Pastores de Virgílio

Álvaro

Alves
de Faria

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O nome “Pastores de Virgílio” foi tirado de um poema de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), do livro “O Guardador de Rebanhos”, que reproduzi:

Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois – eu nunca li Virgílio,
para que o havia de ler?)

Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga.

Alberto Caeiro

(Poema XII de “O Guardador de Rebanhos”)

***

“Pastores de Virgílio” também presta uma homenagem ao poeta pernambucano Alberto da Cunha Lima que, infelizmente, não conseguiu conceder-me a entrevista que eu desejava fazer para o livro. Deu-me, por sua mulher Cláudia Cordeiro, um poema chamado “Casa Vazia”, explicando que era tudo que ele me falaria. O poema é o seguinte:

  CASA VAZIA

Poema nenhum, nunca mais
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos,
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas,
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.
***

A introdução que escrevi para “Pastores de Virgílio” é uma reafirmação de tudo que tenho declarado em relação à literatura brasileira e, especialmente, à produção de poesia no Brasil. Quis fazer deste livro, a exemplo de “Palavra de Mulher”, mais um documento literário brasileiro, um debate dentro de um livro, quase sempre as mesmas perguntas com respostas várias.

***

Introdução

Sou um poeta amargo em relação à poesia produzida neste país atualmente. O Brasil é um país caindo aos pedaços. O Brasil é um país sem sorte. Essa melancolia atinge praticamente todos os setores da vida brasileira. A literatura não ficaria fora disso, incluindo especialmente a poesia metida num cenário lastimável, descontando, sempre, as exceções, que existem. Será sempre necessário fazer essa ressalva. Mas no geral, o cenário é deprimente, envolvendo a crítica – se é que ela existe – e a chamada mídia cultural que, em grande parte, prima pela desonestidade num caminho sem volta.

A poesia brasileira chegou ao marketing. A ordem é ser poeta marqueteiro. A ordem é ser tecnocrata da poesia e do poema. Tecnocrata da literatura. Está bem condizente com este país que pensa ser do primeiro mundo mas que, em muitos aspectos, pertence ao quinto mundo, com muito favor.

Este é o país dos discursos. A poesia brasileira também vive de discursos.

Ao falar sobre isso certa vez na Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal, percebi um certo espanto entre as pessoas. Especialmente quando disse – e repito agora – que no que diz respeito à informação cultural, há muita gente sórdida nesse meio tantas vezes nefasto, leviano e mentiroso, que não tem nenhum compromisso com a cultura do país. A ordem neste país infeliz é enaltecer a mediocridade, produções que não resistem uma crítica séria. O que mais se vê, atualmente, é uma discussão interminável e inconseqüente de obras sofríveis na poesia e na prosa, sem nenhuma consistência literária.

Bem diz o poeta Roberto Piva: “Só aceito um poeta experimental que tenha vida experimental. Não tenho nenhum patrono no “Posto” nem leões-de-chácara e guarda-costas literários nas redações de jornais e revistas. Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia brasileira, com seus autores-burocratas tentanto restaurar a Ordem/.../”.

Será sempre preciso não generalizar. Até porque, a bem da verdade, existem poetas honesto no trabalho de elaborar uma obra séria para o homem e que sirva à vida e à própria poesia.

No Brasil, este é um tempo desolador, que transforma compositores de música popular em poetas grandiosos. Um deboche.

Os tecnocratas da poesia no Brasil querem a morte da palavra.
Os tecnocratas da poesia querem a morte do poema.
Os tecnocratas do poema querem a morte da poesia.

O cenário é sombrio. A mídia serve quase que exclusivamente aos delinquentes da poesia que detêm o poder inclusive nas universidades, com uma produção de poemas que não podem ser chamados de poemas. Isso implica, também, num comportamento marcado principalmente por autoritarismo.

Não se trata de uma questão ideológica. Se fosse, até justificaria essa postura, mesmo que antidemocrática, dos senhores donos de praticamente todos os espaços. É a confraria da auto-louvação.

Num evento na Universidade do Porto, em Portugal, em 2000, nas comemorações dos 500 Anos do Descobrimento, fiz uma entrevista com o poeta Ferreira Gullar, discutindo esse assunto. Gullar mostrou-se indignado. Disse-me estar farto de ler, por exemplo, textos sobre Baudelaire escritos por quem jamais leu um único verso de Baudelaire. Para ele, tal ignorância e essa leviandade são uma característica de nossa época.

Falou-me sobre a poesia concreta: “O grande erro da poesia concreta – e me confesso culpado por haver sido autor daquela proposta – foi acreditar que se poderia fazer poesia sem discurso, quando a linguagem verbal é, por natureza, discursiva: sujeito, verbo e objetivo. A palavra, para existir, implica vida, vivência, convivência. Essa é a palavra do poeta. A poesia só existe quando nasce de um acontecimento existencial. Se não for assim, não interessa. E então silencio. Os melhores poemas são os que nascem da vida, são os poemas que a vida engendra”.

Recorro ao poeta Affonso Romano de Sant´Anna. Ele observa que o concretismo pauta pelo triunfalismo. A cada dia, os donos dos movimentos ficam mais eruditos. Mas não se tornam sábios. Um deles, certa vez, afirmou num delírio: “Os artistas concretos dos anos 50 fizeram mais pela liberdade do Brasil do que todos os nossos governantes juntos da era atual”. Affonso acentua: “Como seria útil não só para os concretistas, mas para a poesia brasileira, se além de eruditos fossem também sábios. Mas eles nunca erram. Nunca errarão. E isso é desolador”.

Num ensaio que escreveu para meu livro “Os Rouxinóis dos Beirais”, sobre a antologia de poesia brasileira contemporânea que organizei e que foi publicada em Portugal, o poeta Alexei Bueno observa que se boa parte da poesia brasileira produzida fora do eixo Rio-São Paulo – faixa industrializada que consome mais de 70 por cento da produção editorial do país – sofre, a despeito de nomes de altíssima qualidade, de uma espécie de bloqueio, um ostracismo injusto em relação a esse território, podemos dizer que a poesia paulista sofre muito mais do que a do Rio de Janeiro, de um bloqueio interno de quase meio século, o bloqueio causado pelas decrépitas vanguardas da década de 50, especialmente o famigerado Concretismo, que sempre se organizou como uma espécie de seita ou máfia, ignorando simplesmente a existência de todos os que não rezam por seu catecismo miserável, tomando as redações de jornais e as universidades e, se possível, demitindo e desempregando.

Alexei Bueno lembra que no Brasil houve fato semelhante no período do Parnasianismo/Neoparnasianismo, daquela vez contra os simbolistas, o maior dos quais, Cruz e Souza, acabou por morrer de fome, com a mulher e os quatro filhos. “Como costumo dizer – observa Alexei – domina na poesia brasileira o “fetichismo da objetividade” e se o Parnasianismo foi o Concretismo da República Positivista, o Concretismo foi o Panasianismo da ditadura militar. Os primeiros se acoitaram na Academia Brasileira de Letras, os segundos nas universidades. No Rio de Janeiro, onde ninguém consegue ser tão sério e perseverante na estupidez, foram inventadas outras brincadeiras, longamente acalentadas por professorinhas com alfabetização precária”.

Na verdade, este é um país de muitos poetas e pouca poesia.
O que vale mesmo é a política literária.

Como disse no início desta introdução, sou um poeta amargo em relação à poesia produzida atualmente neste pobre país. Quando decidi partir para Portugal em busca de um ar respirável, dei algumas entrevistas na qual ressaltei essa decisão, explicando que fui buscar na poesia portuguesa o que me falta aqui na poesia brasileira. Fui buscar na poesia portuguesa o que me falta aqui, incluindo nisso até mesmo o relacionamento entre as pessoas. Cansei de tanta leviandade. Em certo momento é preciso mesmo se fechar no quarto e apagar a luz. Trancar as janelas. Incendiar a casa. É preciso se salvar.

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