Entrevistas

O senhor publicou recentemente um livro de entrevistas com Jorge Luis Borges, Borges – o mesmo e o outro. Em vez de um tributo, representa uma desilusão com o lado pessoal do argentino, que demonstrou racismo e intolerância nas respostas. Humaniza o mito. Qual é o motivo de ter aguardado 25 anos para reunir a conversa em livro? Houve o sacrifício do fã e escritor em nome do jornalista?
Essa entrevista com Jorge Luis Borges é um marco na minha vida como poeta, como crítico literário e como jornalista profissional. Telefonei para Buenos Aires muitas vezes tentando falar com ele. Nunca me atendia. Nunca estava, embora estivesse em casa. Até que um dia resolveu falar comigo, monossilabicamente. Marcou a entrevista. Fui para Buenos Aires com a certeza de que não seria recebido. Mas fui. E o que eu achava que seria uma pequena entrevista de no máximo uma hora, acabou sendo um encontro de l2 horas, em dois dias, num setembro de 1976. Ele pediu que eu voltasse no dia seguinte. Por absoluta necessidade de falar e ser ouvido. Fotografei Borges eu sua poltrona preferida. Tomei chá com Borges quatro vezes. Falou muito e também guardou longos momentos de silêncio. De volta ao Brasil, não me senti à vontade para escrever tudo que Borges me tinha dito. Coisas absurdas e comovedoras. Uma solidão assustadora. A escuridão total de sua vida. O tratamento que tinha aos que considerava seus desafetos. Esse encontro e o homem que encontrei não representaram uma desilusão. Passei a amá-lo mais. Fiz então apenas uma pequena matéria para o suplemento Jornal de Domingo, do Diário de São Paulo, que eu editava na época. Anos depois, escrevi outra pequena matéria sobre o encontro para o Folhetim, da Folha de S. Paulo. Guardei a entrevista de Borges durante 25 anos, até que decidi colocar tudo que me falou num livro publicado pela editora Escrituras de São Paulo, com o título Borges – O mesmo e o outro. E utilizei, para isso, uma linguagem de poeta, não de jornalista. Voltei àquele clima dos dois encontros no apartamento de Borges, em Buenos Aires, onde ele vivia com sua mãe, que tinha falecido havia alguns meses. Encontrei um homem amargo, distante, que odiava — sobretudo odiava. Um homem que falava depressa às vezes, ou lentamente outras, deixando sempre que um pouco de saliva escorresse de sua boca, no canto do lábio, no lado esquerdo. Acredito piamente que se trata de um bom trabalho jornalístico e literário. Mas nem todos pensam assim. Por exemplo: um imbecil que escrevia para o Caderno de Sábado do Jornal da Tarde de São Paulo, onde eu também escrevia crítica havia 15 anos, detonou o livro e criticou até as fotos que fiz, como seu eu fosse um fotógrafo fundamental para a história do mundo e como se fotos de Borges em seu apartamento e em sua poltrona preferida fossem fáceis de encontrar. Fui o único poeta e jornalista brasileiro que teve o privilégio de um encontro com Borges, especialmente num momento negativo e profundamente triste de sua vida. Retratei tudo isso num livro amargo. Os amigos do jornalismo cultural se calaram. Não. Não queria que falassem bem do livro. Mas que tivessem a postura da seriedade. É o mínimo que se exige. O imbecil do JT deixou clara uma raiva ridícula que não pode existir no jornalismo cultural que pretende ser honesto. Mas, infelizmente, o que mais existe no jornalismo cultural são imbecis assexuados que confundem as coisas e escrevem crítica de acordo com a cor do dia ou com extensão de seus problemas pessoais. O texto que o imbecil do JT escreveu sobre o livro dá bem a idéia do que faz a grande parte da crítica literária deste país. Infelizmente.

A SALA

Poemas portugueses

Álvaro Alves da Faria

A sala que me cerca
e me sufoca no fim da tarde
é como xale da mulher
que não tenho na paisagem de Portugal
essa mulher que não vejo
mas que existe na minha memória
aldeia de cadeiras nas portas
sandálias entre os grãos da terra
que me vê distante.

Esta sala é o invólucro
em que nada se espreita
e o que há por vir não virá.

É uma sala de alguns retratos
de homens de barba por fazer:
sala sem artifícios
esta sala
que me cerca
na inutilidade de estar presente
como se de mim partissem
as aves que não migram mais.

Em mim estão as palavras sem sílabas
essas feitas de mudez e da poesia das paredes.

Esta sala que me cerca
aos poucos também me liberta
já que a poesia é um ato
de se cortar por dentro:
suicídio de quem pressente a claridade.

A sala
é uma caixa que se fecha ao mundo
esta sala
que me espanta entre vitrais e igrejas
esta sala
é o salto que se deseja
onde desejos não há mais:
esta sala
é a ausência das pessoas.
Tudo é circunstância
na poesia e fora dela:
esta sala que me corta em fatias
dedos de arame
a percorrer o giz da lousa
dos azulejos das janelas
esta sala
de palavras nulas
de rugas escassas:
esta sala
esta cela.

Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta. Autor de Terceira sede (Escrituras, 2001), Um terno de pássaros ao sul (Escrituras, 2000) e As solas do sol (Bertrand Brasil, 1998)

Álvaro

Alves
de Faria

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