Álvaro

Alves
de Faria

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Canal do Poeta

Perdôem-me estas palavras numa noite de poesia. Mas eu não posso fugir ao compromisso que tenho comigo mesmo. O compromisso que eu tenho afinal como o meu país. Como brasileiro, como poeta brasileiro, esteja eu onde estiver, não posso deixar de denunciar a farsa de sempre, a corrupção que aniquila biografias em nome e pelo poder. O que vale é chegar ao poder. O povo é só um detalhe.

Não, não é só um detalhe. Não pode ser só um detalhe. Nunca será um detalhe. O povo é a Nação que se busca, que se faz, que trilha desencantamentos e se liberta justo a todos. Que faça sua justiça para os que estão à margem, em nome de sua própria história.
Tenho ainda a ousadia de sonhar, de sonhar com um mundo
o melhor, de sonhar com um mundo que seja ele mesmo o próprio sonho. Que seja esse sonho de todos os homens, de todas as mulheres, de todas as crianças. O país é meu pano de fundo nesse teatro que me imagino, personagem de mim mesmo, como se isso fosse possível.

Por motivos assim busquei a poesia em Portugal, para salvar-me na terra de meus pais, onde vivem minhas raízes e talvez os últimos sonhos que ainda tenho para viver em forma de poesia, que é minha respiração.

Em Portugal, a partir de Coimbra, pude sentir o que necessitava, escrevendo os poemas que me nasceram de uma terra que, de alguma maneira, também me pertence, a terra de minha mãe, a terra de meu pai, que nasceu em Angola. Tanto é assim que meus últimos cinco livros de poesia foram publicados em Portugal, em Coimbra, onde vive minha alma.

Agora, Salamanca. Eu não acredito em coincidência, nem em coisas ocasionais. Eu acredito na vida. Assim, eu vejo e sinto uma ligação iniciática nestas terras que estou percorrendo nos últimos anos, a me descobrir: primeiro Coimbra, agora Salamanca, agora este cenário poético que se abre nesta cena existencial, agora o retrato de outras vidas aqui passadas, aqui vividas, a mesma linha a seguir, a mesma tarefa a cumprir, os mesmos passos com sapatos antigos tanto em Coimbra como em Salamanca, onde deixo esta primeira palavra, o primeiro poema.

O que dizer de Salamanca ? As palavras são poucas, sempre serão poucas para explicar Salamanca, desde que a conheci pela primeira vez, encantado que fiquei. Não há outra linguagem senão a da poesia para explicar esta cidade da Espanha, sua imagem da Idade Média, sua imagem do Renascimento, sua imagem do hoje, do agora, sua imagem de ruas antigas que guardam os passos de uma poesia que contagia e não se apaga, a começar por essa universidade que guardam os passos antigos dos mestres da vida.

O que dizer de Salamanca se não recorrer à poesia ?

O que dizer destas ruas, destas paredes, destas igrejas, destes santos, desta alma, destas pedras, destas praças, destes pátios, desta palavra que salta da boca em forma de poema ?

O que dizer de Salamanca se não recorrer à poesia ?

Ou falar com a voz de Miguel de Unamuno, que pertenceu a esta Universidade como professor e reitor, de onde saiu exilado, para onde voltou, referência intelectual num país já ferido pela guerra civil, com uma proposta ideológica consciente, o que também lhe valia para a literatura, a filosofia e a poesia. Quarenta anos na Universidade. Os olhos a ver fuzilamentos, quinhentas vidas ceifadas.

Antes justiça que paz. Antes Justiça que paz.

A fé, o Cristo, a vida, a morte.Unamuno preso. Unamuno morto. A alma de Unamuno em Salamanca. Salamanca, a alma de Unamuno.

Uma alma de asas douradas. Salamanca, onde viveu até o fim. Salamanca de muitos de seus poemas.

Será também preciso lembrar a figura de Frei Luis de León. Os problemas com a Inquisição. A prisão. Cinco anos de cárcere, como se não tivessem existido. Como se todo o tempo fosse de ontem para hoje. Apenas isso. E foi assim mesmo, em seu coração. Na sua mesma universidade, sua existência.

É preciso sublimar tudo, é possível que tudo seja divino, é possível que a palavra seja o fogo da vida, seja o que ainda se salva num mundo feito de perversidade. E nessa sublimação talvez seja possível viver a possibilidade da vida. A possibilidade da fé. A possibilidade da possibilidade. A possibilidade religiosa de existir, esse milagre do dia-a-dia. Esse esperar-se em si mesmo, como se a se fazer e se refazer sempre, a cada instante do tempo.

Não há muito a dizer, embora tudo esteja por ser dito. Lembro Unamuno e Frei Luis de León apenas como dois exemplos. Duas palavras. Duas faces. Duas vidas. Dois cantos para lembrar Salamanca, terra de Espanha que passa também a viver na terra que tenho por dentro de mim, as palavras de Salamanca, as pessoas de Salamanca, os poetas de Salamanca, essa poesia que haverá de queimar-me sempre, por dentro, onde não existo, onde ainda me busco.

Quero então recordar-me de meu país, onde as sombras caminham sempre impunes. Mas há também as cores, há também um povo, há também os homens diante das fábricas, há também o sonho que não morre, apesar de tudo, o sonho não morre, nem morrerá. Esse sonho de sempre seguir. Esse sonho de sempre cerrar os punhos e dizer o grito mais profundo da dor ou da alegria, essa palavra tantas vezes violentada em promessas, nos equívocos de tantos caminhos sem rumo nenhum, na face de uma gente que espera, espera, espera, só espera por um destino que não chega nunca.

Muitas vezes me olho no espelho e me pergunto quem sou. Não sei me responder porque na verdade não sei não mesmo quem sou, mas sei o que sou. Observo-me com atenção e vejo os fios brancos da minha barba, meus cabelos compridos, meus dedos trêmulos, meus olhos sem brilho e a tez pálida. Sinto então que sou apenas um homem que preferiu a poesia para viver, que preferiu a poesia como ética de vida, que preferiu a poesia para sentir o mundo. É a maneira mais cruel de me ferir com a bruta solidãode um tempo sem saída.

(Seguiu-se uma leitura de poemas de “Habitación de Olvidos”)

DISCURSO DO POETA TRADUZIDO PARA O ESPANHOL E DISTRIBUÍDO AOS POETAS PARTICIPANTES E AOS PRESENTES NA ABERTURA DO ENCONTRO

Palabras de Álvaro Alves de Faria
Salón de Recepciones del Ayuntamiento de Salamanca
26 de octubre de 2007

 Con sinceridad, no sé cómo agradecer este homenaje, por la importancia que representa en mi vida y por su significancia para mi poesía, de manera particular.

No obstante, comienzo agradeciendo al señor alcalde de Salamanca, don Julián Lazarote Sastre; al señor presidente de la Fundación Camino de la Lengua Castellana, Luis Alegre Galilea; a Juan Francisco Blanco, director de la Fundación Salamanca Ciudad de Cultura; a la concejal de Cultura de Salamanca, Isabel Bernardo. También agradezco a Pilar Fernández Labrador, anterior concejal de Cultura, que hizo el primer contacto conmigo, llamándome a Brasil; También doy gracias los profesores miembros del comité organizador de este Encuentro y, junto a ellos, a María Jesús Rodríguez Macías, de la Fundación, que se encargó de las cuestiones relativas a mi viaje a Salamanca; al pintor pintor Miguel Elías, que hizo mi retrato para la antología.

Saludo y expreso mi gratitud a los poetas participantes de este Encuentro: José María Muñoz Quirós, Verónica Amat, Helena Villar Janeiro, Carlos Aganzo, Jordi Doce, Pío Serrano, María Fernanda Espinosa, Jorge Fragoso (mi editor en Coimbra, quien me ha dedicado una atención inmerecida), Luis Alberto Ambroggio, Julio Espinosa Guerra, Álvaro Mata Guillé y Mario Alonso.

Y, finalmente, a un poeta hermano de alma que yo no sabía que tenía en Salamanca, el mismo que me pidió no ser citado en cualquier agradecimiento que hiciese. Pero no puedo atender la petición de ese querido amigo. Hablo de Alfredo Pérez Alencart, quien seleccionó y tradujo mis poemas para la antología Habitación de olvidos, título que él extrajo de un verso -“quarto de esquecimentos”-, hecho que no olvidaré nunca, por su dedicación, su cordialidad, su trabajo generoso: un poeta que aprendí a admirar por su despojamiento, por su poesía, por su gesto de palabras. Acepte mi gratitud.

* * *

Desde el principio digo que no soy merecedor de este homenaje. Pero las cosas suceden y, en verdad, no suceden por azar. Para personas de mi condición es muy difícil hablar en ocasiones como esta. No obstante, es necesario destacar el honor que siento por este momento, nunca imaginado en mi vida, que fue siempre de lucha en relación a la poesía que tuve en mí siempre como verdadera militancia, particularmente en los años más oscuros de la historia reciente de mi país.

  Me acuerdo del niño que, con doce años, era jardinero y recogía estiércol en la periferia de São Paulo, para preparar la tierra donde pondría las plantas. Era la forma de sobrevivir. Me acuerdo del niño que escribió su primer poema a los once años, un breve poema que tenía todas las rimas terminadas en “ar” y “ão”, las más fáciles de la lengua portuguesa, un breve poemas que ese niño escribió para su perro.

  Después el tiempo fue siguiendo su camino natural -yo creo en las cosas naturales- y con poco más de veinte años era detenido varias veces por decir poemas en uno de los lugares más conocidos del centro de São Paulo, el Viaducto de Chá.

  Eran poemas de un libro que se volvió famoso, “El Sermón del Viaducto”, escrito con lenguaje bíblico. Un micrófono, cuatro altoparlantes y una voz diciendo poemas que tenían el objetivo de salvar el mundo. Yo creía que la poesía podía salvar al mundo. Hoy sé, después de muchos años, que el mundo no tiene salvación. Lo que se salva es la poesía todavía posible, en cuanto existan poetas que respeten la poesía como un oficio de vida, que hagan de la poesía una especie de oración por los hombres, por las mujeres, por las plantas, por los animales.

  Vengo de un país donde la poesía, lamentablemente, se ha vuelto una cosa extraña. Me refiero a cierta forma de poema que da valor únicamente a su forma gráfica, dejando su contenido poético en un plano inexistente. Yo prefiero creer en la palabra, lo que equivale a decir creer en el poema y en la poesía de ese poema. En ese poema que viene de la vida, de la tierra, del miedo, del horror.

  Soy una especie de disidente de la poesía brasileña, por lo menos de la que se produce actualmente, descontando las excepciones de los poetas verdaderos que tienen a la poesía como un oficio de vida. Pero tal vez esa poesía escrita actualmente en mi país -sin ningún sentimiento, sin ningún tipo de emoción, toda amparada por un periodismo cultural que muchas veces llega a ser indecente- sea uno de los retratos fieles de mi país. Sea, finalmente, uno de los retratos fieles de todas las cosas del mundo en que vivimos. El poema que se niega a la propia poesía. En mi país, los poetas -en su grande mayoría- se transformaron en tecnócratas del poema.

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