguagem é consciente. Toda. Não escrevo nada de maneira inconsequente. Sei de minha luta pela poesia. Sei o que escrevo, o que quero escrever. Minha escrita está sempre no ataque. No caso da freira, foi uma lembrança espontânea, enquanto escrevia. E a ironia também. Essa ironia cabe bem nesses poemas. A figura da freira sempre me foi algo perturbador. Sempre quis saber o que se passa na cabeça de uma mulher que se nega a tudo para viver para sempre num convento, distante do mundo e da realidade. Essa sim, é uma mulher intocável. E a única maneira de chegar a ela é através de uma ironia que, na verdade, se volta contra mim.

 

P. E continuamos a dançar tangos e milongas com os poemas. Um tango que representa todas as despedidas. Que música você poria em todos estes poemas?

 

AAF — Em todos os meus poemas eu coloria música clássica, especialmente de Chopin, com quem me identifico. Basta dizer que meu primeiro livro adolescente chama-se “Noturno-Maior”. Consegui uma pequena vitrola e um LP com músicas de Chopin com uma amiga da época, aluna de piano, que tinha a minha idade. Então ouvia Chopin muitas vezes por dia e fui escrevendo os pequenos poemas. Eu tinha 15 anos. Mais tarde, esse livro, que alguém datilografou para mim, foi lido por Lygia Fagundes Telles e pelo poeta Paulo Bomfim, que incentivaram sua publicação. Eu nem sabia ao certo o significado disso tudo. O que sei é que trabalhei de graça quase um ano inteiro numa revista de São Paulo chamada “Portugal Ilustrado”, para que me publicassem o livro. E “Noturno-Maior” foi publicado, com notícias no então Diário de São Paulo. A Livraria Marconi, no centro velho de São Paulo, encheu de gente. E eu não compreendia nada. Naquela época eu já desenhava e fiz um grande retrato de Chopin, a lápis e nanquim, para minha amiga estudante de piano. Fiquei orgulhoso: ela fez um quadro e colocou na parede, bem acima de seu piano. Quanto a dançar tangos e milongas representando todas as despedidas, digo que estou dançando a vida inteira e me despedindo de tudo a toda hora.

 

P. As relações com que você descreve nestes poemas quase sempre levam à morte, ao esquecimento, ao nada. As relações humanas são assim?

 

AAF — Não, as relações humanas não são assim. Estamos falando de poesia, em que o poeta cria seu universo e navega por ele observando as coisas. Esse desfecho com morte talvez seja um desejo de encerrar o poema, apenas isso. Ocorre quando o poema já disse tudo. E essa morte, esse esquecimento a que você se refere podem ser compreendidos como ironia também. Aliás, não dá para enfrentar sem ironia um mundo como este que vivemos. No caso que você aponta, é minha maneira de escrever meus poemas. E no final, tudo é nada mesmo.

 

P. Há alguns poemas que revelam relações com camponesas, muito perto da natureza, da vida na aldeia e no campo. Esse mundo natural leva a viver com mais tranquilidade?

 

AAF — De alguma maneira já respondi a essa pergunta. Só acrescento que a Idade Média é apaixonante, para mim. E sempre que penso em algo medieval, vem-me à cabeça a imagem de um camponês. Eu já vivi numa aldeia em outras vidas. E trago isso dentro de mim. Trago dentro de mim imagens de reis, rainhas, princesas, essas coisas. Isso tudo me apaixona. E, apaixonado, sempre que posso exploro todo esse mundo na minha poesia. Sou um poeta medieval. Estou vivendo no mundo errado.

 

P. E a sua mulher interior. Se ela o abandonar, seu espírito ficará vazio. O que poderia preencher esse vazio, esse nada?

 

AAF — Essa mulher que vive dentro de mim se manifestou já há alguns anos. Sempre existiu, na verdade. E muitas vezes se manifestava de maneira ruidosa, quando eu estava escrevendo, poesia ou prosa. É uma força incrível. Até que deixei que essa mulher passasse a atuar comigo. Afinal, é uma mulher que existe dentro de mim. Minha alma é feminina. Meu olhar é feminino. Vejo as coisas de outra maneira. Tanto que no ano passado publiquei em Coimbra o livro “47 poemas femininos” e isso vai continuar. Decidi dar a palavra a essa mulher que sou eu interiormente. Acredito que esse é o caminho de todo poeta que leva a poesia a sério, que seja mesmo poeta. Com o passar dos anos, a linguagem poética vai mudando e, no meu caso, passou a ser uma voz feminina. Por que haverei de negá-la? Nunca farei isso. Se os poemas nascem com esse tom feminino, que sejam assim. São assim. E depois admiro profundamente a poesia escrita por mulher. Assim sendo, essa mulher que vive dentro de mim haverá ter sua vida cultivada por minha poesia. E ela é minha alma. Como diz Gilberto Gil na canção “Super-homem”, essa mulher interior é a porção melhor que tenho na vida. Convivemos bem. Creio que seremos felizes para sempre.

 

P. Fugindo agora de perguntas sobre “Mulheres de São Petersburgo”, sei que se incomoda quando dizem que você é, atualmente, considerado um dos mais importantes poetas vivos do Brasil. Você evita falar sobre isso. Por que?

 

AAF — Evito, sim, porque, antes de tudo, sei o meio em que vivo no Brasil. Não é um meio bom, infelizmente. Parece uma competição. E depois, tenho minha vida marcada pela defesa da poesia brasileira de maneira incisiva, como crítico e como poeta. Poesia, para mim, sempre foi militância. Sei que esse reconhecimento à minha obra poética incomoda a muita gente. Incomoda mesmo. Mas deixa, também, muita gente feliz. Esses prêmios que a mim foram oferecidos sem que eu os pedisse foram merecidos. Não sou hipócrita. Para deixar alguns furiosos, digo com todas as letras que eu mereci. E agradeço. Sou poeta, só isso. Não sou e nunca fui um aventureiro e detesto política literária.

 

P. E a poesia brasileira, como está?

 

AAF — Com toda sinceridade, desculpe-me, não quero responder a essa pergunta. Explico: não generalizando, não gosto de falar desse universo sombrio. Os bons poetas brasileiros estão esquecidos e chegam a ser ignorados por um bando que não merece qualquer consideração. Pelo menos de minha parte.

 

*Poeta, professora e tradutora

Licenciada em Filologia Hispânica e Filologia Portuguesa

Salamanca, Espanha