Álvaro

Alves
de Faria

Ilust12

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Poemas - parte 3

e quando me torno bárbaro
na verdade me enterneço

preciso dos meus cuidados
mas em mim me desguarneço

sei que a dor me mata aos poucos
mas com ela me envaideço

brilha-me o sol à janela
mas só a treva enalteço

no espelho em que me vejo
nada em mim me reconheço

falam-me os provérbios sábios
mas com eles ensurdeço

quando penso em nascer
sinto mais que envelheço

e quando me penso lúcido
muito mais me enlouqueço

quanto mais chega a manhã
mais em sombras anoiteço

quanto mais me desfiguro
mais comigo me pareço.

De “A memória do pai”. Coimbra, Portugal, 2006

Ilust12345

Porque calais em mim tamanho pranto,
deixo que morra aqui vosso destino,
marca-me o ferimento em vosso espanto,
o que me aguarda em vós, por desatino.

Já sabereis, Inês, em vosso encanto,
o que da vida a fúria que previno
ao vos guardar em mim, mas sei, no entanto,
que esta dor vai além do que imagino.

Morta em silêncio, Inês, assim perdida,
vós rainha que sois no encantamento
que sempre tive em mim por vossa vida.
 
Em vossa morte, Inês, em desencanto,
a voz que some e grita meu lamento
na dor que guardo agora como um manto.

De “Inês”, Coimbra, 2007

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