Entrevista / Vagalume

Álvaro

Alves
de Faria

ENTREVISTA COM O POETA

NELLY NOVAES COELHO, ensaísta, crítica literária, doutora em Letras, Livre Docente e Professora Titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

P.Como ousas pensar-te um “ex-poeta” ? Agora é tarde...não percebeste que durante esses anos todos de criação, angústia e exaltação poética, aos poucos foste saindo do Tempo e entrando na Eternidade ?

AAF - Sua pergunta, Nelly, recebo como uma homenagem de alguém que me acompanha praticamente desde a adolescência. É uma pergunta poética. Uma pergunta afirmativa. Como posso pensar-me um ex-poeta ? Pelo desencantamento, Nelly. Pelo desencantamento. Sou mesmo, confesso, uma pessoa desencantada. Um ex-poeta desencantado com os rumos da poesia em seu país, um setor da literatura que se transformou um campo de aventureiros e gente que não vale nada. Sempre, sempre ressalvando as exceções, não vale a pena perder tempo com isso. O cenário que se vê atualmente no Brasil, no que diz respeito à poesia, particularmente, é de absoluta melancólica. Você sabe, Nelly, que sempre fui uma pessoa combativa, inclusive na poesia e também no jornalismo. Sempre foi assim. Mas com o passar dos anos e juntando as experiências que a própria vida impõe, a gente vai percebendo alguns descalabros que antes não via. Ou talvez preferisse fazer de conta que não via. A questão, infelizmente, não se restringe só na discussão literária, porque entra, também, no comportamento. O que se vê atualmente, especialmente no jornalismo cultural, na crítica literária, é de um absurdo inadmissível. Qualquer país medianamente civilizado não aceitaria o que ocorre por estas plagas. Mas não. O Brasil é assim mesmo. É uma ferida no peito, como diz o meu amigo Affonso Romano de Sant´Anna. Uma ferida no peito. E como dói, utilizando a frase de Drummond vendo a foto de Itabira na parede. E como dói. O que essa poesia é maltratada por uma gente que tem pleno amparo no jornalismo cultural e nas universidades não se pode aceitar. Não é possível que um país como o Brasil viva só de mazelas. Só mazelas. Mazelas em tudo. Em tudo. E nisso entra a poesia, que é meu ofício existencial. E diante desse quadro, transformei-me, sim, num ex-poeta brasileiro. Fui tentar a vida em Portugal, onde estão os meus encantamentos ainda possíveis e onde a poesia ainda existe, é palpável, está presente. A gente sente o gosto. A gente sente as letras, as sílabas, as palavras, os versos, o poema. Suas palavras sobre mim são mais que generosas, são também poéticas. Não sei, Nelly, se estou entrando na Eternidade, como você diz, mas do Tempo eu já saí há muito tempo.

JORGE AVELAR FINATTO, poeta, Juiz de Direito, Coordenador Cultural da Escola Superior da Magistratura, Porto Alegre, RS.

P. O trabalho literário em torno da escultura Torre de Babel, de Valdir Rocha, sendo esta o leimotiv de onde partem os poemas por diferentes caminhos, resulta no instigante, belo e inspirador livro “Babel”. Percebo, nesta obra, um certo clima de despedida, em textos como o Poema 30, onde está escrito: “Sou um poeta em via de extinção/ daqueles que acreditavam no sonho/ sobretudo na poesia”. Quando você escreveu o livro havia esse sentimento de saída de cena ?

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