Álvaro

Alves
de Faria

O USO DO PUNHAL

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   Para William Empson (Seven types of ambiguity), a consciência do poeta moderno é palco do interminável embate entre contrários que se atraem e se repelem: a poesia é o reduto definitivo da ambiguidade. O uso do punhal, de Álvaro Alves de Faria, se prestaria admiravelmente a que o crítico norte-americano reforçasse a sua tese, incluindo o poeta brasileiro no seleto grupo formado por Walt Whitman, William C. Williams, W. Stevens, T. S. Eliot e outros. De um lado, o horror de continuar vivo (“devia ter-me matado aos 37 anos”), a arrastar pelas ruas uma existência vazia de sentido; de outro, a gloriosa afirmação da vida plena: “com minha bicicleta voadora / atravesso as nuvens cheias de chuva / e pedalo de encontro ao infinito / ... / com minha bicicleta voadora / sou herói de mim mesmo”. Quanto mais dramática é a cólera com que o poeta se pune, mais diáfana é a ternura com que se autoabsolve – como ao
voltar das ruas com “o bolso cheio de estrelas, / ... / às vezes algumas luas nas mãos”. O enternecimento redentor brota da cólera exacerbada: um não existiria sem o outro. Ao falar de suas mulheres, ele não hesita: “hoje vivo com as duas, / entre o céu das putas / e o inferno das santas”. O poeta sabe que, sendo uma só, a mulher “tem duas vidas: / a que vive e adormece / e a que, adormecida, / na sua alma a vida tece”. No rasto da insuportável ambiguidade, a certeza de que “três golpes do lado esquerdo / bastam para pôr fim a tudo: / depois é só viver a eternidade” – ou seja, viver a poesia que daí se origina.

Carlos Felipe Moisés

Lançamento

Fotos de Carmen Barreto e José Anito

estado de minas

"Não há espaço para poetas de verdade"

Escritor paulista está desiludido com o Brasil e assume identidade literária portuguesa

Carlos Herculano Lopes - EM Cultura - Publicação:15/02/2014 00:13

alvaro materia

"Os medíocres estão sempre amparados por uma mídia cultural que não tem compromisso com nada", diz Álvaro Alves de Faria

Poeta contestador, considerado um dos mais importantes da sua geração, que ficou nacionalmente conhecido nos anos 1960, a partir de São Paulo, Álvaro Alves de Faria, hoje aos 72 anos, continua na ativa. Voltado para a poesia portuguesa, por considerar a produção contemporânea do Brasil uma decepção, ele acaba de lançar O uso do punhal pela Escrituras Editora. A publicação coincide com o lançamento na Espanha de Cartas de abril para Júlia, segundo ele uma novela escrita com a linguagem portuguesa, mas que em alguns momentos entra na linguagem literária de Cervantes. Também sociólogo e jornalista, profissão que continua exercendo em São Paulo, onde nasceu, Álvaro Faria já publicou mais de 50 livros. Sem perder jamais a marca política de sua geração. “Sempre fui um poeta contestador”, reforça Álvaro Faria em entrevista ao Pensar.

Como era fazer poesia nos anos 1960, com recitais nas ruas de São Paulo, prisão pelos agentes da repressão, contestação ao governo? O poeta era mais participativo?
Os anos 1960 foram de efervescência cultural em São Paulo. Todos tínhamos 20 anos. Éramos um grupo de jovens poetas saídos da adolescência que se reuniu em torno do editor Massao Ohno, que publicou a famosa Antologia dos novíssimos, em 1961, da qual faço parte. Dos nomes reunidos nessa antologia, restaram poucos que levaram a poesia adiante. No que diz respeito à poesia de contestação, eu, particularmente, sempre escrevi nesse tom, até porque comecei a participar de grupos clandestinos que se formaram depois de 1964. Em 1965 lancei O sermão do viaduto, que nem sei quantas edições tem. O livro foi lançado em pleno Viaduto do Chá, então cartão-postal de São Paulo. Foi o início do movimento de recitais públicos. O evento reuniu praticamente todos os jovens poetas da época. Depois fiz nove recitais sozinho no viaduto e fui preso cinco vezes pelo Dops, como subversivo. Em 1966, os recitais foram proibidos definitivamente. Voltei a ser preso em 1969, por desenhar os cartazes do então clandestino Partido Socialista Brasileiro. A produção dos anos 60 teve, sim, um papel relevante na poesia brasileira. Pelo menos contrastou com essa inutilidade da chamada poesia concreta, que estava em moda na época. Todo imbecil era poeta concreto. Eu e Carlos Felipe Moisés organizamos uma antologia sobre a Geração 60, em 2000, comemorando os 40 anos dessa época. Muitos livros têm saído sobre os poetas daquela geração. Eu destaco o recente Anos 60, de Pedro Lyra, lançado em 2011.

Além de poeta, você é sociólogo e jornalista. Como foi conciliar essas profissões durante esse tempo?
Comecei no jornalismo aos 16 anos, como contínuo do extinto Correio Paulistano. Com 17 já estava escrevendo. Foi quando conheci vários poetas que escreviam para o jornal. Trabalhava e estudava. Primeiro ciências sociais, depois literatura e língua portuguesa e, bem mais tarde, fiz mestrado em comunicação social. Ocupei vários cargos nos jornais pelos quais passei. Mas sempre me dediquei à área cultural, especialmente em defesa do livro e autores brasileiros, trabalho reconhecido com dois Jabutis, em 1976 e 1983, e três prêmios especiais da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1981, 1988 e 1989. Não era fácil conciliar tudo isso, porque tinha ainda a vida clandestina, a subversão e seus perigos o tempo todo. Não era fácil, mas era preciso.

Você sempre foi um poeta combativo, avesso às regras. Existe espaço atualmente para escritores como você, que ainda pensam em mudar a realidade?
Acredito que não existe espaço para poeta nenhum. Quer dizer, poeta mesmo, de verdade. Os medíocres, não. Esses estão sempre amparados por uma mídia cultural que não tem compromisso com nada. Sempre fui, sim, contestador, até porque vivia isso, na vida dupla. Seja como for, é preciso arrancar esse espaço de algum lugar. Peço licença para citar meu novo livro, O uso do punhal. Basta ler os poemas para sentir a grande decepção com tudo. Hoje, diante de meu espelho, olhando bem para mim, me pergunto: “Então, foi para isto?”. Com toda a sinceridade, sem jamais ser arrogante, considero-me um caso à parte. Mas sempre houve amigos poetas mais diletos com quem se podia conversar seriamente, sem pensar em manobras que sempre existiram e hoje existem de maneira vergonhosa. No Brasil existe manobra para tudo, até na área da poesia.

É por isso que há 15 anos você se dedica à poesia portuguesa? A poesia brasileira decepciona você?
A poesia brasileira atual é uma grande decepção. Será sempre necessário dizer que não generalizo. O Brasil tem excelentes poetas, mesmo entre os novos. Mas os rumos impostos pela mídia chamada “cultural” são lamentáveis. Essa mídia enaltece uma “poesia” sem consistência nenhuma, um amontoado de coisas inúteis que tem coragem de chamar de poesia. É de uma irresponsabilidade espantosa. Chega a ser inacreditável, mesmo num país medíocre e vagabundo como este em que estamos todos metidos, que se notabilizou mais profundamente nos últimos anos. Fugi para Portugal. E isso ocorreu depois que fui representar o Brasil no 3º Congresso Internacional de Poetas, na Universidade de Coimbra. Fui o poeta que mais se destacou no evento, dizendo poemas para dezenas de poetas de várias partes do mundo que não entendiam uma única palavra em português, mas que aplaudiram de pé por causa do ritmo do poema, da melodia do poema. Não estou fazendo discurso em causa própria. Isso está escrito no prefácio de Graça Capinha para o primeiro livro que publiquei em Portugal, 20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra. Senti que minha vida estava lá, estava lá a minha poesia, a poesia por que eu tanto ansiava. Sou filho de portugueses. Toda a minha família é de Portugal. Sou o único brasileiro da família. Já são 13 livros publicados lá, 12 de poesia e uma novela, fora os eventos dos quais participo. Lá sou chamado de poeta luso-brasileiro. Foi a melhor coisa que fiz em minha vida em favor de minha poesia. Em favor da minha vida.

Você está seguindo para a Espanha, onde lançará Cartas de abril para Júlia. É também um livro recente?
Ele foi publicado pela primeira vez em Portugal, em duas edições, em 2001. Também saiu no Brasil, e agora será na Espanha, com tradução da poeta Montserrat Villar Gonzáles. É uma novela com a linguagem da literatura portuguesa, mas que, em muitos momentos, entra naquela paisagem literária dos tempos de Cervantes. Em 2007, fui convidado para participar do 10º Encontro de Poetas Ibero-americanos, em Salamanca, dedicado ao Brasil. Fui o poeta homenageado. Recebi a chave da cidade e tive publicada uma antologia de 370 páginas, com tradução do poeta Alfredo Perez Alencart, da Universidade de Salamanca. Ele também traduziu Alma afligida, de 2013, também publicado na Espanha, livro que saiu no mesmo ano em Portugal com o título Almaflita.

Afinal de contas, você se sente mais brasileiro ou português?
Diante do que vejo atualmente no Brasil, não apenas na poesia, mas em quase tudo, me considero um poeta português, o que, cá entre nós, não tem significado nenhum, importância absolutamente nenhuma. Sinto orgulho do que escreveu sobre mim o poeta Affonso Romano de Sant’Anna: “Álvaro Alves de Faria, pelo seu lirismo, talvez seja o mais português dos poetas brasileiros”.

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