Poemas - parte 3

e quando me torno bárbaro

na verdade me enterneço

preciso dos meus cuidados

mas em mim me desguarneço

sei que a dor me mata aos poucos

mas com ela me envaideço

brilha-me o sol à janela

mas só a treva enalteço

no espelho em que me vejo

nada em mim me reconheço

falam-me os provérbios sábios

mas com eles ensurdeço

quando penso em nascer

sinto mais que envelheço

e quando me penso lúcido

muito mais me enlouqueço

quanto mais chega a manhã

mais em sombras anoiteço

quanto mais me desfiguro

mais comigo me pareço.


De “A memória do pai”. Coimbra, Portugal, 2006

22.

Pouco sei desta memória

das vidas que desconheço

nem me sei voltar em mim

neste tempo em que padeço

a misturar todas as coisas

no que se mostra do avesso

nada sei do que me faço

nem da dor sei o começo

nunca vou onde me quero

nem me faço o que me peço

espero que chegue o dia

nesta noite em que me esqueço

minha palavra que morre

no silêncio mais espesso

vivo de mim a fugir

onde sempre permaneço

para dentro deste mar

onde em sonho me arremesso

de meu quarto sempre parto

a esperar por meu regresso

se viver é meu desejo

de morrer não me impeço

pouco sei desta memória

das vidas que em mim pereço

tantas mortes que perdidas

têm em mim seu endereço

os navios que partem breves

no oceano que escureço

este frio em minha pele

nesta blusa que não teço

quando vou ao meu encontro

mais em mim desapareço

ao fazer o meu discurso

as palavras emudeço

às vezes entro num parque

e ao ser feliz me entristeço

quanto mais me quero vivo

dentro de mim adoeço

não percorro meu jardim

pelas flores que feneço

vivo por mim a rezar

mas sempre destruo o terço

não olhar dentro de mim

é assim que me conheço

faço tudo em meu contrário

nesta escada que não desço

tiro o chapéu às pessoas

mas no gesto me despeço

só me vejo em minha ausência

encontrar-me não mereço

quando a andar evito as pedras

muito mais em mim tropeço

nada sei desta memória

no entanto resplandeço

assim se faz o poema

na medida que não meço

sei-me inútil na poesia

na palavra que adormeço

quanto mais explico o verso

quase nada esclareço

Porque calais em mim tamanho pranto,

deixo que morra aqui vosso destino,

marca-me o ferimento em vosso espanto,

o que me aguarda em vós, por desatino.

Já sabereis, Inês, em vosso encanto,

o que da vida a fúria que previno

ao vos guardar em mim, mas sei, no entanto,

que esta dor vai além do que imagino.

Morta em silêncio, Inês, assim perdida,

vós rainha que sois no encantamento

que sempre tive em mim por vossa vida.

 

Em vossa morte, Inês, em desencanto,

a voz que some e grita meu lamento

na dor que guardo agora como um manto.

De “Inês”, Coimbra, 2007

Copyright © 2008 Álvaro Alves de Faria. Todos os direitos reservados.

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