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Entrevistas

UM PESCADOR DE PALAVRAS

Ronaldo Cagiano, de Brasília

Álvaro Alves de Faria comenta o reconhecimento de sua obra em Portugal e diz não mais se considerar um poeta brasileiro

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“A poesia não morreu, embora seja, todos os dias, assassinada pelos facínoras amparados pela mídia sem compromisso”

“Nada tenho contra os best sellers, acho até que muitos de seus autores têm talento para escrever. Sou contra o lixo”

“Poderia fugir para o inferno, que talvez fosse melhor do que estar aqui. Minha transgressão é comigo mesmo”

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Embora essencialmente poeta, em mais de 40 anos de vida literária Álvaro Alves de Faria transita por todas as linguagens. Com mais de 20 livros de poesia, compõe sua bibliografia uma ficção igualmente representativa, compreendendo contos, crônicas, novelas, teatro, entrevistas e crítica literária. Integrante de uma geração que na década de 1960 uniu a palavra à luta política, sem desviar-se para o panfletarismo ou a apologia ideológica, usou a linguagem como aliada e como espaço de reflexão crítica sobre o momento político que o Brasil atravessava. Com O sermão do viaduto, promoveu declamações no Viaduto do Chá, o que valeu lhe algumas prisões. De lá para cá, sua trajetória vem contabilizando prêmios importantes — entre eles, duas vezes, o Jabuti. Atualmente, colhe os frutos de uma profunda relação com a literatura e a intelectualidade portuguesas. Nos últimos seis anos, tem palestrado e participado de encontros em Portugal, onde seus livros vêm sendo cortejados por diversos editores e críticos lusitanos.
Lá, o poeta acaba de lançar mais um livro de poesia: Sete anos de pastor, obra que marca novo retorno às suas origens genéticas e culturais, entendido como uma necessidade de mediação entre as duas culturas e de (re)conhecimento de uma ancestralidade. Essa busca da poesia que não há mais no Brasil também é sintoma de sua desilusão com a banalização não só da poesia, mas de parte da literatura que hoje se faz aqui. Nesses poemas, Álvaro mantém-se fiel a um ofício que prestigia a arte da linguagem e renuncia às tentações de uma poesia muito em voga, contaminada por modismos pretensamente inovadores e que, na verdade, redundam nas obviedades. Álvaro pesca palavras com a emoção dos grandes mergulhos, com a angústia e a reflexão que precedem toda criação. Poeta ligado ao modernismo, sua arte é resultado de um processo meticuloso que dialoga permanentemente com outras vertentes tradicionais, sem perder sua identidade ou desprezar o lirismo e o sopro humanista. Respaldado por um senso de responsabilidade estética que valoriza a palavra — em lugar de desmontá-la para ceder às tentações de faltas rupturas —, Álvaro expõe suas inquietações na maneira com que reflete a problemática existencial e caminha para a busca do apaziguamento.

A edição portuguesa de seu Sete anos de pastor consolida sua presença literária naquele país. A boa poesia perdeu espaço no Brasil ou você sentiu a necessidade de uma retomada da ancestralidade?

A saída é Portugal. Pelo menos para mim. Mas não me consolido em nada. Sou apenas um poeta que publica livros em Portugal. Tenho lá um pequeno punhado de amigos que me lêem. Como já afirmei uma vez, uns 19 leitores. Diante de atual e assustadora mediocridade brasileira na área da poesia — e isso também já alcançou a prosa — estou fugindo. Quero distância. É preciso sempre ressaltar que existem exceções. Não quero nem posso generalizar. Ainda me resta o bom senso. Mas o que vem ocorrendo na poesia brasileira é de doer na alma. Tudo amparado por uma mídia dita cultural que causa náuseas. Fugi. Graças a Deus, não me considero mais um poeta brasileiro, o que, também não vai alterar em nada a ordem das coisas. A questão da ancestralidade também existe. Vou a Portugal em busca da poesia e de mim mesmo. Mas o que me cerca é um duro e profundo desencanto neste país em que vivo. Vou a Portugal buscar a poesia que me falta aqui.
 
Quando começou sua trajetória em Portugal? Quando você deixou de ser um poeta brasileiro?

Começou em 1998, quando fui convidado a participar do Terceiro Encontro Internacional de Poetas, na Universidade de Coimbra. Fui o poeta mais discutido do evento. Comecei então a publicar meus livros lá. Em 1999 publiquei Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra. Em 2000, troquei um livro meu, pessoal, em favor de uma Antologia de poesia brasileira, que organizei dentro das comemorações dos 500 anos do Descobrimento. Em 2002, publiquei Poemas portugueses, e, agora, Sete anos de pastor. Depois fui a Idanha-A-Nova, para os 800 anos da cidade. Participei, então, de uma leitura de poemas ao lado dos poetas Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Ana Luísa Amaral. Meus poemas também estão em pelo menos dez antologias publicadas em Portugal. Devo tudo à generosidade da escritora e ensaísta Graça Capinha, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

E sua nova safra poética? Nota-se em seu percurso criativo que você não faz concessões a modismos. Embora não seja um poeta canônico, você promove um diálogo entre o tradicional e o moderno sem se deixar seduzir por certas vanguardas. O concretismo, por exemplo, transformou-se numa entidade supraliterária na visão dos que acreditam estar ali a verdadeira e única renovação.

Sua pergunta já é uma análise inteligente. Nego-me a falar sobre o concretismo. Não me interessa. Utilizo as palavras de meu amigo Roberto Piva: “Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”. Meu amigo Alexei Bueno definiu bem o que penso, quando escreveu um texto para um ensaio meu chamado Os rouxinóis dos beirais. Alexei escreveu: “Domina na poesia brasileira o ‘fetichismo da objetividade’, e se o Parnasianismo foi o Concretismo da República Positivista, o Concretismo foi o Parnasianismo da ditadura militar. Os primeiros se acoitaram na Academia Brasileira de Letras, os segundos nas universidades”. Não faço concessões a modismo nenhum, também não busco vanguarda alguma. Isso ficava bem nos anos 50, início dos 60. Ruptura com o quê? A grande ruptura hoje é ser poeta. E gostaria de ser poeta no meu país. Já que não é possível, fujo para Portugal. Poderia também fugir para o inferno, que talvez fosse melhor que estar aqui. Minha transgressão é comigo mesmo. Isso me basta.

Alexei Bueno divulgou recentemente uma carta-manifesto em que relativizava o valor de certas sumidades literárias, desbancava a unanimidade em torno das igrejinhas estéticas e questionava certas picaretagens e a mistificações. Você concorda?

Concordo com tudo. Eu e Alexei já tivemos boas conversas sobre isso. Não dá mais para conviver com o que ocorre aqui. As tais “sumidades literárias” representam, na verdade, um constrangimento para os que ainda conseguem pensar. Mas quem tem culpa dessa indecência são os suplementos culturais deste país, feitos com um jornalismo mentiroso e medíocre. Novamente lembro as ressalvas, exceções que não preciso enumerar.

Escritor multifacético, você mapeia todos os territórios: da poesia ao teatro, da crônica ao romance, do conto ao ensaio e às entrevistas, merecendo prêmios e elogios da crítica. Qual desses gêneros é o seu eleito?

Os prêmios, de fato, são muitos. Mas, sinceramente, isso não me diz mais respeito. Até como crítico recebi por duas vezes o Jabuti. Mas tudo isso é tão distante de mim, que nem sei ao certo se de fato ocorreu. É verdade que praticamente publiquei todos os gêneros literários, incluindo aí duas peças de teatro acidentais, uma delas sobre a vida do poeta brasileiro universal Augusto dos Anjos. A outra, Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo, ganhou o Prêmio Anchieta de Teatro, um dos mais importantes dos anos 70. Depois, ficou seis anos proibida. Sou o único da Geração 60 de poetas a partir para outros gêneros literários. Mas sou fundamentalmente poeta, um poeta que também escreveu alguns romances, algum livro de crônica, algum ensaio literário. Escrevo e luto pela poesia. Admiro os poetas brasileiros que não se deixaram contaminar pela leviandade reinante no país da mentira.

Para Pessoa, “a literatura, como toda a arte, é a confissão de que a vida não basta”. Alphonsus de Guimaraens Filho pergunta: “Se não for pela poesia, como crer na eternidade?”. Você acredita que a literatura tem um papel social e político e pode ajudar o homem a mudar a si e ao mundo?

Acredito. Mas para isso o poeta e o escritor não precisam ser guerrilheiros. Acredito que a vida é também um ato político. Nisso se inclui a literatura. A respiração é uma ação política. A religião é política. Esta entrevista é política. Não dá para fugir disso. Especialmente vivendo no país da mentira que envolve praticamente todos os setores. Não sei se a vida não basta. Já acreditar na eternidade por meio da poesia é um assunto que foge da discussão literária. Também tenho meu lado místico. Quando tinha 20 anos e dizia poemas no Viaduto do Chá, O sermão do viaduto — que me rendeu cinco prisões pelo Dops —, acreditava piamente que a poesia podia salvar o mundo. Hoje não acredito mais. Mas acho que a poesia pode ajudar o homem a viver. Isso, no entanto, pertence a uma outra área, que até invade a intimidade espiritual, e que não está em discussão.

Escrever um poema é fazer “como quem mergulha no mar/para morrer”? Qual o saldo desse embate?

Sim. O mar, no caso, tem tudo a ver com a linguagem da poesia portuguesa, quanto às suas imagens marcantes. Em Sete anos..., fui buscar a poesia no soneto famoso de Camões, que me deu o título do livro e é uma de suas divisões, Para tão longo amor tão curta a vida. Busquei a figura do pastor nesse soneto, na figura do pastor nos Autos de Gil Vicente e, por fim, em O guardador de rebanhos, de Fernando Pessoa. O saldo do embate é um livro do qual me orgulho, me orgulho muito, porque fui lá no fundo de mim buscar as palavras necessárias para construir minha obra, no fundo da poesia portuguesa, no fundo de Portugal, onde a poesia é coisa de se levar a sério, sem as leviandades que me nego a aceitar.

Vivemos o tempo da globalização, fetichizado pelo deus mercado, impondo-nos um escalonamento de valores e a urgência da competitividade como termômetro de excelência. Hoje, livros de Hilda Hilst, Orides Fontela e Samuel Rawet ou o Prêmio Camões de Lygia Fagundes Telles pouca atenção merecem da imprensa. A poesia morreu?

Não morrerá nunca. Aliás, em Sete anos..., esse assunto mereceu um longo poema que termina assim: “...tudo é inútil no poema que se invente/a poesia finalmente morreu:/os poemas juram, os poetas mentem”. Todos matamos Hilda Hilst e Orides Fontela. Mas a poesia não morreu, embora seja assassinada todos os dias por facínoras amparados pela mídia sem compromisso. Até acredito que sempre haverá lugar para a poesia, desde que seja boa poesia, escrita com a vida. Pena que eu tenha me deixado abater. Tenho consciência disso e lamento por mim mesmo. Antes de viajar para Portugal, dei uma entrevista ao poeta Floriano Martins, de Fortaleza, para a revista Agulha, na qual disse que estava fugindo em busca da poesia que me falta no Brasil. Algumas pessoas criticaram. Eu tinha uma entrevista marcada com um grande jornal brasileiro, assim que regressasse. Mas por causa dessa matéria com o Floriano Martins a entrevista foi suspensa. Alguém no suplemento se sentiu atingido. Confesso que fiquei triste. Foi mais uma vitória da mediocridade. Repito aqui o que declarei antes: quero distância de muita gente. Meu querido amigo Floriano Martins teme que eu seja visto como uma pessoa ressentida. Mas sou ressentido mesmo. Só quero utilizar a palavra indignação. Sou uma pessoa indignada.
 
O crítico Cassiano Nunes não cansa de se opor à invasão dos best sellers e do lixo literário estrangeiro. Afirma que querem dar cultura ao povo nivelando-a por baixo, e que nas redações não há mais escritores ou jornalistas fazendo crítica, mas comunicólogos de carteirinha. Como você reage a uma literatura de mercado? Que avaliação faz da crítica hoje no Brasil?

Isso tudo tem total amparo no tal jornalismo cultural brasileiro. Mas, com toda sinceridade, nada tenho contra os best sellers, acho até que muitos de seus autores têm talento para escrever. Sou contra o lixo. Especialmente o lixo em relação à poesia. Esse lixo produzido no Brasil atualmente. Na verdade, hoje o Brasil nivela tudo por baixo. A inversão de valores é criminosa. Quanto à crítica, nem sei o que dizer. Há um pequeno número de críticos bem-intencionados que até entende desse ofício de escrever. Mas sou cético. O que existe de fato são os favores da camarilha, da corja. Um jogando confete no outro. É absolutamente nojento. Para mim, chega.

Rascunho. Curitiba, Paraná, junho, 2005

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