Entrevista / Vagalume

Álvaro

Alves
de Faria

ENTREVISTA COM O POETA

 AAF - Caro Alfredo: O Sermão do Viaduto existe em mim até hoje. Houve, sim, um tempo em que o social fazia parte de minha poesia e ainda faz, mas com outra linguagem e em outros espaços, fora dos poemas. Nunca fui panfletário, embora nada tenha contra isso. Os poemas sociais que escrevi sempre tiveram por base a poesia. Aprendi bem isso, quando, nos anos 70, fazia parte do Centro Democrático Espanhol, que funcionava clandestinamente em São Paulo. Essa entidade fez uma homenagem a Garcia Lorca, inaugurando um monumento feito por Flávio de Carvalho a partir de um desenho do poeta. Na época, eu fui o poeta jovem que leu um poema na cerimônia atrás da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no centro da cidade de São Paulo. O monumento foi destruído na mesma noite pelo Comando de Caça aos Comunistas, o famigerado CCC. O monumento foi encontrado anos depois num depósito da prefeitura paulistana e colocado em outro local da cidade. Nesse tempo eu ainda acreditava. Sinto-me triste ao falar sobre isto. Quanto à “linguagem dos profetas” acredito, sim, que ela esteja em O Sermão do Viaduto, que tem, mesmo, uma linguagem bíblica. Fiz nove recitais no Viaduto do Chá, com microfone e quatro alto-falantes. Fui preso pelo Dops cinco vezes. A última prisão foi dramática. Fiquei sete anos sem escrever. Não foram sete anos sem publicar. Não. Foram sete anos sem escrever. Perdi sete anos na minha vida literária. Voltei com “4 Cantos de Pavor e alguns poemas desesperados”, que dediquei a Pablo Neruda, que eu conhecera no Centro Democrático Espanhol. O Sermão do Viaduto foi uma fase de minha vida. Foi uma fase no meu tempo. Felizmente, essas palavras do Sermão me são caras até hoje, porque representam, sim, um grito poético da dor mais profunda de um jovem de pouco mais de 20 anos que já conseguia ver essa angústia dos becos e dos marginalizados, dos que vivem à margem, dos que não têm nada. Eu vivo num país perverso. Eu vivo num mundo perverso, onde a crueldade parece ser a base de todas as coisas. É impossível não envolver a poesia nisso.

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