Poeta

Álvaro

Alves

de Faria

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47 POEMAS FEMININOS EM PORTUGAL

FOTOS DE ANADIA

POETA AUTÊNTICO

 

Inês Pedrosa

 

Aquilo a que chamamos poesia consiste na perigosíssima actividade de descer às grutas mais escuras da alma para lhe sangrar os fantasmas. Há pouquíssimos poetas autênticos no mundo – e Álvaro Alves de Faria é um deles. Trabalha nesse gume extremo da sabedoria onde as palavras são reconduzidas ao indizível que as gerou, e onde já não se escuta a diferença entre sangrar e sagrar.

 

Estes seus Poemas Femininos mostram-nos que o sexo pode definir um destino mas não determina uma identidade, como provou Virginia Wolf através do romance de Orlando, homem que se faz mulher sem deixar de ser a pessoa que é. Não por acaso evoco um grande romance ao convocar os leitores para a leitura desta colectânea de poemas – cada um destes poemas nos apresenta uma personagem feminina singular e universal,um capítulo dessa História Feminina do Mundo feita de ousadia e submissão, amor, solidão, fúria e liberdade. Num dos poemas diz-se expressamente que «a poesia é feminina» - sim, feminina desde a palavra inaugural porque nasceu na sombra, lúcida quanto à cegueira provocada pelo sol esmagador do mundo masculino, continuamente desfeito pela profusão desvairada dos seus próprios feitos.

 

Álvaro Alves de Faria criou um território vocabular intensamente seu e profundamente contagiante: uma voz. Uma voz fluente e poderosa que se desdobra numa multidão de figuras, de um modo só aparentemente simples: não há desespero ou júbilo humano que escape ao cintilante rio dos seus versos, um rio largo que comporta toda a terra, toda a água, todas as sobras e todos os sonhos das nossas vidas.

 

A sua sintaxe é límpida como o cântaro que a Leonor de Camões transportava pela verdura; o seu universo é mais decantado do que desencantado – a tristeza voa como um puro pássaro, transmutando-se em alegria perante o rigor de cada palavra: o Verbo iluminado reacende o mundo.

Meus amigos, quero agradecer essa amabilidade, essa demonstração de afeto para um poeta brasileiro que no fundo tem Portugal no coração.

 

Agradecimento especial ao poeta Hugo Amaral que tão bem fez a apresentação deste meu livro “47 poemas femininos”.

 

Agradecimento aos amigos que aqui estão presentes, como a professora e ensaísta Graça Capinha, que me trouxe para cá

 

Minha amiga poeta Leocádia Regalo

 

Meu editor sempre presente, Jorge Fragoso

 

*

 

Falar sobre esse assunto no Brasil hoje é proibido.

O novo governo não permite.

Trata-se da questão de gêneros humanos.

Essas pessoas se negam a compreender que as pessoas são como são, as pessoas não se inventam. As pessoas são pessoas.

 

Faz algum tempo escrevi um pequeno poema para um livro especial em que estou trabalhando faz já três anos.

 

É assim:

 

O mundo

está cheio de pessoas,

repleto de pessoas,

mas falta gente.

 

Pessoa

é diferente,

nem sempre

pessoa

é gente.

 

Pessoa

vive a vida,

mas não sente.

 

Tem gente

que não é pessoa,

é diferente.

 

Gente chora

por ser gente,

pessoa

prática mente.

 

Seja como for, a vida pertence às pessoas, as pessoas mandam e desmandam. Especialmente as pessoas práticas. As que tem o poder nas mãos.

E no Brasil hoje o que não falta é pessoa prática.

De forma que as pessoas práticas proibiram falar sobre este assunto no Brasil.

 

No Brasil é assim: a gente consegue se livrar de uma esquerda corrupta, completamente ultrapassada e indecente, com heróis que não existem, e cai numa direita medieval, obscurantista, que rasga a liberdade de ser, como se cortasse a vida em sua raiz. Os homens práticos são práticos em tudo.

 

A primeira vez que, numa palestra seguida de leitura de poemas, falei que tinha alma de mulher, assisti a uma espécie de alvoroço entre os presentes.

 

Sim, alma de mulher, alma feminina.

Gestos de mulher, gestos femininos.

 

Por isso estou desenvolvendo esse projeto de escrever com poetas mulheres e já são quatro livros, o poema masculino e o poema feminino, o poema feminino e o poema masculino.

 

Esses dois poemas dialogam entre si.

 

Já escrevi livros de poemas com uma poeta espanhola Montserrat Villar González; com a brasileira Thereza Christina Rocque da Motta; com a portuguesa Leocádia Regalo; e com a italiana Stefania Di Leo.

 

Escrever com essas “poetisas” me deu a certeza do que penso.

 

Defendo que a mulher escreve poesia melhor do que o homem.

A poeta mulher tem mais sensibilidade, tem outro olhar, outra observação, é mais delicada ao escrever, mais elegante.

 

Pois foi essa alma de mulher, essa alma feminina que moldei dentro de mim, para chegar à a poesia que desejo, encontrar essa poesia que quero escrever.

 

É preciso dizer que essa questão não ocorreu agora. Não. Isto vem de muito longe. Só agora, no entanto, decidi colocar isso em discussão. As pessoas começam a compreender melhor o que quero dizer, o que pretendo fazer com minha poesia, onde quero chegar, onde posso chegar.

 

E essa questão da alma feminina vem sendo elaborada por mim há muitos anos, na minha produção poética. Há muitos anos.

 

Sendo assim, resolvi agora escrever um livro como mulher, este “47 poemas femininos”, em que incorporei esse sentimento feminino para colocá-lo em minha palavra, às minha poesia, no poema que se elabora com esse olhar da mulher muito mais abrangente do que diz respeito à sensibilidade.

 

Posso dizer que não é fácil. Isso exige uma transformação interior que não significa mero exercício literário. É mesmo entrar nesse universo feminino e percorrê-lo poeticamente, sobretudo com dignidade.

 

A poesia há de ser digna. A poesia há de ser nobre. A poesia há de ser a manifestação mais profunda do homem em relação à vida, em relação a tudo. É o que tenho feito desde adolescente, quando me senti poeta e percebi o significado disso. E posso dizer que esse sentimento faz parte do que sou, do que me fiz ao longo da vida. Esse sentimento faz parte de tudo que faço, absolutamente tudo, em todos os passos, em todas as palavras, lágrimas, feridas que não fecham, mágoas que não vão morrer nunca e possíveis alegrias que às vezes se mostram nos cenários quase sempre sombrios.

 

Este livro, “47 poemas femininos”, representa o resultado dessa trajetória de indagações em torno da poesia, da realização da poesia e do significado que a poesia tem ou pode ter na vida das pessoas.

 

Percorri esse universo que pertence à mulher no que diz respeito à linguagem e à maneira de sentir, à observação, ao gesto e, no fundo, à própria poesia. Porque, ao meu ver, existe sim poesia masculina e poesia feminina. E, ao meu ver, nem poderia ser diferente. Basta olhar e sentir.

 

Saúdo, pois, meu próprio livro, porque com ele alcancei o que sempre desejei, não em poemas esparsos, mas numa obra inteira, com todos os poemas escritos por uma mulher incorpora num homem enquanto produzia essa poesia especial.

 

Não é fácil, como já afirmei. Não é fácil, porque essa incorporação implica em transformações que percorrem o que existe de vida, o que ainda pulsa, o que se desvenda e se descobre.  

 

Acho que, de certa maneira, tenho conseguido meu objetivo de maneira honesta com a poesia e comigo mesmo. E isso me basta.

 

Obrigado.

DISCURSO DO POETA NO LANÇAMENTO DE “47 POEMAS FEMININOS” EM COIMBRA

Em nome da CMA tenho a honra e o prazer de vos dar as Boas Vindas a esta Casa dos Livros, que hoje acolhe, com enorme satisfação, o lançamento do livro “47 poemas femininos” da autoria de Álvaro Alves de Faria, poeta brasileiro com origens no concelho de Anadia.

 

Poeta, escritor, jornalista e artista plástico. Trabalhou como editorialista e chefe-geral da Rádio Jovem Pan de São Paulo, no começo dos anos 80 até 2015. Uma rádio ouvida em muitos estados brasileiros.

Com mais de 50 livros editados no Brasil, foi distinguido, ao longo da sua carreira, com vários prémios literários, destacando-se, mais recentemente, em 2018, o Prémio Poesia e Liberdade Alceu Amoroso Lima, no Rio de Janeiro, e em 2019, o Prémio de Poesia Guilherme de Almeida, em São Paulo. São dois prêmios consagradores.

Dedicou-se, por mais de 15 anos, à poesia de Portugal, onde tem  21 livros publicados.

Poeta da Geração 60, pela sua oposição à ditadura no Brasil acabou preso por 11 meses de prisão. Três anos depois, por sua militância política, levou um tiro na cabeça.

 

Esta é a segunda vez que o Município de Anadia dá espaço à divulgação da obra do ilustre poeta (a primeira foi em setembro de 2002, no Centro Cultural de Anadia), que, nunca esquecendo as suas origens, recorda e visita com frequência o nosso concelho.

 

Nesta tarde prestaremos uma singela homenagem ao autor e aos seus familiares, em especial, à sua mãe: Lucília Alves Neves (Portugal) / Lucília Alves de Faria (Brasil) e suas tias:

- Hortense Alves Neves;

- Virgínia Alves Neves;

- Alda Alves Neves;

- Maria de Lurdes Alves Neves

- Maria Rosa Alves Neves, que em muito contribuíram para a sua formação como homem e poeta.

 

Maria Aurélia Pontes, (Lela), uma das primas do poeta, professora aposentada, residente na Póvoa do Varzim, não pode estar presente mas quis deixar o seu contributo a esta homenagem.

Passo a ler:

 

*

 

-“A minha tia foi para o Brasil quando tinha 17 anos. Casou mais tarde com o Sr Álvaro Diasde  Faria, dono de um Café, onde trabalhavam conjuntmente até até a morte dele, há mais de 40 anos. Quando convivi mais com minha tia Lucília, no Brasil, ela já estava viúva há alguns anos. Sendo eu já mãe de 3 filhos, adulta, desabafava com ela sobre as diferenças de cultura que ia encontrando. E descobri nela uma pessoa séria, de palavra, austera, de vida simples, a viver sozinha, embora tivesse os filhos bem perto. Ia fazer as suas compras à feira, comia muito pouco, só não deixava faltar a fruta em sua casa. Passava os dias dentro de casa, só vinha cá fora regar as suas plantas. Um dia telefonou-me para eu ir ver um limoeiro que nasceu na laje da entrada da casa. Fiz eu uns quilómetros para ver uma pequena planta... realmente ela dava valor a pequenas coisas, e a árvore vingou e deu frutos.

 

Via os noticiários de manhã à noite. Pelos anos 84/85, já não me lembro se foi nessa altura que a moeda  passou de cruzeiro para cruzado, ela mandou recado para o meu marido, que as coisas iam mudar, que tivesse cuidado com a inflação, pois o Brasil não era como Portugal. Achei muita graça já que o meu marido lidava com as finanças da firma. Um dia levei outro recado dela e o meu marido comentou: “Acho que se a tua tia estivesse como ministra, sabia mais e era mais sensata que este governo...”. Era a Televisão a sua grande conselheira.  Ela tinha duas no quarto, usava uma de manhã e outra de tarde, para não aquecerem.

 

Minha tia Lucília, bem como as suas 5 irmãs eram muito trabalhadoras e sérias, todas elas, mas independentes. Possivelmente iguais a nós, filhas e sobrinhas ... ou será que somos nós que somos parecidas com elas? Não posso deixar de pensar, agora que tenho 75 anos e muitos anos de estudos sobre várias áreas da  espiritualidade, que na vida há mistérios que não compreendemos, há realmente uma cadeia de ligações - para os cientistas o ADN - tanto físicas, como emocionais, como espirituais, há todo um Legado Ancestral que nos pode ajudar a usar a história familiar para descobrir as chaves da nossa identidade emocional e espiritual.

 

Como é que me dei tão bem com aquela tia com quem convivi tão pouco? Uma em cada geração, é certo, mas as duas tivemos a coragem de imigrar. E não foi fácil para nenhuma de nós. Como é que seu filho Álvaro se sente " em casa" junto da gente? Se sente bem em Portugal?

 

Se olharmos bem, todos temos algo de poetas, de sonhadores, uns mais que outros, uns trabalharam esse lado, outros não, mas os mesmos princípios éticos e morais. Algo que nos une e que espero continue a acontecer, mesmo que as vicissitudes da vida nos possam afastar uns dos outros, de vez em quando.”

 

*

 

Em nome da CMA, cumpre-me, apenas, agradecer a vossa presença, dar por terminada esta cerimónia de apresentação do livro “47 poemas femininos” e convidar-vos para um espumante de honra que será servido na Cafetaria da nossa Biblioteca Municipal, local onde estará, também, o autor, a autografar os livros para quem assim o desejar.

Muito Obrigada e continuação de uma excelente tarde!

PALAVRAS DE SÍLVIA FERNANDES,

COORDENADORA DA BIBLIOTECA MUNCIPAL DE ANADIA

SER UNO MISMO EN LA DUALIDAD

 

Dice Álvaro Alves de Faria, o su álter ego femenino, “A poesia é mulher” y yo añado, como lo es la luna, esa luz silenciosa que nos observa cada noche y es inicio de tantas historias mágicas que conforman nuestra cultura y sueños. Pero en frente de estos dos elementos podemos situar al poema y al sol, ambos masculinos, como lo es el hombre que ha destapado su alma femenina en estos 47 poemas que ahora tengo entre mis manos.

Y he comenzado a leer confundiendo femenino con feminismo, buscando esa poesía tan necesaria ahora mismo en mi país en la que las mujeres son protagonistas y buscadoras de una justicia social y de igualdad que siempre se les ha negado. Mujeres que luchan por obtener derechos que a los hombres se le presuponen simplemente por ser hombres. Mujeres que, en alguna ocasión adolecen de ese tan utilizado “sentimiento maternal” y reclaman su derecho a decidir libremente entre ser cuidadoras de su prole o de sus familiares (rol impuesto durante siglos y que nuestras madres aceptaron resignadamente) o protagonistas de sus propias vidas. Mujeres que siguen sin tenerlo fácil en un mundo de hombres, macroeconomía y productividad.

Y leo ávidamente descubriendo mi error inicial provocado, sin duda, por la cultura y el mundo en el que vivo. Descubro a una mujer que repasa su vida y es consciente de que el haber luchado por su libertad (en sentido amplio), su soledad e independencia: “Estou sozinha en mim / e isto me basta” la convierte en la única protagonista de su vida. Una mujer que prefiere la verdad y el dolor a la lírica: “Nada me diz a poesía lírica, / mas a pedra bruta/que quebra a vidraça /num golpe de raiva”. Un ser que escribe para recordar y encontrarse como se encuentra uno delante del espejo, con una única verdad “a dor que nunca para de doer”. Y, a pesar de todo, un ser que se reafirma en el derecho a decidir sobre sí misma fuera de roles y preconceptos: “Aquela que nunca soube / fazer as unhas / e sair com a roupa do domingo/ para enganar a apariencia / de quem esqueceu de viver”.

Y continúo en esa dualidad que Álvaro Alves de Faria propone: “O poeta que amo mora por dentro, / onde mantenho um mundo inverso / ao meu que não vivo […] ese poeta que é o outro lado de mim / onde termino ele começa, […]”; que se descubre en su propia sombra y se abraza a su propio cuerpo desnudo para sentirse reina de sí mismo/a. Y descubro que hay sentimientos universales que nos unen frente a todo aquello que separa lo masculino y lo femenino. Y el dolor, el corte, la llaga, la frustración, el silencio… son universales en ambos. Y cómo no hablar de la necesidad de escribir poemas que nos salven de nosotros mismos, del mundo que nos acuchilla. Una poesía necesaria para respirar y leo “Não é a alma que serve à poesia, / mas a poesia que serve à alma / no verso delicado da escrita, / a palavra que se elabora, / no poema que se escreve /quando o poeta vai embora”. Esa poesía o ese poema que nos ata a la vida que se escurre entre nuestros dedos, a ese tiempo imparable que, a veces, significa dolor y otras placer: “tudo que amei por meu desejo, / o que sempre tive e já não tenho”.

Escribir poesía es interrogarse, negarse, afirmarse, ser consciente del tiempo y de las heridas, deshabitar el olvido: “Além do mais, / sou testemunha de mim mesma / e vi coisas que queria esquecer. / Mas não esqueço”.

Así que no dudo en imaginar a ese Álvaro femenino que reescribe su vida sin ningún tipo de fraude. Porque, al fin y al cabo, la vida que a cada uno nos ha tocado vivir es la que nos hace como somos, sin importar nuestro sexo o condición. Y la poesía (femenina) no deja de estar formada por poemas (masculinos), y ambos se necesitan para tener sentido. ¿Por qué pensarse en femenino o en masculino? ¿Por qué no encontrar nuestro otro yo complementario como ha hecho Álvaro Alves de Faria y ser uno mismo en ambas caras del espejo?

 

MONTSERRAT VILLAR GONZÁLEZ

POETA

SALAMANCA, ESPANHA

 

 

 

 

SER O MESMO NA DUALIDADE

 

Álvaro Alves de Faria, ou o seu álter ego feminino, diz “A poesia é mulher” e eu acrescento, como também o é a lua, aquela luz silenciosa que nos observa todas as noites e é o começo de tantas histórias mágicas que fazem parte da nossa cultura e sonhos. Mas diante desses dois elementos podemos colocar o poema e o sol, ambos masculinos, como o é o homem que descobriu sua alma feminina nesses 47 poemas que agora tenho em minhas mãos.

E comecei a ler confundindo o feminino com o feminismo, procurando aquela poesia tão necessária neste momento em meu país em que as mulheres são protagonistas e buscadoras de justiça social e igualdade que sempre lhes foram negadas. Mulheres lutando para obter direitos que nos homens são pressupostos simplesmente por serem homens. Mulheres que, por vezes, carecem desse "sentimento materno" muito gasto interessadamente e reivindicam seu direito de decidir livremente entre ser cuidadoras de seus filhos ou de seus parentes (papel imposto durante séculos e que nossas mães aceitaram resignadamente) ou protagonistas de suas próprias vidas. Mulheres que ainda não têm facilidade para viver em um mundo de homens, macroeconomia e produtividade.

E eu leio avidamente descobrindo meu erro inicial causado, sem dúvida, pela cultura e pelo mundo em que vivo. Descubro, então, uma mulher que revisa sua vida e está consciente de que ter lutado por sua liberdade (em um sentido amplo), sua solidão e independência: “Estou sozinha em mim / e isto me basta” faz dela a única protagonista de sua vida. Uma mulher que prefere a verdade e a dor à lírica: "Nada me diz poesia lírica, mas pedra bruta / que quebra vidraça / num golpe de raiva". Um ser que escreve para lembrar e se encontra como alguém se encontra diante do espelho, com uma única verdade "a dor que nunca para de doer". E, a pesar de tudo, um ser que se reafirma no direito de decidir por si mesma fora de papéis e preconceitos: “Quem nunca é feito / não sai com a roupa do domingo / para enganar a aparência / quem esqueceu de viver ”.

E continuo nessa dualidade que Álvaro Alves de Faria propõe: “O poeta que amo mora por dentro, / onde mantenho um mundo inverso / ao meu que não vivo […] ese poeta que é o outro lado de mim / onde termino ele começa, […]”; que se descobre em sua própria sombra e abraça seu próprio corpo nu para se sentir rainha de si mesmo/a. E descubro que existem sentimentos universais que nos unem frente a tudo o que separa o masculino e o feminino. E a dor, o corte, a ferida, a frustração, o silêncio ... são universais em ambos. E como não falar sobre a necessidade de escrever poemas que nos salvem de nós mesmos, do mundo que nos apunhala. Uma poesia necessária para respirar e leio “Não é a alma que serve à poesia, / mas a poesia que serve à alma / no verso delicado da escrita, / a palavra que se elabora, / no poema que se escreve /quando o poeta vai embora”. Essa poesia ou aquele poema que nos liga à vida que escorrega por entre os dedos, neste tempo imparável que, às vezes, significa dor e outras prazer: “tudo que amei por meu desejo, / o que sempre tive e já não tenho”.

Escrever poesia é questionar, recusar, afirmar, estar consciente do tempo e das feridas, deixar de habitar o esquecimento: “Além do mais, / sou testemunha de mim mesma / e vi coisas que queria esquecer. / Mas não esqueço”. Por isso, não hesito em imaginar o Álvaro em feminino que reescreve sua vida sem nenhuma fraude. Porque, afinal de contas, a vida que cada um teve que viver é o que nos faz como somos, independentemente de nosso sexo ou condição. E a poesia (feminina) ainda é composta de poemas (masculinos) e ambos são necessários para fazer sentido. Por que pensar em feminino ou masculino? Por que não encontrar o nosso outro eu complementar como Álvaro Alves de Faria fez e ser um só e verdadeiro nas duas faces do espelho?

 

MONTSERRAT VILLAR GONZÁLEZ

POETA

SALAMANCA, ESPANHA

OTRA FORMA DE SENTIR

 

Dice el notable poeta Álvaro Alves de Faria: “Me aguarda lo que nunca olvido...”. He leído con especial gozo y atención su libro 47 poemas femininos, otro logro más que suma a su ya magistral obra poética que yo tampoco olvido nunca, pues impacta, conmueve, rasga nuestro interior y nos hace reflexionar, pues la poesía no es esa ingesta de versos bobalicones para embeleso de cursis: la Poesía es una estalactita que punza el corazón, como cuando nuestro poeta de São Paulo cuestiona esas formas: “Nada me dice la poesía lírica,/ pero sí la piedra bruta/ que rompe el cristal/ en un golpe de rabia”. Pero este libro no es un logro más: también es un aporte a otra forma de sentir del varón poniéndose en la piel de la varona (así se denomina a la mujer en el Génesis bíblico), del poeta que deja aflorar el lado femenino que todos los hombres tenemos pero que pocos, muy pocos, se atreven a manifestarlo poéticamente: “Hay en mí esa mujer/ que sueñan los poetas/ en poemas imposibles de decir”, concluye haciendo un homenaje a esa mujer que le habla por dentro. Alves de Faria, un maestro al que supe admirar nada más conocer sus versos, hace ya dos lustros del tiempo eterno.

 

ALFREDO PEREZ ALENCART

POETA PERUANO-ESPANHOL

UNIVERSIDADE DE SALAMANCA, ESPANHA

FOTOS

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Excelentíssima Senhora Doutora Maria Teresa Belém Cardoso

Presidente da Câmara Municipal de Anadia

 

Excelentíssimo Senhor Doutor Jorge Sampaio

Vice-presidente da Câmara Municipal de Anadia

 

Excelentíssima Senhora Doutora Sílvia Fernandes

Diretora da Biblioteca Municipal de Anadia

 

Minha amiga querida poeta Leocádia Regalo

 

Meu amigo querido, editor e poeta Jorge Fragoso

 

Meus queridos familiares que vivem em Anadia e outras cidades de Portugal

 

Cumprimento todas as pessoas aqui presentes que vieram assistir a este evento

 

*

 

Nunca, na minha vida, pude imaginar que um dia estaria aqui em Anadia nesta situação de homenageado na figura de minha mãe, que viveu comigo no Brasil onde faleceu com 96 anos.

 

Nunca imaginei, nem poderia imaginar.

No entanto, eis-me, como um poeta brasileiro com os pés e a vida enraizados em Portugal e, de maneira particular, em Anadia, onde vive praticamente toda minha família, pessoas que me pertencem e às quais pertenço também, unidos pelos laços da fraterna amizade e pelos laços de sangue.

 

Estendo esta homenagem à minha mãe Lucília, e suas irmãs, tia Rosa, tia Hortência, tia Lourdes, tia Alda e tia Virgínia.

 

Neste momento lembro também de meu pai, Álvaro, nascido em Angola, meu pai que me ensinou os primeiros caminhos, numa vida muito difícil, que me mostrou o mundo, a mim, uma criança. Meu pai se foi muito cedo, que passei a sentir mais depois de fechar seus olhos.

 

Não sei mesmo como poderei agradecer este acontecimento, porque não mexe somente com minha emoção, vai além: mexe com a existência, com o lugar onde minha mãe nasceu, onde percorreu seus primeiros caminhos.

 

Lembro-me que, no Brasil, quando eu tinha 7 ou 8 anos, passava os dias e principalmente as noites vendo meu pai e minha mãe ouvindo no rádio programas com notícias de Portugal.

 

Começou aí essa ligação que tenho com este país. Já na adolescência eu escrevia poemas para Portugal, sem imaginar o que seria Portugal, o que era Portugal.

 

E o tempo passou, como passa tudo. De repente me vi aqui, atraído por uma força extraordinária, que me trazia a Portugal para amá-lo cada vez mais.

 

Fico feliz quando leio alguma notícia ao meu respeito aqui em Portugal, porque sou tratado como poeta luso-brasileiro. Dediquei-me 15 anos à poesia de Portugal Eu me orgulho disso. Tenho profundo orgulho de ser chamado assim.

 

Sei o que vivi na ditadura no Brasil, o que passei, quase perdi a vida, prisões e até tiro na cabeça. Mas sobrevivi.

 

Depois, não muito depois, a grande decepção com tudo. Então eu vivi tudo aquilo para quê? Milhares desapareceram, milhares morreram, milhares foram presos e torturados. Para quê afinal?

 

Eu respondo: para engolir uma agonia que me nego a aceitar, aquela decepção provocada por gente sem caráter, por verdadeiros aventureiros da política que visam somente o poder, pura e simplesmente. O poder, mais nada importa.

 

Não é assim. Não pode ser assim. A vida a todos pertence, não apenas aos que pensam mandar em tudo, passando por cima de todos os valores que não podem ser destruídos em nome do que apenas é circunstancial. Os governos são circunstanciais, a vida, não. O povo, não.

 

Por que lembro tudo isso? Para explicar a razão pela qual transferi minha poesia para Portugal por 15 anos seguidos, publicando exatamente, até agora, 20 livros em Portugal, poesia portuguesa, com métrica portuguesa, com melodia portuguesa, com as palavras da poesia de Portugal e, em alguns casos, de maneira proposital, com as rimas de Camões e especialmente os ensinamentos de Fernando Pessoa, o grande poeta do mundo.

 

Lembro-me bem que, quando eu tinha 15 anos, minha mãe veio visitar a família em Anadia. Ficou muitos meses aqui. Quando regressou ao Brasil, levou-me uma guitarra portuguesa, porque eu já tocava violão, e levou-me também um grande pôster de Florbela Espanca, com sua fotografia e o soneto “Amar”.

 

Este pôster, décadas depois, está hoje na parede de minha biblioteca e a guitarra portuguesa, que nunca aprendi a tocar, por ser completamente diferente do violão, essa guitarra está também na parede de minha biblioteca, exatamente como minha mãe me deu, conservada com muito zelo. Hoje eu sei o que me representa a música de Portugal, o que faço sempre quando estou a escrever.

 

Quero agradecer mais à Câmara municipal de Anadia e a todas as pessoas envolvida nesta homenagem, contando com minha família. Todas essas pessoas de Anadia que, de alguma maneira, convivem comigo, dentro de mim, onde vive o sonho que não pode morrer. Sem sonhar, o homem não vive.

 

A poesia é essa afirmação de fé na vida. A poesia que, em mim, preenche todos os espaços e todos os espaços pertencem ao povo, esse povo que aceita tudo, que se cala, que silencia quando devia fazer ouvir sua voz como manifestação de luta. Esse povo que devia quebrar as algemas para mostrar seu aceno e sua bandeira em seus princípios democráticos e os princípios democráticos não têm dono pertencem a todos.

 

Portugal é o meu país do coração. Uma terra que, mesmo à distância, me ensina tudo que sei da vida e da poesia. Uma terra que vive dentro de mim, como um vaso que cuido com zelo, um vaso que tem alma. E haverá de ser sempre assim.

 

Uma terra que me faz ainda acreditar e prosseguir neste trabalho árdua que é a poesia e eu tenho plena consciência do que represento hoje na poesia brasileira, porque não faço concessões às facilidades reinantes no Brasil onde, atualmente, reina uma mediocridade aviltante para os que ainda conseguem pensar. E são poucos os que ainda pensam porque o Brasil é um país que está sem rumo, à deriva num oceano aguardando o dia do naufrágio.

 

Portugal transformou-se no encantamento que sempre busquei. E Anadia faz parte desse encanto onde nasceu minha mãe, equivale dizer onde eu nasci também, junto com ela, com os mesmos princípios de me colocar na vida com dignidade.

 

Anadia tem, em mim, uma representação especial, terra de minha mãe, terra das irmãs de minha mãe, terra dos país de minha mãe, dos avós de minha mãe, terra em que ela está em todos os lugares e no rosto de cada um de meus familiares que igualmente aqui nasceram e aqui vivem.

 

Sendo assim, Anadia vive em mim silenciosamente, representando minha própria memória, numa memória cada vez mais viva dentro de mim, cada vez mais viva dentro de mim.

 

Guardo Anadia no lado esquerdo de meu peito, onde bate um coração que ainda acredita, que é preciso seguir sempre, em nome da vida e do que resta viver em nome dos princípios básicos da solidariedade, da vida do homem, da mulher, da criança, das plantas, dos animais, em nome da vida. É preciso seguir sempre.

 

Muito obrigado

DISCURSO DO POETA NO LANÇAMENTO-HOMENAGEM

EM ANADIA, ONDE NASCEU SUA MÃE.

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Segundo Orígines de Alexandria, o filósofo neoplatónico grego, o homem interior comporta um espírito e uma alma: o espírito é masculino e a alma é feminina. A estrutura do homem interior suporta-se, assim, na união de elementos distintos de género: o raciocínio e a afectividade; o conhecimento e a abnegação. Esta referência apenas tem razão de ser para justificar a minha leitura de 47 Poemas Femininos, uma vez que, neste conjunto de poemas que determinam um percurso interior, o Poeta, em atitude labiríntica, interpela as faces de Eva que, afinal, existem nele próprio, como certamente em todos os homens, mas assumir e expressar poeticamente esse lado oculto é apanágio de muito poucos.

 

 

Note-se bem que Álvaro Alves de Faria não optou pela heteronímia, não foi criar uma personalidade com nome feminino para congeminar 47 poemas, nem tão-pouco os escreveu no feminino. A voz que esta poética revela é uma voz de mulher. Portanto, não existe qualquer equívoco na criação desta obra – ela é tão-só a assunção dessa dualidade que Jung e Bachelard desenvolveram: “animus”(ânimo, espírito) versus “anima”(alma) coexistem no nosso inconsciente; o princípio feminino “yin” e o princípio masculino “yang” conjugam-se como expressão do dualismo e da complementaridade na personalidade interior. Partindo deste pressuposto, o caminho poético escolhido pode parecer máscara ou duplicidade, mas não é. Diria mesmo que se trata, sim, de autenticidade.

 

 

O sujeito poético reflecte mesmo sobre esta dualidade, quando, no poema 31, afirma: A alma não existe/ como me dizem os sacerdotes,/ mas sei que tenho dentro de mim/ meu espírito/ que tantas vezes a chamar-me/ se desespera. O mais interessante é que esta revelação já tinha sido feita pelo poeta em livros anteriores. Fui encontrar o poema com o título “Masculino” no livro À Flor da Pele, publicado na editora Temas Originais, na Colecção Mínima, que passo a citar: A mulher que vive em mim/ colhe uvas nas quintas/ com um avental de acasos.// Mas sou homem/ e detesto minha condição masculina/ de observar tudo com olhar autoritário.// Prefiro a subtileza feminina,/ aquela que aflora na pele,/ no silêncio da palavra.// A mulher que vive em mim/ morreu ontem./ Matou-se num momento quieto,/ quando todos os objectos da casa/ estavam se desfazendo.// Não me feriu em nada,/ apenas adormeceu/ com seu comprimido de fazer sonhar.// Vive a colher uvas/ com um avental de acasos/ e as unhas rente à pele dos dedos.// Matou-se como se matam os pássaros,/ mas deixou-me o coração/ pulsando em cima do móvel da sala.

APRESENTAÇÃO DA POETA PORTUGUESA LEOCÁDIA REGALO

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Fragoso, Faria, Sampaio y Regalo, en Anadia

Ao assumir essa voz, o sujeito poético joga com uma frontalidade que, por vezes, aspira a uma inteireza andrógina, tendo a poesia como essência da sua expressão. No poema 7, lê-se: Guardo-me na minha condição/ e a poesia haverá de respeitar-me/ ao dizer-me em suas palavras.// Despida do que me sou,/ vejo-me inteira, sem disfarce,/ inteira, sem receios/, inteira, sem culpa.

 

 

E no poema 8, na primeira estrofe, o sujeito poético apropria-se do fingimento poético pessoano, transgredindo-o: Não sinto mais a dor,/ porque já faz parte de mim,/ pulsa comigo o pulso da vida/ e finjo sentir a dor/ que deveras sinto. Sempre esta voz feminina que realça a dor, o sofrimento, como parte integrante da mulher. No seu percurso pela vida, incorpora-a, numa justificação estóica. A prece é o único bálsamo que a consola, assim como a memória da leveza de momentos vividos como se estivesse numa festa/ vestida de bailarina/ com passos largos/ numa valsa vienense. No entanto, a condição feminina destrói todos os seus sonhos. O sujeito poético abre o jogo, rasga o sudário e conclui o poema com uma expressiva comparação que vem explicar esse drama interior: Termino-me como um escritor/ que conclui um romance/ e sabe que todos os personagens/ acabam de morrer. Assim, o cepticismo, um desespero inerente, a revolta, também, assolam o âmago da consciência desta mulher que declara: estou cansada/ e nada me leva mais/ a acreditar na existência. (poema 9).

 

 

Ela já não se revê na poesia lírica – aquela que os Clássicos e os Românticos eternizaram na corda tensa entre Eros e Thanatos). Só a poesia, que denuncia o seu infortúnio e a injustiça e o mal-estar que, ao longo de séculos, recaíram sobre ela, a pode dizer, na sua raiva. No poema 29 há uma assunção explícita da identificação: A poesia é mulher,/se não fosse mulher/ não seria poesia. diz o sujeito-poético; e, como que colando a opinião do escritor a essa voz feminina: A mulher não escreve poemas belos,/ mas delicados,/ por mais que esteja tudo quebrado/ a mulher escreve palavras elegantes/ como a dor/ que nunca pára de doer.(poema 12). Ou então: Há em mim essa mulher/ que sonham os poetas/ em poemas impossíveis de dizer (poema 47).

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Alves de Faria leyendo en el Liceo (octubre de 2019. Foto de José Amador Martín)

A sombra que persegue a mulher é a sua outra face, a sua interioridade: Sou a rainha/ de mim mesma/ e também/ minha própria sombra/ que não me segue mais ( poema 39). Do mesmo modo, a sua reflexão no espelho leva-a a explicar: Narcisa,/ estou partida ao meio,/ entre a alma/ e o devaneio,/ o pecado/ e o receio. (poema 11), considerando que a intuição, um sexto sentido e a intimidade são qualidades por excelência nela. Por isso, no poema 15, constata: A alma da mulher/ é diferente/ (…) Vê mais,/ sente além,/ o que não se alcança/ e se perde/ na própria alma/ que a mulher guarda/ e a ama sozinha. E vai mais longe, o sujeito poético, no poema 13, sendo assertivo ao revelar: Toda mulher/ tem um amor escondido.// Nem ela sabe,/ mas tem.// Um amor com que sonha/ todos os dias.// Todas as noites/ e madrugadas.// Com esse amor/ essa mulher amanhece.// Com ele,/ adormece// Mas ela não sabe. E, como se não bastasse toda esta revelação, ainda acrescenta no poema 28: O poeta que amo/ é o outro lado de mim,/ o que me mantém viva,/ (…) porque o poeta que amo/ é meu irmão.

 

 

Sabemos que a poesia é a expressão literária que permite penetrar nas recônditas e profundas paragens da consciência, precisamente porque a própria linguagem adquire uma ressonância e simbologia subjectiva, que compete ao leitor captar nas suas faces poliédricas. Escrever poesia é sempre um acto de coragem, de exposição, de exploração do que no mais íntimo de nós pode viver. Neste aspecto, este livro de Álvaro Alves de Faria é simultaneamente uma dádiva íntima, que através da publicação se perpetua, e um hino de empatia com a condição feminina pela forma especular que o poeta usa na sua escrita. Como se a própria poesia que, segundo ele, é mulher convivesse no seu secreto existir com o homem, dotado de outra dimensão que é o ser masculino, e gerasse com ele uma perfeita paixão, no sentido primordial do termo, relacionado com o amor e com o sofrimento, num reflexo permanente que o espelho lhe devolve.

 

 

Este complexo entendimento da realidade é manifestado neste poemário em variadas circunstâncias: no desejo de ser mulher na sua inteireza, pautada pelo cansaço feminino, reconhecendo a falta de afirmação e de liberdade; na rejeição da clausura que a mulher impôs a si própria e na procura incessante do amor; na solidão feminina determinada pelo destino fatal que marca Eva, desde o Paraíso; na aceitação da rotina, se houver o espaço/ e a liberdade de dizer/ a palavra precisa/ que pega certeira/ na vida do homem/ e faz renascer/ o que já foi nobre/ alguma vez, (poema 23); na passagem inexorável do tempo e na constatação da condição feminina que se rende à compaixão e à resignação (Quero fugir de mim,/ mas não consigo,/ guardo-me nas minhas queixas/ para assim morrer comigo. – poema 45); na necessidade da fuga existencial, de resguardo e recolhimento, no sentido de um isolamento que conduz a mulher ao esquecimento do próprio destino; na espiritualidade feminina que se opõe à existência de uma alma na concepção cristã; na conjugalidade como cativeiro; na prece, essa forma de relação com o sagrado que protege e salva da árdua caminhada nesta vida; na efemeridade e na iminência da morte (Parco é o tempo/ que há ainda por viver,/ esse tempo,/ esse tempo,/ esse dia,/ essa hora de morrer.// Parco é o corpo/ que em mim se perde/ na mulher que significo, - poema 46).

 

 

Em suma, esta é a poesia do que resta viver, como diz o sujeito poético no poema inaugural, a poesia que nos obriga a reflectir, que nos surpreende, que nos comove pela franca partilha do sentir, a poesia dum Poeta maior da Literatura Brasileira  que, de livro em livro, nos vai deixando a sua obra e a sua vida.

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Faria y otros poetas del XXII Encuentro en la Sala de la Palabra (foto de Jacqueline Alencar)

Poemas Femininos 2